Style de vie

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Étienne de La Boétie: discurso sobre servidão voluntária, amizade e liberdade

Onde queria chegar La Boétie em seu texto eloquente?

Arco do Triunfo, Paris, França. Imagem: Pixabay

Não nascemos apenas na posse de nossa liberdade, mas com a incumbência de defendê-la”.

La Boétie

A venerada Avenue Montaigne, em Paris, o luxo dos luxos, nada tem a ver com o nome que a avenida homenageia. Michel de Montaigne foi um modelo de temperança e de moderação. Nada de luxo, nada de excesso. Ser verdadeiramente humano, dizia ele, é comportar-se não só de maneira comum, mas ordenada. Significa viver adequadamente, de modo a avaliar as coisas pelo exato valor e comportar-se de maneira apropriada. Significa aceitar que somos iguais a todos e que carregamos a forma da condição humana em sua totalidade.

Do lado esquerdo da Avenue des Champs Elysées, tendo o Arco do Triunfo às costas, está uma rua extensa e muito movimentada, que homenageia a memória de outro sábio, amigo de Montaige, Étienne de La Boétie. Tinha Montaigne pouco mais de vinte anos quando conheceu La Boétie. Trabalhavam no parlamento de Bordeaux. Montaigne já sabia que La Boétie era o autor de um polêmico manuscrito que circulava na região do Perigord intitulado Da Servidão Voluntária. Teria lido no fim da década de 1550, antes mesmo de conhecer seu autor. Mais tarde haveria de escrever sobre sua gratidão, já que o texto o levara a conhecer o seu autor. Começava uma grande amizade que durou apenas seis anos, sendo certo que ficaram separados cerca de um terço desse curto período, já que iam trabalhar em cidades diferentes . Mas essa meia dúzia de anos foi bastante para mantê-los unidos, tão unidos como se tivessem uma vida extensa de compartilhamento.

La Boétie era um sábio jovem, amigo da antiguidade clássica, poeta. Nasceu em 1530 e faleceu quase trinta e três anos depois. Compôs versos, traduziu Xenofonte. Mas nada disso o teria feito viver pelos séculos se Montaigne não tivesse escrito sobre ele um capítulo inteiro dos seus brilhantes Ensaios, se ele não tivesse escrito a sua pequena e vibrante obra Da Servidão Voluntária. Depois de tudo isso ficou imortal, estando seu nome vinculado estreitamente às palavras amizade e liberdade, palavras que jamais serão apagadas da linguagem dos homens.

Mas onde queria chegar La Boétie em seu texto eloquente? Em honra da liberdade contra os tiranos.

Ele procura, com método original e ainda não empregado pelos pensadores, explicar a natureza da escravidão e a explicação de suas causas. É pura denúncia contra a covardia dos povos prontos a entregar as armas à tirania e dormir na obediência. O jovem de menos de 18 anos mostra a grande surpresa que tal cegueira lhe causa.

Parece escrito em épocas recentes. Com efeito, explica La Boétie: uma vez implantada, duas coisas mantêm uma tirania, a saber, a ignorância e o gosto dos prazeres vis. É preciso, então, que o tirano proscreva “os livros e as doutrinas que fornecem, mais do que tudo, aos homens, o sentido de conhecer-se a si mesmo e odiar a tirania”. É preciso, além disso, que o tirano proporcione ao povo diversões capazes de atordoá-lo e de enfraquecê-lo.

Qual seria a causa, o fundamento dessa servidão? O que é que interessa tanto, nas pessoas, a manutenção desse poder despótico?

Ele não vê outra causa para esse concurso senão o interesse pessoal, de um lugar a outro e ligando uns aos outros, levando uma multidão de homens à tirania, que assim se torna o centro de todos as cobiças e a fonte de todas as vantagens.

Ai está o segredo do poder tirano, mostrando como a tirania podia existir e sustentar-se. E diz mais: esta organização da tirania é tanto mais censurável que é de todo o mal e toda a escória do reino que se amontoa em torno do tirano, por uma atração natural, como os humores, nos corpos, afluem em direção à parte enferma. Triste vantagem além de ser tão vizinhos do poder soberano, exposto de tão perto a seus bruscos caprichos? Não é Calígula que dizia, abraçando a mais querida de suas amantes: “Aqui está a bela cabeça que uma única palavra minha pode fazer cair?” Finaliza: evitemos, pois, os tiranos; conservemos os olhos voltados para o céu e guardemos nossa honra com a ajuda de Deus, que não gostaria de ver o aviltamento de suas criaturas.

Seria então uma sociedade que desprezasse a obediência? A resposta só pode ser contraria. A obediência é a condição inevitável e indispensável em todas as sociedades humanas organizadas. É ela, a obediência, justa e necessária, que, alterada em seus traços essenciais e desviada de seu legitimo objetivo, torna-se servidão. Daí a conclusão inexorável: a arte da tirania consiste em confundir esta obediência com a servidão, a ponto em que as duas pareçam não ser mais que uma só coisa e o vulgo se torne incapaz de distingui-las.

Foi “dando licença” – segundo a expressão feliz de La Boétie – “às leis e a liberdade”, vale dizer, concentrando nas mãos todos os poderes, declarando-se tribunos perpétuos do povo, apresentando seus candidatos às funções consulares e fazendo dos comícios e plebiscitos formalidades circenses, que Júlio César e Augusto reduziram, para sempre, o povo romano à servidão.

Daí a conclusão inafastável: não existe servidão honrosa nem tirano inocente.

A obra termina com palavras de esperança: aprendamos pois, às vezes, a fazer o bem; elevemos os olhos ao céu, ou em nome da nossa honra, ou pelo próprio amor da virtude, ou, certamente, para falar com conhecimento de causa, pelo amor e honra de Deus todo – poderoso, testemunha certa de nossos feitos e juiz justo de nossas faltas. De minha parte, penso bem e não me enganei, pois nada há tão contrário a Deus, tão liberal e bondoso, como a tirania, e ele reserva lá em baixo, à parte, para os tiranos e seus cúmplices, alguma pena particular.

Os dois amigos, Montaigne e La Boétie, estavam juntos, quando o estado de saúde de La Boétie se agravou. Demonstrou uma coragem rara diante da proximidade da morte. Montaigne disse que “ruborizava de vergonha” ao vê-lo demostrando mais coragem diante da morte do que ele próprio se sentia capaz de reunir para presenciá-la. Era a morte do estoico, cheio de coragem e de sabedoria racional. A choradeira dos que o cercavam o deixou horrorizado. “Meu Deus, quem é que me atormenta assim? Porque me tiram desse grande e agradável repouso em que me encontro? Deixem-me em paz, eu imploro.” Um gole de vinho restaurou suas faculdades mas ele estava partindo. “Meu irmão, fique perto de mim, por favor.”

Ainda havia muitas outras pessoas por perto. No Renascimento, ninguém fazia nada sozinho, muito menos morrer. O moribundo se agitava, contorcendo-se. Na madrugada de quarta-feira, 18 de agosto de 1563, depois de viver trinta e dois anos, nove meses e dezessete dias, La Boétie deu o último suspiro. Ele passa ser uma entidade ideal. O grande filósofo Seneca recomendava aos seguidores que usassem os amigos dessa forma especial: no contato com um homem admirável, dizia, o indivíduo deve visualizá-lo como um público sempre presente, para estar constantemente verificando seus padrões mais elevados. Em vez de viver para nós mesmos, escreveu, devemos viver para os outros – e, acima de tudo, para um amigo escolhido.

O amigo Montaigne, sobrevivente que viveu ainda muitos anos, aprendeu a estar no mundo sozinho. Mas o ato de escrever sobre La Boétie acabaria por conduzi-lo a escrever a sua obra os Ensaios. E não há a menor dúvida que o seu grande inspirador foi o seu amigo maior, Étienne de La Boétie, que é o que se pode denominar um verdadeiro espírito livre.

Referências bibliográficas

  • Étienne de La Boétie, Discurso sobre a Servidão Voluntária, 2ª ed. rev., tradução de J. Cretella Jr. e Agnes Cretella, Ed. Rev. Tribunais, 2009

  • Étienne de La Boétie, Discurso da Servidão Voluntária, trad. Laymer Garcia dos Santos, comentários: Claude Lefort, Pierre Clastres e Marilena Chauí, Ed. bilíngue, Ed. Brasiliense, 1982 (centenário de Monteiro Lobato)

  • Sarah Bakewell, Como Viver ou Uma biografia de Montaigne com uma pergunta e vinte tentativas de resposta, Ed. Objetivo, Trad. Clovis Marques, 2012.


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