Style de vie

Style de vie

País Basco francês: um triângulo de história, estilo e luz

ST. Jean De Luz, Biarritz e ST. Jean Pied De Port

St. Jean de Luz. Imagem: Pixabay

“Vous devez savoir que nous, les Basques,
nous avons deux patries.”

(Maurice Ravel, carta de maio 1920 a Eugène Cools)

Ali a geografia de nosso tempo ressalta a geografia do passado distante. As fronteiras, em outros territórios, ainda suscitam debate. Bem reais entre certos países, em outros definitivamente eliminadas, as fronteiras às vezes sugerem violência ou convidam, na mansidão, os homens a agir. E como? Debuxando para os homens um modo de vida, de constrangimentos ou contrário à liberdade, é forçoso reconhecer que a fronteira condiciona a vida das pessoas.

Em nosso tempo os Estados da União Europeia não têm fronteira. Na região de que nos ocupamos – Pays basque –, a liberdade foi oferecida e aceita com muita facilidade. “De um dia para o outro, nós vivemos uma pequena revolução”, alegra-se o motorista basco Michel Elhorga, em St. – Jean – de – Luz. Como muitas outras famílias das cidades que estão integradas no país basco, Elhorga fez a experiência da escolha de viver num país e trabalhar em outro país. Sem dificuldade, porque para os bascos espanhóis e franceses o regime de liberdade sem fronteira vem de longa data. Dois países, uma só pátria.

Fazendo breve prospecção histórica, o país basco, sem fronteira natural precisa, pode ser definido como o país daqueles que falam a língua basca e até a chegada dos celtas, a partir de 800 A.C., o vasto triângulo que os acolhia correspondia à zona de extensão da língua falada. Os celtas chegaram e trouxeram a indústria do ferro, uma verdadeira revolução. Trouxeram também novas técnicas agrícolas. No ano duzentos e dezoito A.C. chegaram os romanos e ocuparam as planícies de Navarre. A Pax Romana se instala sobre a península ibérica e a região basca. Eles – os romanos – como sempre, deixaram toda sorte de vestígios na arquitetura, estradas, inscrições diversas, vasos de variados tamanhos e beleza.

No começo do século X um acontecimento fundamental para a região basca se manifesta na longínqua Galícia, oitocentos quilômetros a oeste: a descoberta de um tumulo que desde logo certificou-se ser o tumulo do apostolo Thiago, acontecimento que marca o começo da peregrinação à região em que a descoberta se fez sob o caminho da luz. Milhares e milhares de peregrinos irão a pé até a cidade sagrada, e, para que o caminho lhes fosse menos áspero e difícil, vão sendo construídas, ao longo do percurso milenar, abadias, capelas, hospitais e albergues. Quatro grandes caminhos, que se tornam, em breve, rotas tradicionais, atravessam a França, reunindo-se em Ostabat, no Norte da Basse-Navarre. Entre eles o mais importante e também o mais antigo segue a estrada romana de Bordeaux a Astorga e atravessa os Pirineus por Roncevaux.

A História continua sua marcha inexorável. Henrique III de Navarre, depois Henrique IV da França, trabalha pela ré-inclusão da Navarre à França, que não é reconhecida senão em 1620 por Luis XIII. A consolidação se celebra em 1659 com o Tratado dos Pirineus e o casamento de Luiz XIV com uma princesa espanhola, a infanta Maria Tereza, em St-Jean-de-Luz, que coloca, enfim, um termo às dissensões. A paz e a prosperidade afloram em toda a região até, pelo menos, a revolução de 1789.

A cerimônia do casamento real que selou a tão esperada aliança entre a França e a Espanha teve lugar na Igreja de St-Jean-Baptiste, que é, até os dias de hoje, a melhor e maior das igrejas bascas, uma maravilha de estilo, composta de três galerias, com uma resplandecente peça de altar do século XVII e uma atmosfera de fervor e júbilo. A porta através da qual o Rei Sol conduziu sua noiva foi logo emparedada pelos maçons e lá está sinalizada, até hoje, para admiração dos que passam. Na mesma cidade, que tem um estilo próprio marcado pelo turismo sem perder, entretanto, a sua condição de aldeia de pescadores, não podem ser esquecidas a excelente culinária, a Maison Luis XIV, onde o Rei Sol ficou hospedado nos dias de suas núpcias, e a Maison de l’Infante, ocupada pela noiva.

Do outro lado do rio Nivelle está Ciboure, cidade natal do grande compositor Maurice Ravel, com suas casas de mercadores do século XVIII, suas ruas estreitas e íngremes e seus bons restaurantes de frutos do mar.

É emocionante a visita à casa de nascimento do grande compositor. Ele frequentou assiduamente sua cidade natal, falava o basco, apreciando seus irmãos de raça, era francês sem deixar de ser basco. Introduziu o grande compositor russo Stravinsky na região, trazendo para a mesa o vinho local do qual tanto se orgulham os bascos, o vinho Irouléguy. (“Irai-je boire le vin d’Iruleguy cette année? Je commence à en désespérer”. Ravel a Roland-Mannel, de Monfort, em carta de 23.7.25). A obra do grande compositor francês ignora decididamente o folclorismo e toma cores peculiares. Foi em St-Jean-de-Luz que Ravel imaginou o tema do seu famoso Bolero e encontrou inspiração para as mais belas passagens do Quatuor, do balé Daphnis et Chloé, e do Concerto em Sol para piano e orquestra, entre outras. A Academia Internacional de Música que tem o nome do compositor apresenta, regularmente, concertos, reunindo alunos laureados nos cursos que oferece, alcançando ponto alto, na primavera de 2006, o concerto do duo Thorette-Farjot, com Arnaud Thorette ao violino e Johan Farjot ao piano.

No século XII, os monges da ordem dos prémontrés fizeram edificar no lugar onde está a cidade de Aïnhoa uma casa de campo destinada a acolher os peregrinos sobre o caminho, longo e frequentemente doloroso, em direção a Santiago de Compostela. Quatrocentos anos mais tarde casas típicas da arquitetura da região vêm substituir as construções existentes, formando – ao pé do monte Atsulaï – uma cidadezinha que se estende hoje ainda ao longo de uma única rua. Aí está uma típica cidade da região basca. As casas têm uma arquitetura e um estilo peculiares. Todas tem colombages e são freqüentemente pintadas na cor vermelho pardo, lá chamada cor sang de boeuf.

Espelette está nas imediações. É um dos raros exemplos de feudalismo no país basco. Os Senhores, tornados barões pela graça de Luis XI, aí nesse local fizeram edificar seus castelos, na verdade uma simples casa-forte que retornava à comuna após a morte do último herdeiro. No outono, as fachadas das casas ficam ornadas de uma especialidade culinária de Espelette: rosários das pequenas pimentas vermelhas muito fortes e ardidas, que se colocam nas fachadas das casas para secar. A feira das pimentas se realiza na mesma época e atraí uma quantidade incalculável de pessoas.

Todas as celebridades do final do século XIX e primeiros anos do século XX passaram por Biarritz. Cidade mundana, praia dos loucos e dos anos loucos, com seu décor extravagante nascido de uma imaginação perturbada, tudo isso foi a Biarritz do passado e que hoje, com um pouco de imaginação prospectiva, ainda se pode desvelar. “Quando a pessoa hesita entre duas praias, uma delas é sempre Biarritz”, dizia Sacha Guitry. Florida, hortênsias por todos os lados, a cidade deve também seu charme aos seus jardins – promenades, situados no topo das falésias, sobre os rochedos e ao longo das três principais praias, encontro internacional dos surfistas e das pessoas que trocam o dia pela noite. Nos anos loucos desembarcam na bela cidade as celebridades que faziam o estilo da época, o grande Ravel, a estrela da renovação da música contemporânea Igor Stravinski, Jean Cocteau, Scott Fitzgerald com Zelda e o inesgotável Hemingway. Depois da Segunda Guerra Mundial o marquês de Cuevas organizou em Biarritz festas suntuosas, com a presença do duque e da duquesa de Windsor, que por lá ficavam por longo tempo. E não era raro cruzar em suas ruas com as grandes estrelas de cinema dos anos 50, Gary Cooper, Rita Hayworth ou Frank Sinatra.

Refinado em todas os aspectos o extraordinário Hôtel du Palais simboliza todo o luxo, a calma e a voluptuosidade. Fiel à grande tradição de uma arte de viver esquecida, conjuga seu luxo, seu estilo que o mundo inteiro sempre aplaudiu, com a elegante sobriedade de momentos raros e privilegiados. Ele testemunha os amores do Imperador Napoleão III e da Imperatriz Eugênia, sendo transformado em Hotel a partir do ano de 1893.

A peregrinação em direção a Santiago de Compostela deu origem a uma arquitetura religiosa influenciada fortemente pela arte românica e pelo gótico, permitindo a expressão da arte popular basca. A igreja é o principal monumento do village, senão o único. Muitas igrejas bascas abrigam retabulos soberbos, como a de Saint-Jean-de-Luz, Ciboure, Itxassou e de Mendionde.

O nome de St-Jean-Pied-de-Port relembra que a cidade constituía a última etapa dos peregrinos antes de atingirem o Port ou Col de Roncevaux.. Quer dizer São João ao pé da garganta (ou porto, passagem na montanha em direção do outro lado, o lado em declive). Por lá passavam os peregrinos em direção de Ostabat, onde se reuniam as quatro grandes rotas Jacobinas. A sua igreja Notre-Dame, gótica, apresenta colunas de pedra de rara beleza. A cidade, construída do século VIII ao século XIII pelos reis cristãos de Navarre que se opunham às conquistas do islamismo na Espanha, está na base de uma colina coroada por uma fortaleza, no meio de um circulo de montanhas. A região pertencia ao reino espanhol e em 1589, Henrique III, rei de Navarre, tornou-se o rei da França Henrique IV, mas a reunião da província ao reino francês somente foi proclamada em 1620, por seu filho Luis XIII. Pelas suas ruas estreitas marcadamente medievais se vêm, até os dias correntes, os cortejos de peregrinos, o toque dos sinos, padres recitando orações. Os habitantes compreendem a missão que os peregrinos se atribuem, oferecendo-lhes provisões e o cortejo canta em resposta. É um espetáculo permanente de fé, certificando que o ser humano continua buscando os seus limites, tentando alcançar a transcendência.

Foi em St-Jean-Pied-de-Port que os bascos subjugaram a retaguarda do exército de Carlos Magno, em 778, e mataram seu comandante Rolande, mais tarde glorificado na canção de gesta conhecida como canção de Rolando.

A cozinha local, fortemente apimentada, com as pimentas vermelhas de Espelette, é simples mas saborosa. Ela faz honra aos produtos do mar – atum, bonito, bacalhau fresco, merluza –, homenageando vivamente os produtos do terroir, tais como Piperade (omelete com pimentas verdes picantes e tomate), Boudins com pimenta forte, presunto, confit de porc, de pato ou de ganso, loukinkos (pequenas salsichas fortemente temperadas com alho), bolo de milho, fromage de leite de vaca ou de ovelha. A sobremesa tradicional oferecida em todas as mesas da região é o celebre bolo basco, coberto de confiture de cerejas pretas. O chocolate, trazido para a região no século XIV pelos judeus fugidos da Espanha e os macarons, de St.-Jean-de-Luz, fazem também parte das especialidades regionais. Uma permanência na região é ocasião sonhada para enriquecer a cave. Não somente com grandes e pequenos crus de Bordeaux, mas igualmente com os vinhos locais como o Jurançon, o Irouléguy, o Tursan, o Béarn. Acha-se também, com facilidade e grau da excelência, Armagnac Floc de Gascogne na região de Landes e, em particular, na Labastide – d’ Armagnac, lugar da magnificência desses nectars gascons.

É um cenário inexcedível: na volta de um caminho encontrar uma casa branca com suas janelas vermelhas cor de sangue no meio das samambaias e surpreender a casa idílica da celebre canção de Elissamburu: “Voyez dans le matin au sommet d’une colline une petite maison blanche: c’est là que je vis en paix.”.Estamos simplesmente sob um céu fortemente contrastado e até perto do asfalto e da estrada departamental vislumbra-se um raio florido numa luz que não existe senão por aqui. Por tudo isso os bascos nos dizem: “Ongi ethorri” (sejam bem vindos).

***

Restaurantes do Triângulo que se recomendam

-KAÏKU, 17 r. Republique. St.-Jean-de-Luz Sub-solo da mais antiga casa da cidade. É uma instituição local. Salade de fenouil et choux croquant. Tournedos de cabillaud (bacalhau fresco) aux herbes, endives braissés. Mazariu au praliné glacê. Aperitivo vinho Jurançon sec. Vinho Irouléguy 2003 Domaine Brana, forte, perfumado, lembra madeira e evoca, pela jovialidade, a vinícola brasileira de qualidade. Armagnac Chateau de Laubade Bas Armagnac (mis em bouteille au Chateau par SCA de Laubade proprietaire récoltant à Sorbets-Gers).
-GRILL BASQUE CHEZ MAYA. St.-Jean-de-Luz. 2 r. St.-Jacques. Langoustine mayonnaise. Coquille St.-Jacques sautés à l’ail et persil. Jurançon sec. Irouléguy. Casa basca, familia a serviço da boa mesa, pinturas com belas cenas da vida regional.
-TXALUPA. “Le seul restaurant sur le Port à St.-Jean-de-Luz.” Kir cidre basque. Moules farcies sur son lit de gros sel. Poellée de chipirons (lula) aux deux poivrons déglacés au vinaigre de cidre. Bar (peixe) au Sel (2 personnes) com fettuccini. Croustillant au figues. Vinho Béarn Domaine Lapeyre, excepcional, denso, caloroso, lembrando um grande Bourgogne, como um Musigny ou um Chambertin.
-PASAKA. 9 rue de Republique St.-Jean-de-Luz. Aperitivo degustado com vinho Tarriquet Cotes de Gascogne (branco seco). Piquillos Farcis à la Morue. Paella Maison. Gateau basque. Vinho Irouléguy Gorri d’Ansa 2003.
-LES FRÈRES IBARBOURE. Chemin de Talienia. Mansão do século XVIII no meio de um bosque. Raridade. Comida regional. Adega espetacular.
-PALAIS. VILLA EUGÉNIE. Biarritz. Uma estrela no Guide Rouge. Rouget du pays en filets poêllés. Vinhos Jurançon e Irouléguy.
-LES PLATANES. Biarritz. 32, av. Beausoleil. Uma estrela no Guide Rouge. Vila basca abrigando duas salas. Quadros modernos. Moveis antigos. Menus anunciados oralmente. Vinhos Jurançon e Côtes de Saint-Mont. Espetaculares.
-CIDRERIE ALDAKURRIA. St.-Jean-Pied-de-Port. À moda espanhola esta cidreria propõe omelete de bacalhau com cidra à vontade.
-LE MANECHEA. St.-Jean-Pied-de-Port. Pequeno, aconchegante, cozinha de terroir, alcança com gosto as papilas mais complexas.

Referências bibliográficas

Etienne Rousseau – Ploto, Ravel-Portraits basques, 2004, Ed. Séguier.
Le Guide Vert, Aquitaine, Pays Basque Béarn, Michelin Éditions des Voyages.
Guide Rouge 2006.
Guia Visual Folha de São Paulo.
Pays Basque Magazine nº 42, Avril – Mai – Juin 2006.
Pays Basque. Mer et Montagne. Ed. Lavielle 2002.
La France a vôtre table. Routes Gastronomiques des régions françaises.


Você leu 1 de 3 matérias a que tem direito no mês.

Login

Cadastre-se e leia 10 matérias/mês de graça e receba conteúdo especializado

Cadastro Gratuito