Style de vie

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A Filarmônica de Berlim em Paris

Sir Simon Rattle é o 7º regente efetivo da mais célebre orquestra sinfônica do universo

Salle Pleyel, Paris. Wikimedia commons

A desolação visível, pelo fato da Salle Pleyel estar em vias de suspender, por longo tempo, suas apresentações para indispensáveis obras de recuperação em seu espaço, contrastava com o êxtase do ultimo concerto, o primeiro, na capital francesa, da Filarmônica de Berlim, com seu novo titular, investido nas funções de Diretor Musical em setembro de 2002.

Coincidentemente na mesma sala de concertos em que seu ultimo regente, Cláudio Abbado, se apresentara no ano 2000, despedindo-se de suas funções em varias apresentações na Europa Continental e nas Américas. Em fevereiro de 1998 Abbado anuncia que não renovaria seu contrato com a Filarmônica de Berlim além da Saison 2001-2002. Em 23 de junho de 1999, os músicos da orquestra elegem, por grande maioria, Sir Simon Rattle para lhe suceder a partir de 2002.

A chegada do novo diretor musical é acompanhada de uma série de mudanças na estrutura da instituição venerada. Uma delas resultou em uma capital renovação: a orquestra abandona seus estatutos anteriores para se tornar uma fundação de direito público, o que haverá de lhe garantir uma melhor estabilidade econômica, permitindo-lhe ampliar em muito suas áreas de ação.

Sir Simon Rattle é o sétimo regente efetivo da mais célebre orquestra sinfônica do universo.

À frente desta instituição venerável estiveram maestros que compõem o créme de la créme da história da regência musical em todos os tempos. Bülow, Nikisch, Furtwängler, Celibidache, Karajan e, o último deles, Cláudio Abbado.

A figura singular de cabelos encaracolados, nascido na mesma cidade legendária dos Beatles, representa para a Filarmônica de Berlim o retorno de um estilo mais abrangente após o período de Abbado, um músico notável, mas que pautou sua gestão com a marca da contenção, tendo sido, como mostrou, pouco afeito a lances mercadológicos. Isto haverá de significar para a Filarmônica de Berlim uma maior visibilidade internacional sem, contudo, assemelhar-se com a era Karajan.

“Simon Rattle é o jovem regente mais assombrosamente dotado que conheço”, disse o consagrado pianista Alfred Brendel. E acrescentou: “Para mim, Simon pôs a décima sinfonia de Mahler no mapa; ele provou de uma vez por todas que essa é uma partitura extraordinária”. Esse jovem maestro, também chamado “O Karajan do ano 2000”, defende idéias luminosas sobre a arte e a técnica da regência musical. Ele sempre diz que procurou trabalhar em peças para os quais os músicos não estão afeiçoados, acrescentando: “Isso significava que eu podia lhes ensinar as notas, pois a arte de ser um bom regente está em saber tudo melhor do que a orquestra”.

Foi sempre estimulado pela força esmagadora dos intelectuais peso pesado, sentindo-se desafiado diante da sua incapacidade de dominar idéias poderosas e línguas estrangeiras. Mas fez dessas inadequações uma virtude, admitindo alegremente que fora atraído para a regência “pela idéia de passar minha vida explorando um cérebro mais vasto que o meu.”

A sinfonia n. 88 em sol maior, de Joseph Haydn, é uma rara sinfonia do compositor sem titulo, mas nem por isso menos atraente que aquelas celebradas pela tradição de um epíteto, como Les Adieux, L’Ours, La Reine ou La Surprise. O novo regente soube conceder ao texto grandioso do mestre vienense uma marcante dignidade, sobretudo no movimento Largo, do qual Brahms dizia: “Eu gostaria que o da minha Nona fosse assim”.

O ponto alto da apresentação foi a Sinfonia n. 5, de Gustav Mahler, na tonalidade de dó sustenido menor, a mesma obra com que Rattle iniciou suas novas funções na capital alemã. O compositor vienense, na 5a Sinfonia, se diferencia de seus trabalhos sinfônicos precedentes. O Adagietto para cordas e harpa do quarto movimento é essencialmente um interlúdio, episodio introspectivo e pessoal no coração de uma obra tão largamente objetiva. Desenvolve uma atmosfera contemplativa carregada de paixão e foi este o tema utilizado por Luchino Visconti, no filme genial Morte em Veneza, baseada na obra homônima de Thomas Mann.

O maestro esteve em seu esplendor, interpretando um edifício musical prioritário em sua brilhante carreira de regente, já contemplando muitas gravações feitas na orquestra por ele dirigida por mais de duas décadas na cidade de Birmingham. No movimento final (allegro-allegro giocoso) o regente segue com rigorosa fidelidade a atividade exuberante proposta pelo compositor, fazendo dissipar todas as sombras que se assinalaram nos movimentos precedentes, notadamente no breve Adagietto, que ainda teriam podido subsistir.

E a plateia refinada entendeu a vibração da mensagem que o notável trabalho abrigava. Exercendo sua função com modéstia, e até com certa dose de introspecção, em lugar de trazer ao pódio os instrumentistas que tiveram destaque na apresentação da obra magistral, o novo regente se misturou sem altivez com seus músicos, dirigindo-se pessoalmente no seio da orquestra a cada um deles – até ao trompetista responsável pela insuspeitada nota em falso perpetrada na exposição da fanfarra inicial –, levantando-lhes o braço e trazendo-lhes as merecidas ovações do público extasiado.

Ficaram bem claras, para todos que ali estavam lotando a imensa Salle Pleyel, as intenções novo titular da Filarmônica de Berlim: “Devemos nos lembrar que a música não é um luxo, mas uma necessidade fundamental. A música deve exercer um papel primordial, essencial na vida de cada um.”


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