Carreira

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Ao jovem advogado concorrencial

Você vai trabalhar longas horas e por isso vai errar. Quando isso acontecer, seja ético

Concorrencial
Crédito: Pixabay

Meu jovem amigo,

Esta é uma missiva de pretensões petulantes, para dizer o mínimo. Da experiência que 20 anos de advocacia proporcionam, ela pretende oferecer a você, jovem ingressante na carreira, lições profissionais. Porém, continuar a leitura é certamente um erro. Recomendo, então, que pare aqui imediatamente e vá fazer algo com o seu precioso tempo de lazer. Ou, se está gastando seu tempo reservado a enriquecer o saber jurídico com esta leitura, tanto pior – esta carta certamente em nada lhe vai agregar em ciência jurídica. Vá. Corra. Vá, porque a juventude logo se esgota e seu tempo disponível para a leitura será lamentado profundamente. Cada minuto conta.

Se ainda está aqui, que diabos… então vamos em frente. É, talvez, da juventude essa teimosia em ler tudo o que lhe cai às mãos. Eu lia no ônibus que me levava à Faculdade de Direito. Ele parava no Viaduto Maria Paula e eu andava até a entrada da Rua Riachuelo. Eu vinha de longe, então dava tempo de ler muita coisa, chacoalhando no ônibus. O livro já vinha digerido.

Isso que me leva à primeira lição, que tomei de uma pessoa do meu círculo próximo, por quem eu tinha verdadeira adoração. Leia muito. Muito. Tudo. Não apenas livros de Direito ou de Economia, que, por óbvio, serão necessários para a sua formação. Leia sobre Filosofia, leia Poesia, estude Arte, conheça História da Música, Metafísica, Matemática, leia sobre a matéria escura, a Segunda Guerra, estude Política (leia muito sobre política), leia, leia, leia, até seus olhinhos cansarem.

Um dia, quando você menos esperar, toda essa leitura vai ter te tornado um ser humano especial, diferente, preparado. E, profissionalmente, o retorno é intangível. Eu costumo dizer aos advogados da minha equipe que não é sobre Direito Concorrencial que geralmente se fala com clientes nos coquetéis, nos eventos, nos jantares. Ler te faz maior do que apenas aquilo que se faz no dia-a-dia. Portanto, leia, seja maior.

Se você é mulher, leia muito mais. Lamento dizer, ser mulher vai te custar caro em alguns momentos da carreira, mas isso é assunto para uma outra carta. Estamos trabalhando duro para que o mundo mude, mas até que isso aconteça, você vai ter que lidar com o que está posto.

Estude línguas estrangeiras. Fale muito bem o inglês, particularmente. Se puder, fale também outras línguas. Essa segunda lição tive a enorme sorte de aprender em casa, muito cedo, e já começar a vida profissional proficiente em duas línguas estrangeiras. Isso me abriu portas para continuar os estudos no exterior, conhecer gente fabulosa, que me guiou por caminhos inovadores.

Há poucas coisas tão transformadoras quanto morar fora do país. Até escovar os dentes passa a ser uma tarefa que exige novas conexões neurais. Isso vai te levar a um número infinito de novas leituras e mais da primeira lição. No Direito Concorrencial, a literatura estrangeira é uma necessidade. Temos poucos anos de experiência antitruste, enquanto os americanos têm jurisprudência centenária e os europeus fazem isso há mais de 50 anos.

Comprometa-se. Não há nada mais importante no trabalho do que o real compromisso com o caso. Essa terceira lição tomei do primeiro chefe que eu tive. Um sujeito espetacular, brilhante, que mergulhava nos assuntos em que se envolvia com uma paixão absolutamente envolvente.  Se a você foi confiado um trabalho, meu jovem amigo, torne-se dono dele. Estude o mercado, conheça o produto, passe a comer aquilo no café-da-manhã, mesmo que aquilo seja minério de ferro ou polipropileno.  Ninguém vai te perdoar por não saber alguma coisa “por ser apenas o advogado do caso”.  Se você é o “advogado do caso”, isso é muita coisa. Não existe espaço para que você não saiba desde o andamento do caso até o direito a ele pertinente, passando por todas as notícias relacionadas àquele assunto no Brasil e no mundo. Não é pouca coisa. Pode se preparar para dormir pouco e trabalhar longas horas. Vai compensar, acredite.

E justamente porque você vai trabalhar longas horas, você vai errar. Quando isso acontecer, seja ético. A lição mais importante que aprendi na vida, aprendi bem moça, com um chefe, quando perdi um prazo. Sim, eu perdi um prazo. Você também vai perder um prazo, ou vai cometer algum outro erro grave. Era uma situação delicadíssima, em que era possível atribuir o erro a outras pessoas, era possível esconder, varrer para debaixo do tapete, mas eu, cheia de remorsos, sabedora dos meus deveres, entrei na sala do sócio do escritório e, pronta para ser abatida sem dó, revelei a verdade, assumi integralmente a culpa.

Enquanto eu falava, ele olhava para baixo, provavelmente pensando em como isso exporia a ele e ao escritório. Mas, na minha cabeça juvenil, ele malignamente arquitetava como se livraria do meu corpo carbonizado depois de jogar gasolina e atear fogo nele, sem que minha família jamais pudesse identificar, se eu fosse encontrada em uma vala em decúbito dorsal. Foi apenas depois de alguns minutos que ele abriu a boca e eu ouvi algo que repito até hoje para os meus associados e até para os meus filhos: “Errar, todos vamos. O mais importante é como você se comporta depois do erro. Há quem esconda, há quem minta. Esses são os que quebram os bancos, fraudam as auditorias. Mas há também os que dizem a verdade. Esses são os team players. São eles que eu quero ter por perto. Vamos consertar isso aí”. Naquele momento eu consegui parar de pensar no erro e, junto com ele, achamos uma solução para o problema. Havia uma e era até que bem simples; bastou que pensássemos juntos. Fui recompensada pela honestidade, no lugar de ser punida pelo erro. Talvez porque ele conhecesse meu compromisso com o caso (a lição anterior).

O mundo da concorrência é mágico, cheio de desafios intelectuais e grandes oportunidades para quem está disposto a trabalhar duro e estudar bastante. Foi por ele que me encantei, ainda jovem, quando me vi diante daquelas discussões interessantes sobre análise econômica do Direito, as teorias sobre contratos relacionais, efeitos dos custos de transação e um monte de termos estranhos, que no começo pareciam mais mandarim do que propriamente Direito ou Economia. As lições que tive foram imensamente úteis na jornada em que me lancei, por essa apaixonante área do Direito. Olhando agora, talvez sirvam a qualquer um que se aventure a querer advogar ou, até, como Carlos, ser gauche na vida.

Se a sua leitura chegou até aqui, tente fazer algum proveito dessas humildes linhas, meu jovem colega.

Um forte abraço.


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