Style de vie

Style de Vie

Senlis: cidade romana, cidade real

Herança do passado que o castelo ressalta passou por transformações que atenderam a vaidade da realeza

Senlis, França. Wikimedia Commons

“Le temps, en passant,confère aux pierres une noblesse (…)”

Bernard Fay

A Île-de-France, a maior das regiões francesas, também chamada Bassin Parisien (pois está no centro de uma imensa depressão), compõe-se de dez principais Pays – formando, no passado, em torno de Paris, o domínio da Coroa – que apresentam características geográficas próprias. Os Pays mais conhecidos são Brie Française, Parisis, Beauvaisis, Vexin Français. Senlis está, naturalmente, no Pays de Senlisis.

É uma longa e secular história que os senlisiens amam recontar. Sobre a primeira muralha Gallo – Romaine os conquistadores construíram uma fortaleza, onde os reis das duas primeiras dinastias francas pudessem residir de bom grado, estimulados pela farta caça nas florestas das circunvizinhanças. Em 987, Louis V morre em acidente durante uma caçada. Esta morte põe fim à dinastia Carolíngia. Foi em Senlis, nesse mesmo ano de 987, no castelo, que o arcebispo de Reims propõe aos barões reunidos escolher para rei o “Duque de França”, Hugo Capeto.

Mais tarde, os reis abandonaram aos poucos a cidade, transferindo a sede do reinado para Compiégne e Fontainebleau. O último soberano que ocupou o castelo foi Henrique IV.

A herança do passado que o castelo ressalta passou por transformações que atenderam a vaidade da realeza. Com efeito, depois da queda do império romano, Clovis e seus súditos se instalaram nos restos do palácio do governo. Os sucessores dos merovingiens (carolíngeos e capetos) transformaram ao infinito a morada real: cada soberano procurou deixar a sua marca. De Hugo Capeto a Henrique II, os reis da França fizeram temporadas bastante prolongadas em seu “Louvre de Senlis”, lugar seguro e com florestas que estimulavam a caça.

Transformado em Palácio das Jurisdições, foi vendido como “bem nacional” em 12 de outubro de 1793. O que é de interesse para detalhar (além do interior da área, onde está o Jardin du Roy) é a parte da muralha do século XIII e suas torres. Uma delas era o “cabinet de travail” de Luis IX (“Oratoire Saint-Louis”), no momento da canonização do rei. A “Tour des Gardes”, vizinha, foi conservada em sua autenticidade.

Saint-Frambourg (Fondation CZIFFRA). Sob a égide de Franz Liszt, a música está presente em sua grandiosidade nessa admirável nave da igreja colegial, sem colunas, sem traseptos. Foram descobertos nas pesquisas os restos de uma pequena basílica –, santuário que a rainha Adelaide de Poitiers, esposa de Hugo Capeto, tinha feito restaurar por volta de 990, quando ela funda sua “Chanoinie de Saint-Frambourg, Avec de Grands Biens” em homenagem ao eremita do Maine, pelo qual tinha uma grande veneração. Visitando a cripta arqueológica, colhe-se a surpresa de descobrir a base de uma torre da muralha galo-romana, na qual a igreja primitiva se apoiava e que tinha sido destruída para permitir a edificação da atual collegiale do século XII.

Lá está também de Igreja Saint-Pierre. Transformada em loja durante a Revolução, depois em fábrica e tendo conhecido, além do santo apóstolo, outros avatares, essa igreja, em 1843, serviu de estribaria para os cavalos do primeiro regimento acantonado no “Quartier Saint-Pierre”, conjunto de edifícios do antigo bispado, do seminário e da igreja. Esta Igreja, de uma paróquia muito populosa no século XIII, traz a marca de cinco períodos principais no curso dos quais observam-se numerosas transformações. Construída em 1029 sobre as fundações de um primeiro edifício, seu campanário, restaurado, foi ornado por uma flecha octogonal, em caracol (1432).

Uma unanimidade: o ponto alto, em Senlis, é a catedral de Nôtre-Dame. Sua construção começou em 1153 e perdurou por um longo tempo. Em 1240 é acrescentado um transepto – que não estava previsto no plano primitivo –, e se constrói a flecha. O incêndio deixou marcas em 1504. A reconstrução das partes altas e das fachadas do transepto dão à catedral seu aspecto atual. As duas torres são originais. No meio do século XIII a da direita foi acrescida da magnífica flecha, que inspirou os campanários do Valois. Seu cume está a setenta e oito metros do solo.

Ninguém pode atravessar a cidades sem se deixar tocar pela nobreza das suas pedras, como ressalta o poeta. Primeiro, a rua do Châtel. Foi a artéria de cruzamento da cidade até a abertura da rua nova de Paris (rua da República), em 1753. Pela charmante rue de la Treille, alcançar a “fausse porte” (passagem pela antiga muralha Galo-Romana). Ao lado está o Hôtel de la Chancellerie. Sobre a praça Henrique IV está o Hôtel de Ville, reconstruído em 1495. No centro da fachada, o busto de Henrique IV. A rua que prolonga a rua do Châtel, ao sul, é a rua “velha-de-Paris”, uma referencia à antiga estrada de Paris até Flandres.

A restauração numa mesa admirável haverá de ser feita em endereço que mantém viva a ideia de retornar algum dia: o restaurante Le Bourgeois Gentilhomme.

A evocação da peça de Moliére tem toda a pertinência numa associação de nomes: os Restaurateurs são Estelle e Philippe Bourgeois… Num cenário que é dedicado a Moliére, tudo é feito para agradar, a saber, a decoração, a cave do século XII, onde o proprietário organiza degustações, até a excelente cozinha personalizada. O restaurante prestigia, na estação, a caça. À entrada de Fondant D’Aubergines aux Poivrons et Cumin, Pressé D’Échalotes et Tomates, seguiu-se o prato principal, Civet de Chevreuil aux Pâtes Fraiches. Como sobremesa o Sabayon de Coing au Mie Mille Fleurs. E o vinho, o espetacular Fixin Louis Max 1999, um Bourgogne long en bouche.

Que bom que a atividade da caça continue uma atividade viva nos dias correntes. Já os reis Carolíngios vinham no outono exercer o seu prazer favorito nas florestas da região, hábito que perdurou longo tempo, privilegio exclusivo dos príncipes e dos senhores e usufruído pela burguesia a partir de 1789. Hoje não se trata mais de um esporte ligado às grandes famílias e aos nobres, é uma pratica tradicional e popular.

As florestas mantidas e preservadas na região têm papel de grande importância na preservação da fauna que ainda se mantém viva: veado fêmea (biche), veado macho (cerf) e javalis encontram nas florestas da região um refúgio natural que permite a reprodução. Atualmente as populações são estimadas, na Île – de – France, em quarenta mil cerfs e um número ainda maior de javalis. Estão em aumento constante depois de duas décadas em que as autoridades se empenharam na regeneração das florestas, na saúde dos animais, na qualidade dos bosques, das culturas agrícolas e dos espaços verdes.

Depois dessa imersão na atmosfera medieval de seu velho centro, na excelência de sua cozinha,o passeio termina com um desejo – voltar a Senlis!

Referências bibliográficas

  • Michelin, Île – de – France. Chartres Chantilly Senlis, Le Guide Vert.2006.

  • Thérèse – Paule Martin, Senlis Cité Romaine Ville Royale.

  • Guide 2007 des Hôtels, Restaurants & Chambres d’Hôtes de Senlis et ses environs.

  • Ville de Senlis, Les Vestiges du Château Royal et du Prieuré Saint-Maurice.

  • Senlis. Ville Royale. L’Oise L’échappé belle.

  • Le site de la ville de Senlis: www.ville-senlis.fr


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