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Diário de Carreira: advogado corporativo automotivo

O jurídico é um parceiro estratégico de negócio, não um centro de custo que não gera resultado

A advocacia corporativa sempre me fascinou. Ter a possibilidade de fazer parte da engrenagem de uma grande empresa é algo único, que permite ao profissional um aprendizado extraordinário, especialmente através do contato ininterrupto com áreas e competências das mais diversas, possibilitando que se torne um verdadeiro ‘conselheiro’ estratégico para o negócio. Aliás, a palavra em inglês counsel talvez seja a definição mais precisa da essência do que é a atuação do advogado corporativo.

Conhecer o negócio da companhia, seus meandros – dos processos de desenvolvimento até as práticas comerciais  – e, principalmente os detalhes dos produtos/serviços ofertados pela empresa são questões fundamentais para o desempenho das atividades do advogado corporativo. Isto também passa pelo conhecimento e interesse pelo setor ao qual a empresa está inserida, bem como pela conjuntura macroeconômica – regional e global.  Tais ponderações parecem triviais, mas acredite, não são e fazem muita diferença na atuação do profissional.

Nesse sentido, multidisciplinaridade e disposição para atuar com diferentes especialidades jurídicas são características importantes para o profissional corporativo, já que permitirão que ele conheça diferentes etapas dos processos de desenvolvimento, produtivo e comercial da companhia.

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Ao longo dos meus quase dez anos no setor automotivo, tive a oportunidade de atuar com diferentes práticas jurídicas, como responsável pela área de contratos, projetos especiais, incluindo parcerias e M&A, e, posteriormente, como responsável pelo regulatório e product liability. Isso me permitiu atuar em diversas frentes do negócio, como parceiro de áreas fundamentais, tais como: finanças, suprimentos, business development, engenharia, qualidade, manufatura, comunicação, marketing  e relacionamento com o consumidor, no Brasil e no exterior.

A partir do preceito fundamental de conhecer e entender muito bem o negócio, o advogado corporativo estará preparado para participar da construção e desenvolvimento da estratégia da companhia, elevando o jurídico ao patamar de parceiro estratégico de negócio (business partner, termo comumente usado no meio corporativo), e consequentemente afastando a velha visão de que o jurídico é apenas um centro de custo que não gera (e não contribui para o) resultado das empresas.

Portanto, ser parceiro do negócio significa atuar de forma a viabilizá-lo, apresentando propostas e recomendações ante os cenários existentes. Desse modo, é fundamental expor riscos de forma objetiva e transparente e garantir a ética e a governança de todas as ações. Aliás, a comunicação fluída com as áreas de negócio é muito importante, uma vez que frequentemente lidamos com áreas e profissionais que também possuem “linguajar próprio”. Como costuma dizer nosso vice-presidente jurídico, o “administrador não pode ter surpresa”.

Como visto, o jurídico é unidade de negócio que pode, sim, gerar resultado para a companhia, na medida em que participa, muitas vezes de forma decisiva, das definições estratégicas da companhia.

Para facilitar a visualização do cotidiano de um advogado corporativo do setor automotivo, faço um breve resumo das atividades de uma semana de julho.

Segunda-Feira, 24 de julho

Em São Paulo, começo a semana cedo, repassando os principais compromissos e organizando a agenda da semana. Em seguida, organizo a caixa de emails e envio diversas mensagens importantes. Na rotina corporativa, muitas vezes a recomendação jurídica segue sob forma de email e, portanto, deve ser muito bem utilizada.

Ainda pela manhã, tenho reunião semanal com os responsáveis pelas demais áreas do departamento jurídico. O objetivo é repassar os principais temas de cada área na semana, para identificar pontos de atuação comum e manter o alinhamento de todos. Nivelar informação entre os líderes das áreas é premissa do departamento.

No início da tarde, reunião com o vice-presidente jurídico para discussão de dois temas importantes que envolvem direito do consumidor. Também participo do comitê semanal sobre segurança do produto, juntamente com diretores e representantes de diversas áreas.

Terça-feira, 25 de julho

O dia começa com o comitê semanal para discutir casos de consumidores. Na sequência, tenho reunião com o meu time direto para repasse dos principais temas em discussão. Mantemos essa rotina diária, mas não há protocolo para casos urgentes, os quais são discutidos em tempo real. A ordem é sempre manter a agilidade e consistência nos posicionamentos da área.

No início da tarde tenho uma conferência telefônica com o time responsável pela área regulatória dos Estados Unidos para alinhamento de tema de comum interesse. Na sequência, reunião com o Detran/SP para discutir detalhes operacionais de convênio recém-celebrado para recebimento de dados que permitam a melhoria do índice de atendimento de campanhas de recall.

Quarta-feira, 26 de julho

Logo cedo, reunião com um dos escritórios parceiros. Discutimos as causas acompanhadas pelo escritório e repassamos a estratégia dos principais casos. Apesar da terceirização dos processos judiciais, internamente seguimos a lógica de manter a centralização da estratégia jurídica. Desse modo, nossa interação com os parceiros é sempre bem proveitosa. Voo para Belo Horizonte para cumprir agenda de reuniões.

Quinta-feira, 27 de julho

Em Belo Horizonte, pela manhã participo de vídeoconferência com os times de regulatório das demais regiões do mundo (NAFTA, EMEA, APAC e LATAM) para alinhamento dos assuntos comuns. Em seguida, reunião entre as diretorias jurídica e regulatório. Durante a tarde, me reúno com o alguns membros do meu time para atualizar material de um projeto relevante que acompanhamos. Assim como o email, os materiais de trabalho, especialmente em powerpoint, assumiram papel relevante em nossa rotina. Essa é a linguagem padrão corporativa. Jantar com amigos queridos.

Sexta-Feira, 28 de julho

Ida à Brasília para acompanhar algumas reuniões com o diretor de assuntos institucionais. Em uma delas, a pauta é setorial e temos a companhia do vice-presidente jurídico da Anfavea (Associação dos Fabricantes de Veículos Automotores). Aproveito para alinhar alguns temas de interesse do setor para a próxima pauta da reunião ordinária da comissão de assuntos jurídicos da associação, realizada mensalmente.  Retorno para São Paulo.

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