Casa JOTA

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Brasil poderia transformar meio ambiente no maior gerador de renda e bem-estar

De acordo com pesquisadores e ativistas, país perde riquezas ao descuidar de recursos naturais

Floresta amazônica / Crédito: Pexels

O Brasil desperdiça o potencial de riqueza que tem em seu meio ambiente. Se assim não fosse, poderia transformá-lo no maior gerador de renda, de bem-estar e de prosperidade para o país. Essa é uma das reflexões que é desenvolvida por Gesner Oliveira, professor da FGV e coordenador do Centro de Estudos da Infraestrutura e Soluções Ambientais (CEISA), e Artur Villela Ferreira, sócio fundador da empresa Global Forest Bond, no livro “Nem Negacionismo nem apocalipse – economia do meio ambiente: uma perspectiva brasileira”.

A obra foi lançada na noite desta segunda-feira (29/3) em webinar sobre “Economia do Meio Ambiente”, do JOTA. Além dos autores do livro, estiveram presentes Natália Pasternak, bióloga e presidente do Instituto Questão de Ciência; Mario Mantovani, diretor de Políticas Públicas da SOS Mata Atlântica; e Ben Ross Schneider – cientista político e professor do MIT. O evento teve o patrocínio da SOS Mata Atlântica.

“Na área ambiental, o Brasil tem dois aspectos que são peculiares: o elevado grau de informalidade e a composição da emissão de gases de efeito estufa”, disse Gesner Oliveira. Há, para ele, uma economia subterrânea, de desrespeito à legislação vigente, o que gera um grande problema do ponto de vista do meio ambiente.

Ele cita descartes ilegais, lixões, comercio ilegal de metais no Tapajós, além de domicílios e empresas que não se conectam à rede de esgoto e poluem. “Há uma série de desrespeitos que geram um grande problema ambiental. Um dos grandes é o ciclo perverso da grilagem, que destrói um grande ativo nacional, que é a floresta.” Para resolver essas questões, uma legislação excessivamente rigorosa não seria uma solução, mas mais um atrativo à informalidade.

De acordo com Oliveira, por outro lado, há um grande potencial para resolver problemas importantes. No Brasil, 60% das emissões de gases de efeito estufa. O montante que é proveniente do uso inadequado da terra é referente ao desmatamento.

Artur Villela Ferreira ressalta como que, no livro, eles quiseram pontuar essas questões de forma ponderada, direcionada também a tomadores de decisões. “Negacionismo e apocalipse são dois lados da mesma moeda da inação ambiental. Nem fingir que não há problema nem profetizar apocalipse. Toda vez que você tenta abordar a questão no sentido de desafios impossíveis, acaba que não se faz nada. A gente tenta provocar ação. Quais são os desafios, quais são as oportunidades?”, apontou.

O Brasil é, segundo ele, o país com mais possibilidade de oferecer produtos sustentáveis, insumos, mão de obra, reduzir de forma drástica emissões de gases estufa “apenas se livrando de atividades que não beneficiam a economia, como o desmatamento, avançar as vantagens comparativas e transformar o meio ambiente no maior gerador de renda, de bem-estar e de prosperidade para o país”.

Ele afirma compreender que há, nas transformações a serem feitas na direção de um uso mais sustentável dos recursos naturais, perdedores de curto prazo. Um dos exemplos, no Brasil, seriam os caminhoneiros. Cerca de 65% da carga transportada no país é pelo modal rodoviário, o que, na visão dele, não é aceitável.

“Para as transições com perdedores de curto prazo, precisamos de boas políticas públicas e mudar essas pessoas de setor. Termos 2/3 da carga do país passando por estradas. Não dá mais”, diz. Mas há outros cenários, com ganhos de curto prazo. Ele lembra que 38% da água tratada no Brasil é perdida e não chega aos consumidores. Resolver esse gargalo é cuidar do meio ambiente, da população e da economia.

No debate, Mario Mantovani, da SOS Mata Atlântica, levantou a questão histórica. Para ele, o Brasil precisa olhar para o passado para enfrentar questões que seguem se repetindo.

“Nós temos 60 milhões de hectares com agricultura, 200 milhões de pecuária extensiva, o que não se justifica. E, dos 860 milhões de hectares do Brasil, 300 milhões foram apropriados, que seriam as terras não destinadas, os parques, as terras indígenas que continuam sob pressão e é o que põe o Brasil numa situação muito mais grave. Esta é uma história que o Brasil tem que entender e fazer um ajuste com o passado do ponto de vista fundiário”, observou.

De acordo com ele, o país viveu um movimento de apropriação dos conceitos e ideias ambientais importante, unindo movimento ambientalista com o social e contribuindo de forma relevante para o mundo. Em alguns pontos, como do carbono, chegou a dar o tom. Mas há, ainda, questões deixadas de lado que impactam negativamente nesta construção.

“Não é possível se trabalhar com agricultura num país em que se teve 200 anos a mais de escravatura dizendo que se tirasse quebrava o Brasil. E a gente ouve a mesma coisa hoje: se não acabar com o licenciamento acaba o Brasil, se ficarem exigindo medidas ambientais, quebra o Brasil. É o mercado, investidor, outro universo cobrando. Mas o perverso continua.”

Cientista político e professor do MIT, Ben Ross Schneider enfatizou que há, no mundo, um movimento de estudantes das universidades de elite da França, Inglaterra, Estados Unidos que clamam por maior integração dos estudos de economia e meio ambiente.

Especificamente sobre o Brasil e os EUA, existem dois grandes obstáculos: a polarização, que alimenta o negacionismo e a circulação de notícias fraudulentas, e o alto grau de desigualdade das duas populações.

“Temos que pensar quais são as pessoas que vão levar o custo maior e quais seriam as reformas possíveis para diminuir esses custos com essas transformações. E aí entra uma ideia que poderia ser compatível: a ideia de espiral verde. Como formar coalizões a favor para reter esse aquecimento global. Assim, se você entra com a proposta de reduzir o consumo de carvão, vai ter a oposição das empresas, do setor. Mas se, ao mesmo tempo, puder criar uma indústria de energia renovável, vai ter geração de empregos”, sugeriu.

Quanto às fake news e ao negacionismo, a bióloga e presidente do Instituto Questão de Ciência, Natália Pasternak, enfatizou que elas têm várias origens. “O negacionismo é uma negação da realidade, das evidências. Primeiro, ele vem de uma falta de compreensão de como os consensos científicos são formados. Mas não é só. Ele tem uma forte âncora em teorias de conspiração e no pertencimento a um grupo. Esses movimentos negam a ciência amparados por pessoas que pensam como eles, e se sentem especiais por fazer parte de um grupo que sabe mais, na visão deles, que o resto da sociedade”, explicou.

Na área ambiental, os consensos científicos são, segundo ela, muito claros no sentido de que o aquecimento global é real e causado pelo homem. “Se há um consenso que  a gente conseguiu passar com efetividade é o do clima.” O Brasil é um dos países que ainda negam, por meio do governo atual, a gravidade do problema e o problema em si. Mas, na comunidade internacional, é exceção. 

“No Brasil, 87% das pessoas concorda que o aquecimento é real e causado pelo homem. Mas será que isso implica em mudança de comportamento? O que elas mudaram na vida delas? Estão consumindo menos carne? Usando menos carro?”, questionou. 

Natália Pasternak defendeu que é preciso construir estratégias para mudar o comportamento das pessoas por meio da informação. “Por exemplo, consumo de carne. A criação animal é dos fatores que mais influenciam o aquecimento global. Se o planeta seguir esquentando, podemos ter proliferação de mosquitos e podemos ter novas pandemias como essa”, afirmou.

As soluções biotecnológicas podem ser, segundo ela, grandes aliadas para começar a induzir mudança de comportamentos. E muitas delas são caras e vão demandar subsídios. Mas vão ser mais baratas no longo prazo. “Se passarmos por uma nova pandemia a economia não vai aguentar”.


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