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A crise do fim da faculdade: e agora, o que eu vou fazer da minha vida?

Muitos estudantes de Direito estão fingindo felicidade e contentamento pleno e não falam sobre este tema

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Crédito: Pixabay

Em meio às discussões acirradas, sobre a criminalização do não pagamento do ICMS declarado, sobre a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) paralela da Previdência, sobre o possível impeachment do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a ativista Greta Thunberg e sua relevância para a luta contra mudanças climáticas e até sobre o estilo de vida dos “Faria Limers”, existe uma crise sobre a qual ninguém discute. Uma daquelas Crises com “c” maiúsculo pelas quais passamos pela vida. É preciso falar sobre ela.

Existem muitas crises por aí, como, por exemplo, as crises econômicas, crises diplomáticas, crises políticas, crises climáticas, entre outras que afetam o mundo como um todo, mas existem, também, as crises pessoais, como as crises dentro de um relacionamento, crises familiares e essa nossa Crise: a crise do fim da faculdade e do “e agora, o que eu vou fazer da minha vida?”.

O final do curso traz uma grande carga emocional para todos os formandos, os quais se dividem em dois grupos bem distintos: aqueles que não suportam mais a faculdade e não veem a hora de se ver livre dela, e aqueles que sentem saudades de cada detalhe antes mesmo de dizer adeus. Mesmo com essa diferença na forma de viver/sentir, o fim do curso não impede que os formandos tenham uma experiência em comum: esse momento é um dos mais difíceis da vida. Para um estudante de Direito, o fim do curso significa conviver com aquela pressão do famigerado Exame da Ordem dos Advogados, do trabalho de conclusão de curso (TCC), do estágio em vias de efetivação (ou não), tudo isso somado a questões pessoais e outras pressões externas e internas que cada um de nós passamos ao longo do último ano.

É durante essa fase que sentimos como se tudo nos pressionasse a “ser alguém”. Você precisa passar na OAB na primeira tentativa, tirar nota 10 no TCC e receber indicação para publicação, ser o melhor advogado recém-formado que aceita todos os trabalhos do mundo sem titubear, ler os principais jornais para se inteirar de tudo o que é relevante no mundo, comer o conteúdo de livros jurídicos no café e no almoço, e, como se tudo isso não fosse o suficiente, correr pelo menos 5 km todos os dias e se alimentar bem para manter a saúde e a forma. Tudo isso deve ser equilibrado de uma forma emocionalmente saudável.

É impossível sustentar a imagem de vida perfeita que nos é imposta, às vezes por nós mesmos, sem entrar em uma espiral de decepções por não cumprirmos metas que, em alguns casos, nem são tão importantes para nós mesmos. A importância é dada por outros e nós apenas aceitamos. É impossível estar feliz e completamente realizado todos os minutos de todos os dias, mas a felicidade constante é um requerimento imposto pela sociedade dos “Instagramers”, “Faria Limers” e todos os outros “ers” que valorizam mais as aparências em redes sociais do que uma mente de fato saudável. Estas pessoas buscam aparentar o sucesso acadêmico ou profissional imediato, sem refletir no caminho e dificuldades que devem ser enfrentadas para se chegar até lá. Mas ainda assim, erroneamente, sucumbimos à pressão e tentamos viver de aparências.

Existem muitos de nós, estudantes de Direito, que estão assim, fingindo felicidade e contentamento pleno, e não falamos sobre isso. Se você entrar no Linkedin nesse exato momento vai encontrar diversos posts sobre assuntos da atualidade compartilhados por pessoas bem-sucedidas. No entanto, esses posts não contam a história completa. Nenhum desses posts conta como alcançaram o sucesso e os desafios enfrentados no caminho.

O que fica de fora é o fato que, talvez você não passe na OAB de primeira, possivelmente seu TCC não fique tão bom e não seja indicado para publicação e que existem chances de que você não ser efetivado ou que não esteja sequer em um estágio para que isso possa acontecer.

O que precisamos entender é que, por mais que tudo isso possa parecer o fim do mundo, você não precisa “ser alguém” agora. O que nenhuma rede social mostra é que muitas pessoas passam por frustrações para alcançarem o tão sonhado sucesso na carreira, e elas são tão necessárias como beber 2,5L de água por dia. São as frustrações que moldam sua força de vontade. São elas que ditam o quanto você realmente quer algo.

A crise do fim de curso não é fácil, mas como toda crise, ela passa. É necessário ter em mente que sim, existem fases em que a tristeza será a emoção predominante nos seus dias, fases em que você se sentirá perdido na sua própria vida, sem saber para onde seguir, mas isso é completamente normal.

Não é factível que você tenha todos os aspectos da sua vida resolvidos aos vinte e poucos anos de idade. Ter a sua vida completamente resolvida aos 30, já é um caso de sorte! Precisamos aceitar que a vida não vai ser perfeita imediatamente depois da faculdade, que planos são feitos para serem deixados de lado e substituídos por novos planos a medida que deixam de se encaixar em nossa vida e que o caminho para o sucesso é longo e cheio de dúvidas.

A Crise do final do curso é real e é você quem precisa decidir se ela vai acabar com você ou se você é quem vai acabar com ela.

Então sim, leia jornais, livros jurídicos, tente correr todo dia e se esforce para comer bem – vai ser necessário para sua saúde mental e física –, se organize para estudar para o Exame da Ordem, já que ele vai ser sua porta de entrada na carreira jurídica e também para escrever um TCC razoável.

Mas, em nenhum momento, ache que as redes sociais são a vida real e que a vida de todo mundo está perfeitamente alinhada menos a sua. Não existe um padrão do que deve ser alcançado e em que idade. A sua vida é SUA, e tudo nela deve ser feito no seu tempo. Não se cobre tanto, porque tudo se encaixa.


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