Carreira

Carreira

Diário de um chefe de compliance: quem é o profissional dessa área?

A formação jurídica é importante para a interpretação de regras e mesmo para a investigação, mas não é a única possível

Pixabay

Em linhas gerais, há duas grandes vertentes organizacionais no universo de compliance: a jurídica e a de auditoria. Normalmente  essas duas vertentes se manifestam na estrutura organizacional (empresas em que o departamento de compliance está no departamento jurídico; outras que o colocam sob o financeiro e algumas variações  mais raras em que compliance fica diretamente abaixo do conselho de administração) e na formação dos times (predominância de advogados ou de auditores).

Em minha organização, o departamento de compliance fica dentro do departamento jurídico. Quando comecei a jornada, utilizei (e ainda utilizo) uma maioria de advogados para a composição do time. Mas quanto mais a organização se expandiu (aproximadamente setenta profissionais em pouco tempo), logo ficou  claro que outras formações nos ajudariam muito. A formação jurídica é importante para a definição e interpretação de regras e mesmo para a investigação. Mas existem outras dimensões da profissão para as quais outras formações oferecem melhores ferramentas.

Pouca gente sabe, mas em determinada época de minha vida resolvi me dedicar parcialmente à agricultura. Há um pouco de loucura em qualquer um que se dedique à agricultura em pequena escala, mas sempre se aprende muito. Uma das coisas que qualquer agricultor aprende muito cedo é o valor da polinização cruzada (em relação à autopolinização).

+JOTALeia o primeiro artigo da série Diário de um Chefe de Compliance

Ha várias dimensões de competências funcionais nas atividades de compliance. Certamente há a jurídica, mas também há as dimensões investigatória, de controle e auditoria. Do mesmo modo há dimensões comportamentais e de análise de dados (voltaremos a falar dessas duas nesta série). Daí porque a mistura de talentos e de ferramentais é essencial.

Em outras palavras, quanto mais diversificadas as formações nesses campos, mais eficiente será o time de compliance. Isso não quer dizer que não se possa formar times com apenas advogados. Pode-se muito bem, mas a mistura de formações é mais efetiva em minha experiência. Tanto quanto a polinização cruzada.

+JOTADiário de um Chefe de Compliance: o que fazer primeiro?

Tampouco as múltiplas dimensões exigem um homem renascentista aos moldes de Leonardo da Vinci. Muito pelo contrário, qualquer pessoa pode ser treinada para ser um excelente profissional de compliance, e em pouco tempo. Qualquer um pode se sair bem, respeitadas algumas linhas mestras.

Na jornada do desenvolvimento do programa de compliance comecei com advogados, agreguei auditores e contadores e abrimos uma estreita colaboração com tecnologia da informação (o que nos possibilitou criar inovações como aplicativos para celular e programas de análise de dados). Quanto mais diversificamos, mais ganhamos.

+JOTA: Diário de um chefe de Compliance: onde botar o sarrafo?

Em minha opinião, uma equipe de compliance ideal seria constituída de profissionais do Direito e de auditoria em proporções mais ou menos iguais, com duas importantes adições para o futuro: cientistas de dados e profissionais de tecnologia da informação.  Em equipes maiores, haverá lugar para profissionais das ciências comportamentais (e nas equipes menores, as ferramentas dessas ciências serão usadas de qualquer forma).

Mas mais do que qualquer formação técnica, existe uma atitude de compliance. Sempre a exigi de todos os profissionais que trabalharam em minhas equipes. Vontade permanente e prontidão para identificar e resolver problemas, desejo de ajudar os outros a tomarem as decisões certas, de tomar responsabilidade pessoal pelos resultados e fazer “o que é certo” prevalecer. Uma mistura sutil de tropa de elite e missionário evangelista.


Você leu 1 de 3 matérias a que tem direito no mês.

Login

Cadastre-se e leia 10 matérias/mês de graça e receba conteúdo especializado

Cadastro Gratuito