Trabalho

Covid-19

Efeitos da crise econômica causada pela Covid podem ser piores para as mulheres

Retomada de atividades sem volta de escolas, salários menores e home office desigual são alguns dos problemas

Mães, mulheres
Crédito Pixabay
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A pandemia da Covid-19 gerou uma crise sem precedentes na saúde e na economia do Brasil e do mundo, que atinge os mais diversos setores e pessoas. Entretanto, especialistas alertam que a crise não vitima a todos da mesma maneira, e pode acirrar a desigualdade no mercado de trabalho entre homens e mulheres.

Salários menores, desemprego em massa em setores que concentram um grande número de trabalhadoras do sexo feminino, acumulação desigual do home office com o trabalho doméstico e a retomada das atividades econômicas sem o retorno de escolas e creches são alguns dos problemas que deixam as mulheres mais vulneráveis neste período.

A vulnerabilidade começa pela própria área da saúde, que é majoritariamente composta por profissionais do sexo feminino. No setor de enfermagem, que inclui enfermeiros, auxiliares e técnicos e que está na linha de frente de combate ao vírus, a porcentagem é de mais de 80% de mulheres.

Historicamente, a média salarial de mulheres é menor que a dos homens, enquanto a taxa de emprego entre elas é maior. Assim, proporcionalmente demissões e reduções salariais acabam prejudicando mais as mulheres. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua), do IBGE, divulgada em maio, mostram um retrato da desigualdade: no primeiro trimestre, a taxa de desemprego entre as mulheres foi de 14,5%, enquanto a de homens foi de 10,4%.

Também de acordo com dados da Pnad Contínua, em 2018, o rendimento médio das mulheres ocupadas com idade entre 25 e 49 anos era de R$ 2.050, o que equivalia a 79,5% do recebido pelos homens (R$ 2.579) nesse mesmo grupo etário.

Setor de serviço X indústria

A técnica do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) Cristina Pereira Vieceli diz que já há um problema estrutural de vulnerabilidade das mulheres em relação aos homens no mercado de trabalho, o que deve ser intensificado nos próximos meses. “O que possivelmente vai acontecer é que setores como o de serviços vão ser os mais afetados. E principalmente trabalhos autônomos, como cabeleireiros. São serviços ocupados majoritariamente por mulheres”, diz.

Foram muitos os setores em que houve demissões em massa, principalmente o de serviços e de comércio. Entre os serviços, uma das ocupações mais atingidas foi o trabalho doméstico remunerado, setor no qual 97% dos trabalhadores são mulheres. A pandemia causou a demissão de muitas dessas mulheres, em um mercado onde a informalidade é regra. Em janeiro havia 6,3 milhões de empregados domésticos no Brasil, mas em abril esse número caiu para 5,5 milhões, em um total de 727 mil demissões em três meses, de acordo com dados do IBGE. Foi o menor número em nove anos. Mais de 70% dos trabalhadores domésticos não têm carteira assinada.

Por outro lado a indústria, setor que menos demitiu quando comparado ao comércio, serviços e construção civil segundo estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre FGV), é composta, majoritariamente, pela força de trabalho masculina. Dados do então Ministério do Trabalho e Emprego de 2016 mostram que até aquele ano o percentual de trabalhadoras mulheres na indústria era de apenas 25,8%.

Vieceli aponta que “não existe nenhuma política pública que tenha sido efetiva de distanciamento e controle da pandemia, e isso vem estendendo ainda mais a crise econômica causada pelo vírus”. A técnica do Dieese aponta que o setor da indústria, onde há maior quantidade de trabalhadores homens, talvez seja menos afetado, principalmente nas áreas de produção essencial.

“Agora, os serviços e trabalhos autônomos, voltados para os cuidados, educação, esses sim [foram afetados]. Então a crise afeta principalmente setores em que as mulheres estão alocadas, e me parece que essa política de abertura e flexibilização não se baseia em dados, e vai gerar um impacto para toda a sociedade. E para as mulheres em especial, porque elas já estão alocadas em setores que são mais vulneráveis, como os trabalhos voltados à educação, afazeres domésticos, serviços”, opina.

Creches e escolas fechadas

A retomada das atividades econômicas, que vem sendo adotada pelas principais capitais do país, também afeta as mulheres de uma maneira diferente. Shoppings, comércios de rua e serviços em geral estão abertos em muitas cidades, mas aulas em escolas e creches públicas devem demorar alguns meses para retornar. Mulheres mães, principais responsáveis pelo cuidado dos filhos, têm que sair para trabalhar sem ter onde deixar os pequenos. O problema é ainda maior para as classes mais baixas.

A problemática foi levantada inclusive pelo prefeito de São Paulo, Bruno Covas. No fim de maio, ao anunciar em coletiva de imprensa os primeiros passos da reabertura das atividades, disse: “precisamos fazer a reabertura sem prejudicar as mulheres. De que forma vamos garantir que não haja desemprego da mulher trabalhadora? Porque é sempre sobre a mulher que recai a obrigação de cuidar dos filhos. Esse tema e outros os setores precisam discutir com a prefeitura de São Paulo para que a gente não aumente a desigualdade aqui na cidade”.

Na prática, a solução é a ajuda comunitária entre mulheres. Nas redes sociais, é cada vez mais comum encontrar em grupos de bairros mulheres oferecendo “casas-creche”, onde as mulheres podem deixar seus filhos para serem cuidados durante o horário de trabalho das mães, por valores acessíveis.

Para Regina Madalozzo, coordenadora do Núcleo de Estudos de Gênero do Insper, é preciso pensar junto a área da saúde, da economia e da educação. “Estão reabrindo bares, salão de beleza, comércio. Mas como essas mulheres fazem para ir ao trabalho, sendo que elas são as maiores responsáveis pelo cuidado de crianças que ainda não retornaram à escola? É preciso um cuidado: quando a gente fala de as escolas não estarem abrindo, não quer dizer que se ache que elas devam abrir. Mas é apontar para o fato de não ter um planejamento conjunto de todas as áreas”, diz. “Porque no caso das mulheres, e dos homens também em parte, se não se pensar na atuação dessas três áreas juntas você tem um desbalanceamento muito grande”.

Mulheres empreendedoras

A situação para as mulheres que podem fazer home office é melhor, mas também traz à tona desigualdades de gênero. De acordo com pesquisa do IBGE de 2019, mulheres brasileiras dedicam o dobro do tempo dos homens em afazeres domésticos e cuidados com outras pessoas da casa. Enquanto as mulheres gastam em média 21,3 horas semanais em atividades domésticas, homens gastam em média 10,9 horas semanais. Se considerados mulheres e homens com empregos, a comparação permanece desigual: as mulheres dedicam, em média, 18,5 horas por semana a tarefas da casa, enquanto os homens apenas 10,8 horas. Com o home office, isso tende a se agravar, já que o trabalho doméstico se acumula com o trabalho fora do lar, sem o apoio de escolas e creches.

Madalozzo diz que o fato de as mulheres ainda serem vistas com as responsáveis pelo cuidado da casa, das crianças e dos idosos acaba afetando o mercado de trabalho. “As próprias empresas já imaginam, ‘ela vai faltar mais porque tem filho pequeno, não vai conseguir uma promoção porque não vai poder mudar de país, de cidade, porque a família vai ter que ir junto’. E aí isso pode pesar em caso de uma escolha de demissão. E como a gente muda isso? Quando mudar a visão sobre o que é uma obrigação ou não de cada um dos sexos”, aponta. “O home office é completamente desigual. O mundo inteiro está meio parado, e você trabalha como se estivesse na empresa. As mulheres, que têm mais cuidados com o filho, com a casa e com a alimentação, estão fazendo muito mais trabalho do que faziam antes”.

Para as autônomas, a situação pode ser ainda mais complicada. Com o isolamento social tirando as pessoas das ruas, e com a crise econômica diminuindo o poder de compra, micro e pequenas empresas viram uma diminuição drástica no faturamento nos últimos meses. No Brasil, há cerca de 24 milhões de empreendedoras mulheres, segundo levantamento da Global Enterpreneurship Monitor (GEM). De acordo com o Sebrae, 45% são “chefes de domicílio”, ou seja, as principais provedoras de suas família.

Pensando em ajudar as mulheres empreendedoras, em especial as mães, foi criada a Maternativa. A startup começou como um grupo de apoio no Facebook para mães empreendedoras, mas hoje atua também como uma vitrine para os serviços e produtos oferecidos por milhares de mães empresárias.

Vivian Abukater, sócia da Maternativa, diz que “a maternidade tem sido um degrau quebrado historicamente na carreira das mulheres, porque a sociedade não reconhece o trabalho não remunerado como algo realmente que tem valor, e que precisa ser melhor dividido”. Pesquisa da FGV de 2016 mostrou que 48% das mulheres deixam o mercado de trabalho após terem filhos, antes das crianças completarem um ano, mostrando que a prática da demissão após a estabilidade legal é uma prática recorrente de mercado.

A Maternativa tem um site chamado Compre das Mães, que funciona como uma vitrine para pequenos negócios. Lá, mulheres mães têm acesso gratuito para que possam cadastrar seus produtos e serviços e tenham um lugar de visibilidade.

Para Abukater, a crise vai impactar a sociedade inteira, mas principalmente as mulheres mães, um prejuízo que será sentido a longo prazo. “Uma mulher independente financeiramente investe basicamente no cuidado dos filhos, no bem estar da casa, no cuidado dos idosos. E uma mulher sem dinheiro, não investe nisso. E com isso, o que a gente tem é uma grande quantidade de crianças, jovens e adolescentes que vão enfrentar essa escassez de impossibilidade de investimento em cuidado e educação. Então o longo prazo dessa história são crianças não tão bem cuidadas, com menos acesso à educação, à saúde, com menos acesso ao bem estar. E a gente vai colher os frutos disso no futuro”, diz.

Madalozzo aponta que, no pós-crise, é importante que as empresas invistam em medidas para diminuir a desigualdade de gênero, mas ressalta que devem começar pela educação sobre os “papéis dos gêneros”, pois só assim haverá mudanças. “A gente vê muitas políticas de empresas grandes para tentar mudar isso, mas elas estão atacando a parte final. Uma política de home office, de flexibilidade de trabalho, está atacando a consequência, e não a causa de toda a discriminação. É preciso educar, conscientizar sobre as responsabilidades do homem também sobre a casa, sobre os cuidados com os filhos”, finaliza.