Carreira

Falta de diversidade

Nos Estados Unidos, negros são menos de 4% dos advogados em grandes bancas

Segundo David Wilkins, de Harvard, modelo de contratação desfavorece minorias. No Brasil, proporção é inferior a 1%

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David Wilkins, vice-reitor de iniciativas globais da Harvard Law School -/ Crédito: reprodução YouTube

Se no Brasil, advogados negros representam menos de 1% do corpo jurídico dos grandes escritórios, Nos Estados Unidos, a situação também não é animadora. Segundo David Wilkins, vice-reitor de iniciativas globais da Harvard Law School, negros são menos de 4% dos profissionais em grandes bancas. No cargo de sócio, a taxa é inferior a 2%.

O principal motivo para a baixa representatividade, segundo Wilkins, é a forma de contratação dos escritórios, que tende a valorizar relacionamentos profissionais já existentes.

“A promoção e recompensas de profissionais são baseadas em análises subjetivas de tarefas e atribuições de trabalho que não são distribuídas de maneira igual dentro do escritório”, diz o estudioso do Direito. Para ele, esse modelo gera uma desvantagem aos negros e outras minorias.

“Escritórios de advocacia e outras organizações legais que desejam progredir nessas questões devem enfrentar esses desafios institucionais de maneira específica”, afirma Wilkins. O vice-reitor também é pesquisador dos impactos da tecnologia no Direito.

Para ele, se um dia isso vier a acontecer, levará um longo tempo para que novas tecnologias, como inteligência artificial e machine learning, substituam a função de advogados. Entretanto, ele afirma que funções rotineiras e repetitivas já estão sendo trocadas por algum tipo de tecnologia.

“Nos Estados Unidos, advogados juniores, tradicionalmente, eram demandados a revisar documentos e achar informações importantes em processos.Hoje, esse trabalho é feito em um volume crescente por empresas que usam uma mistura de análises de contratos e ferramentas de machine learning para completar a tarefa”, afirma.

Wilkins deu entrevista ao JOTA para debater a introdução de novas tecnologias na advocacia. Ele estará presente no evento New Law Annual Meeting, que é realizado nesta quarta-feira (27/3), em São Paulo.

Leia a íntegra da entrevista:

Em seu livro “Why Are There So Few Black Lawyers in Corporate Law Firms?: An Institutional Analysis”, você analisa a presença de advogados negros nos escritórios  de advocacia. A discriminação nesse ambiente ainda é alta? 

São mais de 20 anos desde que eu escrevi essa publicação. Ainda assim, advogados negros constituem menos de 4% do corpo jurídico em grandes escritórios nos Estados Unidos. Menos de 2% são sócios. Os motivos são os mesmos ‘fatores institucionais’ que identifiquei em 1996, quando escrevi o artigo.

Quais ações de inclusão devem ser feitas? 

A maneira como os escritórios contratam tende a privilegiar relacionamentos já existentes e o networking reputacional. A recompensa de profissionais é baseada em análises subjetivas de tarefas e atribuições de trabalho que não são distribuídas de maneira igual dentro do escritório. O reconhecimento é feito com base na habilidade em trazer negócios. Sistematicamente, isso causa uma desvantagem para negros e outras minorias. Escritórios de advocacia e outras organizações legais que desejam progredir nessas questões devem enfrentar esses desafios institucionais de maneira específica.

Quais são os impactos das novas tecnologias no Direito? O que mudou na profissão? 

Apesar da predição de que a tecnologia vai liderar “O Fim dos Advogados”, como sugere o título do importante autor inglês Richard Susskind, as novas tecnologias têm um efeito importante na prática da lei. Entretanto, está provado que tecnologias como machine learning, inteligência artificial, análises de previsibilidade e contratos inteligentes estão substituindo alguns trabalhos na profissão. Apesar disso, também criam e reestruturam muitos outros.

Advogados precisarão aumentar a implementação de novas tecnologias em suas rotinas. Mas no final, a tecnologia é só um dos muitos fatores que reformulam a profissão de advogado no Brasil e no mundo.

Mas os robôs e a inteligência artificial podem substituir os advogados?

Se um dia acontecer, demorará muito para os robôs e a inteligência artificial substituírem completamente os advogados no mercado de trabalho. Advogar é uma atividade fundamentalmente que julga. Essas novas tecnologias ainda não são capazes de produzir um conteúdo crítico. Entretanto, até os advogados mais sofisticados do mercado precisarão aprender como trabalhar em conjunto com as novas tecnologias para basear seus julgamentos e decisões em uma quantidade cada vez maior de dados disponíveis. Isso não é possível de ser acessado e entendido sem a tecnologia. 

Quais são as principais inovações no mercado? 

Neste momento, os destaques estão nas ferramentas de procura e análise de contratos, emails e outros documentos, como as aplicações de patentes. Além disso,  as ferramentas de análise de decisões judiciais também têm um grande efeito sobre a profissão.

Os estudantes de Direito que iniciam a faculdade neste ano são nascidos nos anos 2000. Na sua visão, essa geração de futuros advogados apresenta um perfil diferente? 

Pesquisas sugerem que a geração conhecida como “millennial” valoriza a autonomia. Eles também são mais propensos a trocarem de trabalho com mais frequência e são atraídos por oportunidades de empreendimentos em vez de carreiras tradicionais em organizações.

Como um profissional que deseja se modernizar pode se preparar para as novas tecnologias em sua carreira ou escritório?

Os profissionais já estão usando tecnologias. Qual advogado não tem um smartphone? Entretanto, precisarão aumentar esse uso no futuro. O tipo de tecnologia que deverá usar dependerá de sua área de atuação. Por exemplo, advogados mais focados em litigância precisarão usar ferramentas de procura mais sofisticadas. Advogados que atuam em áreas transacionais terão de utilizar análises de contratos e documentos inteligentes.

Com as novas tecnologias, espera-se uma atuação mais globalizada por parte dos advogados?

Em todas as regiões é necessário pensar de forma globalizada e utilizar a tecnologia para isso. Como documentamos em nosso recente livro “The Brazilian Legal Profession in the Age of Globalization: The Rise of the Corporate Legal Sector and its Implications for Lawyers and Society”, os profissionais da área legal no Brasil são cada vez mais remodelados pela globalização. As novas tecnologias são apenas uma de muitas ferramentas que ajudarão os advogados brasileiros a encontrarem um resposta para esse desafio. 

Quais são os principais resultados de suas pesquisas e estudos sobre o impacto da tecnologia em profissões como advogados?

Os trabalhos repetitivos e de rotina serão os mais substituídos pela tecnologia. Nos Estados Unidos, advogados juniores, tradicionalmente, eram demandados a revisar documentos e achar informações importantes em processos. Hoje, esse trabalho é feito em volume crescente por empresas que usam uma mistura de análises de contratos e ferramentas de machine learning para completar a tarefa. Similarmente, a função rotineira de preenchimento de documentos legais também está sendo feita por softwares inteligentes de documentação.    


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