Style de vie

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Joalheiro dos reis e Rei dos joalheiros: Cartier

Cartier contribui decisivamente para a revolução das formas e dos motivos da linguagem da joalheria clássica

Rue de la Paix, Paris. Imagem: Pixabay

Consagrar uma exposição do Grand Palais a uma empresa importante em plena atividade não é habitual. Mas foi o que aconteceu favorecendo a Cartier. Vários fatores contribuíram para que a exposição se realizasse concretamente: uma matéria excepcional, cuja história não é bem conhecida, a despeito da celebridade do nome, a reunião de um número considerável de pessoas interessadas em realizá-la, a convicção por parte dos comissários organizadores de encontrar neste assunto a ocasião para praticar o exercício de um gênero novo, como o Grand Palais atualmente o permite, cruzando caminhos e elastecendo o campo da historia da arte.

Destinada a ilustrar a evolução histórica e artística da Maison, a coleção apresentada reuniu mais de mil e quinhentas peças, com uma divisão equânime entre joias, objetos preciosos e relógios. As compras realizadas, depois dos anos oitenta, ainda permitiram à Cartier reencontrar joias compradas e usadas por algumas das personalidades mais irradiantes de sua história, desde o Marajá de Patiala até a grande atriz mexicana Maria Félix, passando pelas cabeças coroadas e várias estrelas de Hollywood.

No espaço monumental do Salon D’Honneur joias variadas, relógios fabricados a partir de pedras preciosas, fazem uma entrada flamejante no campo da historia da arte. A exposição fez homenagem à virtuosidade dos Ateliers Cartier, contando a história da Maison depois de sua criação em 1847 até os anos 1970, traçando mais de um século de excelência, de ambição estética e marcadamente de inovações técnicas.

Se o nome já era celebre, a aventura humana e artística que esta na origem do prestigio continuava mal conhecida. A exposição mostra que foi a Cartier, já no começo do século XX, que fez reviver a essência do século XVIII e de seus refinamentos, através do famoso estilo guirlande (significa grinalda). Fica claro, ainda, que Cartier adota muito cedo as linhas modernas, prefigurando a arte déco. Cartier contribui decisivamente para a revolução das formas e dos motivos da linguagem da joalheria clássica, trabalhando com fontes de inspiração exóticas, naturalistas ou animalistas. Um desenvolvimento, respeitando o curso do tempo e uma renovação permanente. Tudo isso sobre uma base de princípios intocáveis que forjaram a identidade da Maison e uma assinatura fidedignas, como os dos pintores, dos músicos ou dos fotógrafos.

As peças reunidas na exposição vieram acompanhadas de numerosos testemunhos de sua época: vestidos, assessórios, quadros, óleo sobre tela, aos quais adicionaram-se vários desenhos preparatórios e documentos de arquivos, permitindo o conhecimento da fase embrionária da criação. Esse projeto inédito, a maior exposição dedicada à famosa Casa, nasceu do encontro de dois mundos, uma diversidade também inédita: o mundo dos museus e o mundo da joalheria, ao tempo em que oferece um novo olhar sobre essas peças históricas. Não era, por certo, a promoção de uma marca. Em nenhum momento se percebeu essa intenção no curso da exposição. O que se viu foi a analise aprofundada de um estilo, de uma época, por uma equipe de conservadores do patrimônio e historiadores da arte.

A área reservada à atriz mexicana Maria Félix (1914 – 2002) merece um registro particular. A atriz que é muito conhecida na França pelos filmes que protagonizou com Jean Renoir (French Cancan, 1955) ou Luis Buñuel (La Fiévre, 1959), levou uma vida faustosa, entre o México e a Europa. Residiu em Paris uma parte do ano, possuindo um apartamento inteiramente mobiliado segundo o estilo Napoleão III: poltronas capitonadas e lacas negras, num décor eclético que a atriz considerava a quintessência do gosto francês. Opulência e riqueza, enfeitadas com sua preciosa coleção de objetos, de moveis e de bibelots. Esse gosto de luxo extravagante se percebe na coleção de joias, cujas peças mais apuradas foram realizadas, segundo suas encomendas, pela Maison Cartier.

Fruto de um ano de intenso trabalho, o colar serpente, encomendado por Maria Félix em 1968, é uma das peças mais espetaculares jamais criadas pela Maison. A estrutura articulada dessa joia é uma verdadeira proeza técnica, que tira o melhor proveito das qualidades da platina, combinada com ouro branco e ouro amarelo. Constituída de dois mil quatrocentos e setenta e três diamantes, a superfície trabalha com a luz à maneira da pele de uma serpente bem viva, enquanto que a parte invisível é um prodígio de harmonia, usando habilmente esmalte verde, vermelho e negro.

Seu amor pelos repteis leva Maria Félix a encomendar um outro pedido espetacular, seja pela sua natureza, seja pelas circunstancias que o envolvem: segundo uma lenda frequente, ela teria trazido à Rue de la Paix um bebê crocodilo vivo, a titulo de modelo, para os desenhistas da Cartier. Que essa anedota seja confirmada, ou que não seja confirmada, o colar crocodilo, que resultou deste pedido, é um outro prodígio de engenhosidade. Inteiramente articulado, podendo ser usado separadamente ou privado de suas garras, perigosas para a pele delicada de sua proprietária, já que estão reunidas no colar os dois crocodilos cobertos de diamantes, um deles, e de esmeraldas, o outro.

O que os organizadores almejaram eles lograram obter: tornar palpável, inteligível talvez, a abundancia de um historia magnífica, na qual se cruzaram grandes eventos, personalidades fortes e material de sonho, um mundo muito particular – hoje já fora do cenário, pertencendo apenas à História –, que inspirou aos criadores, artistas e artesãos da Maison, objetos alcançando frequentemente o excelso, o grandioso, o sublime.


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