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A (ausência de) rotina de um advogado especializado em agronegócio

Entre calls, viagens e reuniões com clientes, advogado deve estar sempre a substituir o terno pela calça jeans

Agronegócio
Crédito: Pexels

Resiliência, intensidade e comprometimento são certamente os substantivos mais recorrentes na vida (nada mansa) de um advogado que se presta a estruturar operações financeiras e de mercado de capitais no agronegócio.

Talvez nada muito diferente do dia a da de todo advogado que atua na área privada, mas quem se presta ao papel a que nos prestamos tem que gostar da adrenalina; tem que entender (e aceitar) que não somos senhores de nossas agendas e que rotina não faz parte de nossa quota de (des)privilégios.

Segunda-feira 

É nesse clima que as segundas começam, mais das vezes com solução de continuidade da semana recém-terminada ou do final de semana que tivera de ser consumido para cumprir com os prazos (nada compreensivos) que o mercado financeiro nos impõe: urgência é a palavra de ordem!

A semana teve início ainda na madrugada de segunda-feira (23/4), às 4h50m, pois o primeiro voo com destino a Belo Horizonte me aguardava em Congonhas.

Como é notório, embora São Paulo seja ainda o grande coração financeiro do país, muitos agentes financeiros locais já estão dedicados a fomentar as atividades agropecuárias dos locais em que o agronegócio realmente acontece e a reunião que faria com um grande banco de investimento mineiro tinha por objeto as hoje tão difundidas operações de securitização, consubstanciada em emissões de certificados de recebíveis do agronegócio (CRAs). E entre reuniões, conferências e revisão de trabalhos à distância o dia seguiu intenso na capital de Minas Gerais até que conseguisse voltar para casa às 22h.

Terça-feira 

A terça-feira começou com uma reunião de início de operação (chamadas de kick-off) que tratou do mesmo tema do dia anterior, seguida por uma longa revisão de instrumentos de operações de empréstimo em moeda estrangeira cuja proximidade do desembolso aguçava a ansiedade de todos os envolvidos por um retorno rápido de minha parte.

Documentos enviados, era o momento de me encontrar com alguns clientes para um almoço de negócios, já com sensível atraso. Ao meu retorno, novas revisões já tinham sido solicitadas em relação às operações que tomaram boa parte da manhã. Entre efusivas trocas de mensagens e conferências telefônicas a tarde virou noite até que conseguisse me desvencilhar dos temas que travavam a operação em questão e conseguisse coletar. Finalmente, às 23h15min consegui deixar o escritório ao encontro de minha (já adormecida) família.

Quarta-feira 

O dia seguinte repetiu o anterior em quase todos os eventos acima narrados, à exceção de uma importante reunião administrativa com os demais sócios do escritório para discussão de determinados assuntos relacionados às diretrizes negociais do escritório e à gestão dos anseios dos advogados mais jovens do escritório.

Ao longo da carreira, vale frisar, cada vez mais intenso (e inevitável) é o envolvimento do advogado com questões administrativas do escritório, questões essas que vão desde os aspectos financeiros até o aparato tecnológico utilizado pelos advogados para facilitar o dia a dia e aprimorar as margens do negócio.

Quinta-feira 

Na quinta-feira, mais uma viagem programada. Em pauta, a reestruturação extrajudicial de uma importante usina do interior paulista e as possíveis estruturas jurídicas para viabilizar o plano proposto pelo usineiro e entendido viável pelos credores.

Aproveitei a volta para mais uma reunião no meio do caminho, desta vez para auxiliar na estruturação de um fundo de investimento para a aquisição de direitos creditórios judiciais e precatórios federais.

Sexta-feira 

O último dia útil da semana começou com a elaboração de uma nota rápida para importante periódico nacional sobre algumas das operações estruturadas pelo escritório cuja relevância havia repercutido nos anais da indústria.

Na sequência, uma reunião de equipe para alinhamento de trabalhos e discussões de problemas jurídicos substitui o almoço de toda a equipe. Calls – muitos calls – de esclarecimento a clientes estrangeiros sobre o complicado sistema jurídico brasileiro e revisões contratuais fecharam a densa (porém proveitosa e muito reconfortante àqueles que prezam por matar um leão por dia) semana deste profissional da advocacia.

Não há dúvidas que há tantos outros profissionais do Direito com um dia a dia tão atribulado quanto o descrito neste texto, assim como há tantos profissionais que detestariam a injeção contínua do hormônio produzido pelas suprarrenais sem um minuto sequer para, durante a corrida semana, aproveitar o “dolce far niente”.

A mensagem que fica é que para quem tem gana e “sangue nos olhos”, associados a uma grande dose de responsabilidade, apesar do pouco glamour que o dia a dia nos reserva, a advocacia é prato cheio para a construção de um bonito caminho de realização profissional.

Se o agronegócio for o setor de escolha, lembre-se somente de sempre ter à mão uma dose (nada modesta) de simplicidade e uma calça jeans para substituir o terno: mais dia, menos dia, você irá deles precisar!

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