Style de vie

Style de Vie

Troyes: a cidade das mil cores

Cidade de arte e história que surpreende a cada passo, Troyes saberá seduzir e encantar

Rua de Troyes. Imagem: Pixabay

Verde, rosa, amarelo, azul, vermelho, são algumas das cores que produzirão a mais forte impressão aos olhos dos visitantes maravilhados. Troyes (pronuncia-se como o número três em francês, ou seja, trois) é uma obra prima em preto e branco completamente colorida, deixando impressões que não se esquecem. O décor ideal para um cineasta que deseja encontrar um cenário autêntico, vivo, movimentado numa atmosfera de ruas medievais fidedignas. Sem renunciar à herança da Idade Média, a cidade, em sua fisionomia atual, data do período da Renascença. Do período que se chama de Le Beau XVI Siécle. Tanto que a cidade se desabrochou, durante essa época de revolução artística e cultural.

Quinhentos anos mais tarde, Troyes vive um segundo Renascimento. Nos anos sessenta, a primeira restauração de uma casa (1963 – 1964), a casa do padeiro, marcou sua data. O movimento de renovação se acelera no meio dos anos noventa, com a introdução de pinceis de época e com a utilização de pigmentos naturais, de acabamentos pintados sobre as fachadas, de janelas esculpidas e trabalhadas. Após a aprovação, em 2003, de um plano de revitalização do centro antigo, a cidade é tomada por um frenesi de alegria e se deixa levar por uma exuberância de cores, um verdadeiro fogo de artifício para celebrar a passagem do novo milênio.

No centro histórico, as casas à colombages são quase sempre assimétricas e tortuosas e suas ruas medievais são tão estreitas que se podem passar objetos de uma casa a outra, de um lado ao outro lado da rua. Ela é também uma cidade de arte, com seus palácios particulares, seus museus e suas dez igrejas classificadas, embelezadas com vitrais que vão do século XII ao século XX. De sua tradição de fabricação de malhas e meias, a cidade ficou famosa também pelas suas famosas lojas de fábrica.

Construída no local de uma fortaleza gaulesa, a cidade foi evangelizada no século III. O mais eminente dos seus bispos, Saint Loup, ocupou a sede episcopal durante cinquenta e três anos. No ano quatrocentos e cinquenta e um, Atila e os Hunos invadiram a Galia, roubando e destruindo tudo que encontravam pela frente. Depois de ter queimado Metz, dirige-se em direção de Reims, Troyes, Sens e, finalmente, Paris. Em Orleans, o exército dos Hunos bate em retirada diante do exército do romano Aetius, composto principalmente de contingentes germânicos. Atila deve ainda enfrentar a batalha de junho de 451 sobre os campos catalunicos, cuja localização exata permanece um enigma. Quando se aproxima de Troyes, Saint Loup se apresenta diante do invasor, oferecendo-se como refém para salvar sua cidade. Este gesto virtuoso impressiona o bárbaro chefe dos Hunos que aceita desviar-se de Troyes.

Troyes possui uma zona central que tem a forma de uma rolha de champanhe, limitada por um cinto de boulevards: normalmente localizam-se endereços e fazem-se referencias relacionando-os ao corpo e à cabeça. A cidade é cercada de faubourgs e de zonas industriais.

Na Idade Média, Troyes contava dois bairros distintos. A cidade, na cabeça da rolha, era o centro aristocrático e eclesiástico, em torno da catedral. O Burgo, no corpo da rolha, era o bairro burguês, onde se realizavam as feiras da região de Champagne. No coração histórico está a Praça Alexandre – Israël. A grande praça, com muitos cafés, é dominada pela fachada Luis XIII do prédio da Prefeitura, onde se lê, sobre o pórtico de entrada, a divisa revolucionaria escrita sob a forma inicial: “liberdade, igualdade, fraternidade ou a morte”.

Sua arquitetura inesquecível assemelha-se com a arquitetura comumente localizada em muitas regiões do interior da França. Mas a reconstrução, a recuperação cuidadosa, permite que se compreenda como era a vida cinco séculos atrás na região. Depois do grande incêndio de 1524, os habitantes viviam numa fase de abundancia, e reconstruíram suas casas com mais luxo, como se pode ver percorrendo o coração histórico. A construção à colombage estilo renascimento (século XVI) se compõe de um arcabouço com vigas lavradas de carvalho francês, entre as quais é intercalada a massa, mistura de terra e de palha. Os andares magnificamente compostos repousam frequentemente sobre espécies de peanhas esculpidas. As mais elegantes são construídas de pedra, material mais dispendioso, fazendo-as distintas das demais. Na ruela dos gatos tem-se uma aula completa do estilo que predomina na região. Suas casas à pignons (as duas peças inclinadas das tesouras do telhado que vão do frechal à cumeeira) são tão próximas, umas das outras, que um gato pode facilmente saltar de um telhado a outro do outro lado da rua.

A catedral São Pedro e São Paulo, construída do século XIII ao século XVII, é uma construção impressionante pelas suas dimensões, a riqueza de sua decoração e a beleza de sua nave. Muito trabalhada, a fachada, do começo do século XVI, é obra que se deve a Martin Chambiges, construtor do transepto da catedral de Beauvais, que trabalhou também na catedral de Sens. É ornamentada por uma bela rosácea flamboyant (flamejante). Esculturas e estatuas foram destruídas pela revolução. Duas torres eram previstas mas somente a torre da esquerda, com altura de 66 metros, foi concluída no século XVII. Na sua base, uma placa significativa ressalta a passagem de Joana D’arc em Troyes, no dia 10 de julho de 1429.

O portal do transepto norte (que data do século XIII), pela sua beleza, recebeu o nome de Beau Portail. A parte superior é verdadeiramente impressionante: uma imensa rosácea, que inscreve seus doze raios em ogivas num quadrado.

O interior confere uma impressão de leveza. A elegância da arquitetura, a harmonia das proporções e a excelência dos vitrais assinalam admirável perspectiva da nave e do côro. Outra maravilha de Troyes é a igreja de Santa Madalena, a mais antiga igreja da cidade. A igreja primitiva foi restaurada no século XVI e recebe um novo abside (corredor semi circular na parte lateral e posterior do altar mor), de 1498 a 1501. Na nave gótica, reconstruída na segunda metade do século XIX, um Triforium é colocado sob janelas geminadas, mas toda atenção é lançada para a impressionante Tribuna de Pedra. De estilo flamboyant a Tribuna foi executada de 1508 a 1517. A igreja é ornamentada por grandes vidraças estilo Renascença com colorido brilhante, vendo-se da esquerda para a direita a vida de São Luis (1057) e a criação do mundo (1500), em que as primeiras cenas na parte baixa à esquerda evocam a separação das águas. São representações quase abstratas, impensáveis naqueles tempos longevos, como se vê ainda ao retratar a Lenda de Santo Eloi (1506), a Árvore de Jesse (1510), A paixão (1494), finalmente a vida de Santa Madalena (1506) e o Triunfo da Cruz.

O Museu de Arte Moderna da cidade compreende coleções únicas que permitem redescobrir a época fauve. Essa designação de fauve foi dada no Salão de 1905. Alguns pintores que faziam bramir a cor. Formas estranhas e quase sempre ausência de perceptiva, de profundidade, lhes valeram também o sobrenome de invertebrados. O Museu de Arte Moderna contempla trezentos e oitenta e oito pinturas (que vão do fim do século XIX e começo do século XX), bem como 1277 desenhos, cento e quatro esculturas, peças de arte africana e da Oceania. Mas ela é, como dito, particularmente rica em obras dos pintores fauves. As telas de Derain explodem de cores nas representações de Londres, assim como aquelas de Vlaminck, de Braque e Van Dongen, que utilizam o mesmo procedimento fauve: a cor pura é estendida em largos, imensos traços uniformes e seus retratos mundanos.

Relativamente ao período anterior aos fauves, prestigia-se nas primeiras salas dois pequenos Courbet, um belo quadro duplo de Degas, um esplendido Seurat e as insólitas representações das fabricas de Vuillard.

Entre as obras mais recentes estão quadros de Robert Delaunay, antes de seu período abstrato, Seurat, Modigliani, Soutine, Balthus e de várias telas de André Derain, posteriores ao seu período fauve.

Além das industrias de malhas de lã e lojas de fabrica, a cidade é famosa pelos seus andouillettes (chouriço). Esses famosos embutidos da região se comem assados, ao natural ou fritos no óleo, no qual se colocam fines herbes e um dente de alho. Normalmente se degustam as andouillettes com mostarda ao vinho de champagne ou mostarda de Meaux. Um pirê de batata, de feijão vermelho ou de rodelas de cebolas fritas, passados no leite ou na cerveja, depois na farinha, acompanham muito bem os chouriços da região.

E a restauração também é magnífica e marcante em Troyes. São mencionados os magníficos Le Bistroquet, com sua decoração bistrô e lustres retrô, um décor estilo brasserie parisiense da Belle Epoque, que se harmoniza perfeitamente com o tipo de cozinha lá proposto. O Valentine, também outra preciosidade. Mas o ponto alto é o restaurante Jardin Gourmand, situado no coração da vieux Troyes. Oferece uma cozinha du Terroir, valorizando ao máximo a região, sem prejuízo da criatividade e da renovação. Tem uma excelente carta de vinhos. A salada de oeuf poché e o filet de turbot sauce champagne deixaram reminiscências inapagáveis. E o vinho, já conhecido sur place, foi o Irancy, de Anita, Jean-Pierre, Stéphanie, um bougogne de rica memória, experimentado com Auxerre.

Cidade de arte e história que surpreende a cada passo, Troyes saberá seduzir e encantar, ideal para flaner, ela soube resguardar sua longa história, seu longo passado para melhor receber o futuro. Hoje, suas ruas estreitas e pitorescas restituem uma ambientação medieval onde se sucedem as riquezas de seu patrimônio inestimável.

Referencias bibliográficas

  • Michelin, Champagnes Ardennes, Guide de Tourisme, Nouvelle edition, s/d.

  • Michelin, Champagnes Ardenne, Le Guide Vert, Ed. 2010.

  • Reims en Champagne – Ardenne, Guide de Tourisme, Office Universitaire d’Edition, Strasbourg, Jean-Facques Schott, editeur.

  • Guia da Folha de São Paulo, Champagne, Troyes.


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