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Diário de um chefe de compliance

Compliance é compromisso. Leia o primeiro de uma série de oito artigos sobre a rotina de um profissional da área

Há cinco anos fui convidado a desenhar e implementar o upgrade do programa de compliance de uma das maiores empresas de bens de consumo do mundo. Nesse tempo, passamos de um trabalho de meio período (eu tinha outras funções) para uma organização com mais 70 funcionários no mundo, em vias de utilizar inteligência artificial. Sem falsa modéstia, foi um salto gigantesco em pouco tempo.

Nesses cinco anos, voei mais bem mais de um milhão de milhas, preenchi três passaportes com carimbos, trabalhei em todos os continentes, acertei e errei bastante. Há cinco anos pouco se falava de compliance no Brasil. Hoje há centenas de especialistas com maior ou menor grau de conhecimento sobre o assunto.

Nessa série de artigos para o JOTA, vou discutir aspectos práticos do compliance que às vezes ficam soterrados em jargões e formulas traduzidas do inglês. Espero, principalmente, dizer tudo que gostaria de ter ouvido há cinco anos, quando comecei essa aventura. Espero que a experiência, com erros e acertos, seja útil para quem escolhe esse caminho, pois lutar contra a corrupção a partir do setor privado é mais importante que nunca para nosso país.

Um profissional de compliance deve saber desde logo que nunca será a pessoa mais popular da festa. Qualquer organização séria reconhece a importância de um time de compliance forte e respeitado. Você poderá ser um conselheiro admirado, uma referência ética, um porto seguro em tempos de incerteza, inspirar temor; mas dificilmente será a pessoa mais popular da empresa.

Boa parte do seu trabalho vai girar em torno de controles e investigações, e não em fechar negócios. Muitas vezes você vai evitar enormes prejuízos financeiros ou de reputação, mas o grau de reconhecimento interno certamente ficará alguns degraus abaixo do dado àqueles que fizerem, por exemplo, fusões e aquisições ou outros trabalhos comerciais. Então, se a sua motivação é popularidade, meu conselho é: faça outra coisa.

E não há nada para reclamar, é uma regra do jogo bem conhecida. As funções mais ligadas ao desenvolvimento comercial tendem a chamar mais a atenção da alta gerência e receberem mais atenção pela ajuda que dão ao negócio principal. Repito: é normal no mundo corporativo.

Em escritórios de advocacia, a regra é diferente, mais dependente da quantidade de negócio que o advogado gera. Pode-se gostar ou não da regra, mas a última coisa que um profissional de compliance pode fazer é brigar com os fatos.

E aqui chegamos ao ponto principal deste primeiro artigo: fazer compliance é fazer um trabalho que vai além de sua organização e de sua carreira imediata. Há um elemento de produzir o bem geral que é muito mais presente que em outras áreas de atuação. Claro que nenhuma carreira busca produzir o mal, mas poucas têm uma correlação tão direta com produzir o bem.

Aí temos a contrapartida do compliance em relação a outras áreas. Em todas as vezes que me senti desanimado em meu trabalho (e não há quem não fique), sempre procurei pensar: “meu trabalho é evitar corrupção; é evitar um ato anticoncorrencial. Meu trabalho é fazer centenas de milhares de pessoas tomarem as decisões certas”. E isso precisa ser motivação suficiente, como para mim tem sido.

Diferentemente do que muitos pensam, corrupção não é um crime sem vítimas. Corrupção mata, atrasa o desenvolvimento nacional, corrói a boa governança e a alocação racional de recursos. A cervejinha do guarda atropela, a comissão do prefeito mata o doente na porta do hospital.

Da mesma forma, uma conduta anticoncorrencial pode lesar milhões de pessoas ao mesmo tempo (compare preço de cartel com preço de concorrência real e calcule o dano). Evitar essas condutas é umas das missões profissionais mais recompensadoras que tive.

Sempre haverá argumentos em contrário, que podem virar pressão: “todo mundo faz”, “só essa vez”, “não estamos sendo mais realistas que o rei?”, “você está exagerando o alcance da regra”, “vai tornar o negócio impossível” e tantas outras. É preciso saber resistir com a gentileza possível, mas há risco de desgaste.

Acima de tudo, a motivação do profissional de compliance tem de vir de fazer o certo e ajudar os outros a fazer o certo. É por isso que invoquei  Sabotage, o bardo da favela do Canão no título: compliance, tanto quanto rap, é compromisso. Compromisso que vai além da próxima promoção na carreira. E é um bom lugar.

No próximo artigo vamos falar sobre o que é compliance e qual é a primeira coisa a fazer ao montar um programa eficiente.

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