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Faculdade de Direito de Yale: as melhores quatro semanas da minha vida

Programa de intercâmbio Linkage é uma espécie de ‘amostra grátis’ do ambiente acadêmico

Faculdade de Direito de Yale, nos EUA. Imagem: divulgação/law.yale.edu

Sempre tive a curiosidade de saber como era a vida em outro país, como era o dia a dia, como eram as pessoas. Desde o momento em que meus pais e eu sabíamos que não havia talento para o futebol, o único caminho viável para me ajudar a realizar esse sonho era por meio dos estudos.

E assim os anos se passaram. Inclusive, isso estava tão distante da minha realidade que cheguei a ouvir que era melhor desenhar planos mais pés no chão. Felizmente eu segui sonhando e hoje cumpro o combinado com o querido amigo Luiz Dellore, falando um pouco da minha experiência com você.

Em janeiro de 2016, participei do programa de intercâmbio Linkage da Universidade de Yale, em um convênio celebrado com UERJ, FGV (Rio e SP) e USP, no Brasil. Outros países da América Latina participam e tive a oportunidade de fazer amigos argentinos e chilenos dessa vez. Ele consiste na possibilidade de alguns alunos selecionados passarem quatro semanas frequentando aulas, com acesso a bibliotecas, eventos e entrevistas com alguns dos melhores professores do mundo.

É uma espécie de “amostra grátis” do ambiente acadêmico da Faculdade de Direito de Yale, no qual eu tive a honra – e também um pouco de tristeza – de figurar como 1º negro brasileiro por aquelas bandas.

Achei a experiência muito completa. Nós ficamos nas casas dos alunos, comemos nos refeitórios e passamos a maior parte do tempo na biblioteca de apenas SEIS ANDARES. Sim! Lembra muito Hogwarts, para quem gosta de Harry Potter.

Eu saí do Brasil querendo apenas conhecer o professor Owen Fiss, cuja obra inspirou minha dissertação de mestrado e meu 1º livro. Lembro de quando conversei com ele pela 1ª vez e lhe disse isso, com muita deferência e admiração. Então ele sorriu e brincou:

– Você tem certeza de que foi uma boa ideia se inspirar em algo que escrevi?

Caí na gargalhada e depois conversamos um pouco sobre a experiência do Brasil a respeito do tema tratado na aula que havia acabado há pouco: violência policial na abordagem de pessoas. Você pode imaginar quão surpreso ele ficou quando contei de alguns casos nossos, né?

Mas durante esse curto tempo em que estive lá, conheci também Robert Post – com aulas maravilhosas sobre liberdade de expressão –, Linda Greenhouse – e seus estudos sobre a Suprema Corte –, Bruce Ackerman – em suas lições valiosíssimas sobre a constituição e direitos fundamentais – e, as grandes surpresas ficaram por conta de Khiara Bridges e James Forman Jr, especialistas em questão racial.

As aulas são no formato de debate, turmas pequenas, com alunos e professores discutindo textos já lidos anteriormente, criando dinâmicas de casos, tecendo propostas e contrapropostas, onde quem está à frente da sala não necessariamente tem a palavra final.

Vários acontecimentos se destacaram na relação professor-aluno naquele tempo. Uma delas é que os professores respondem e-mail rapidamente, demonstrando muita dedicação ao magistério e atenção ao aluno. Um exemplo disso é que podemos sempre marcar de conversar com qualquer um deles, em suas salas na faculdade.

O professor Ackerman publicou um texto na época e um assistente de um professor convidado escreveu um e-mail criticando seu artigo e foi convidado por ele para debater seus pontos de vista em seu escritório.

Eu mesmo pedi 15 minutos da agenda do professor James Forman Jr. e ficamos uma hora e meia conversando sobre algumas ideias que eu tinha sobre o estudo da questão racial no Brasil.

Uma curiosidade interessante é que o pai do professor James Forman Jr. era amigo pessoal do reverendo Martin Luther King. Além disso, o professor fala português, por ter feito intercâmbio na UFBA aos 18 anos de idade. Também é um estudioso da temática racial e recentemente recebeu o prêmio Pulitizer por seu livro “Crime and Punishment in Black America”.

Um outro fato digno de nota é que a professora Khiara, além de professora em diversas universidades, é bailarina profissional.

Como parte do programa, ministramos palestras para alunos e professores da faculdade sobre temas que entendemos ser importantes dentro de nossos países. Foi um grande desafio para mim. Até então só havia estudado inglês sozinho, mas encarei de frente o nervosismo e falei sobre a importância do dia da consciência negra no Brasil, apontando aspectos socioculturais e jurídicos por uma hora e foi uma experiência incrível.

Na rotina de estudos, as aulas começavam às 8h da manhã e acabavam às 18h. Então é cansativo, ainda mais ouvindo o dia inteiro uma língua que não é a sua. Mas às 18h temos acesso ao refeitório do antigo Calhoun College – hoje renomeado Hopper College, devido a uma controvérsia racial envolvendo o ex-vice-presidente americano –, onde é possível comer à vontade sem desembolsar um dólar e forrar a barriga para voltar à biblioteca, que fica aberta até às 23h.

Uma das coisas mais bacanas nesse programa de intercâmbio é que ele é acessível aos estudantes de baixa renda. Se o seu inglês não é perfeito, é uma boa oportunidade para aprimorá-lo.

Não é preciso se preocupar com gastos de estadia, porque os alunos ficam em casas de outros alunos da faculdade, que podem comprar comida e ser reembolsados por Yale. A preocupação fica com relação à passagem aérea, mas é uma oportunidade única, que vale muito à pena se apertar um pouco para crescer demais.

Na biblioteca, é permitido digitalizar os livros, o que impulsiona e fortalece a pesquisa de todo acadêmico.

Enquanto estive por lá, toda atmosfera da faculdade me deixou em outra dimensão e mudou muito a visão do que eu gostaria de fazer efetivamente na minha vida.

Viajei querendo conhecer, sem muita pretensão, mas quando voltei, sabia que queria um dia voltar lá e desenvolver uma pesquisa específica com relação à discriminação racial. Conversar com os professores e ser encorajado por eles, que são grandes referências no mundo mostra uma perspectiva completamente diferente que podemos ter de nós mesmos.

Além disso tudo, ficaram belíssimas amizades, fortificadas com visitas. Como ficamos nas casas dos alunos, no mesmo ano, os alunos de Yale que também fazem parte do programa, ficam em nossas casas, no momento de vir para a América Latina.

Até hoje aqueles momentos estão vivos em minha memória. Pude desenvolver meu inglês, enfrentar desafios e conquistar um dos meus maiores sonhos. Mas o mais importante foi sair de lá com novos objetivos e novos sonhos. Hoje eu escrevo para todos que têm curiosidade de saber um pouco de como é a faculdade, mas escrevo principalmente para você que acha que isso aqui é distante de sua realidade e que nem conta com isso, aproveito e faço um pedido: imagine, pergunte-se “por que não”, cogite com um “e se”.


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