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Novas habilidades jurídicas: dicas para a capacitação profissional

A advocacia tal qual aprendemos na faculdade vai acabar se tornando obsoleta diante da busca por resultado

Crédito: Pixabay

A humanidade está passando por uma nova revolução, a tecnológica, compatível com o fenômeno ocorrido durante a revolução industrial e por conta dela a forma como se dará a prestação de serviço está em transformação, sendo que a atividade jurídica não vai fugir dessa regra. Isso é muito black mirror!

A internet deixou de ser um ambiente de entretenimento/trabalho e está em todos os lugares: na locomoção, no namoro, na alimentação, na saúde etc.

Se a sociedade mudou por conta da internet, o Direito também tem de estar pronto para acomodar essas mudanças sociais: o Direito material que estudamos mudou, está mudando e vai mudar ainda mais.

Mais do que isso, a advocacia tal qual aprendemos na faculdade vai acabar se tornando obsoleta diante da busca cada vez mais incessante por produtividade e resultado. A forma de se entregar o Direito, fatalmente, vai se acomodar às novas necessidades dos jurisdicionados.

A maior parte das faculdades de Direito ainda entrega o conhecimento jurídico para seus alunos do mesmo jeito que se fazia no início do século passado. Um professor, uma lousa, giz e muitos livros…

Longe de se imaginar que a bagagem jurídico-doutrinária perca sua importância, o Direito é e sempre será uma ciência humana e sempre vai girar em torno do Direito material. Acontece que com os avanços tecnológicos cada vez mais presentes no cotidiano dos advogados, em especial quando percebemos que o mercado de trabalho está sendo tomado pelas gerações disruptivas, é fato que essa forma high tech de encarar a vida fatalmente está contaminando, no bom sentido, a forma de se perceber o direito.

A ciência de dados, por exemplo, tem tudo a ver com a atividade jurídica! Se antes falávamos em entendimento jurisprudencial majoritário com base na quantidade máxima de decisões que um ser humano pudesse avaliar em um certo período de tempo, hoje já conseguimos obter em poucos minutos a probabilidade de sucesso de uma causa considerando-se a totalidade das decisões inseridas numa base de dados. A precisão data driven do entendimento jurisprudencial sobre um assunto é – nada mais, nada menos – do que a segurança jurídica na sua forma mais pura.

A ciência de dados não é nada sem o profissional que saiba manejar os tais dados – o big data jurídico. O cientista de dados jurídicos deve ser analítico e ter boas noções de organização e sistematização. A faculdade de Direito de hoje não prepara o estudante para isso. Pior: nem mesmo fomenta o desenvolvimento de tais skills. É a educação complementar, atrelada ao senso de curiosidade do profissional, que poderá gerar a aptidão para a inserção de alguém nessa nova carreira jurídica.

A aversão ao método de produtividade conhecido como “ctrl-c/ctrl-v”, começa a ser desmistificada pela programação de ferramentas de automação com certo nível de inteligência embutida capaz de tornar as peças jurídicas repetitivas dentro de uma estrutura com cara de taylor made.

Mais do que saber o Direito material, há uma grande dificuldade dos profissionais do Direito se comunicarem com os cidadãos. Sabe aquela expressão: entendeu ou quer que desenhe? Então, a busca por novas formas de se entregar conteúdo jurídico de forma a melhorar a experiência do receptor da mensagem está em alta no direito em razão das técnicas de visual law. Imagine um contrato de adesão que facilite a compreensão do consumidor ou memoriais entregues ao juiz do processo em vídeo e através de um QR code na petição. Tudo isso já é realidade e pode ser o ponto fora da curva que muda o rumo de uma decisão.

O case #AsteriscoNão[1] do Nubank é um exemplo interessante para mostrar a comunicação jurídica transparente e objetiva. Um banco que se propõe ser diferente dos demais também precisava mudar a forma de se comunicar com seus clientes e de celebrar contratos com eles. Foi isso que o Nubank fez. Usou recursos de Visual Law / Detox Law para se posicionar publicamente como corporação.

A Amil, com a ajuda de designers e de advogados que se propuseram a pensar de forma diferente – incentivados pela audácia de seu Diretor Jurídico, Eduardo Gil – apresentou contestação[2] totalmente inovadora nos autos do processo n.  1007306-36.2019.8.26.0002, em trâmite perante a 10ª Vara Cível do Foro de Santo Amaro.

Por fim, destacamos o case da M3Storage, que criou uma forma totalmente simples para apresentar os termos para uso de seus serviços[3]:

Toda essa transformação tecnológica vai substituir parte da mão-de-obra jurídica, em especial aquelas envolvidas com atividades mais repetitivas e menos intelectuais, mas também, se fecha uma porta, abre uma janela de possibilidades para quem conseguir enxergar que as novas habilidades, os tais skills, poderão ser muito valorizadas em curto espaço de tempo.

O analista de dados jurídicos, o programador jurídico, o designer jurídico são carreiras que tem tudo para dar vazão para todos esses advogados que se formam anualmente. Hoje já somos mais de 1 milhão em atividade e mais de 900 mil cursando a faculdade, todos aprendendo o Direito da mesma forma que faziam os nossos pais, avós, quiçá bisavós e tataravós.

A grande sacada é que falamos uma linguagem que pouca gente conhece, a qual somada às habilidades disruptivas podem ser um “combo” poderoso para se construir os advogados do amanhã, literalmente.

O convencimento de um juiz pode ser direcionado por uma análise de dados robusta ou até mesmo por novas formas de se entregar a pretensão do jurisdicionado. Os contratos, cada vez mais amigáveis e menos obscuros. E a produtividade jurídica alinhada com as ferramentas de automação e inteligência artificial. Esse é o novo direito e precisaremos de novos advogados. As faculdades ainda não estão prontas para preparar os profissionais para esse futuro (ou presente?), mas existem diversos cursos oferecidos por pessoas sérias e que conseguem direcionar o profissional para esse novo mercado que se apresenta.

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[1] https://blog.nubank.com.br/asterisconao/

[2] Vide contestação: https://esaj.tjsp.jus.br/pastadigital/abrirPastaProcessoDigital.do?nuProcesso=1007306-36.2019.8.26.0002&cdProcesso=02001R68Y0000&cdForo=2&baseIndice=INDDS&nmAlias=PG5REG&tpOrigem=2&flOrigem=P&cdServico=190101&acessibilidade=false&ticket=zQhNJhpHqEeeEtbI1XX%2F0so7DbaRQP0ciU9v3jTQY9CCy4IUZbNOKN4F0xYudKlvSPfal2u96sYIb8nOvyRJcJElur%2Bk8m8uHYKEq9vnBjyvkQg%2Fd2Uzp%2BGny%2BKR%2BYOwE4ZYwx65w7OX4pS93VVORsBZpiHhBJhukReAZVN0TXLT5xLC%2Bl7YWqFsBQcY0A4olDH5WhkuS2QePqdX0k6QSH7JlLW6kAj0f9YGhnYaoGaA1uiL%2FalCTuLDutzujH%2FIT6s30i5empADIAfbaJtNzmocMrt%2Bwhk9mOBEBUkIbjHemJ%2BpiR1%2BEi%2BXIwk7LnMlDl%2BfmtX%2FHXGiVo9T4MHsIA%3D%3D#

[3] https://m3storage.com.br/M3storage_informa%C3%A7oes_consumidor.pdf


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