Quaest Opinião

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Enxergando mundos diferentes: percepções da pandemia pela lente do Bolsonarismo

Dados refletem o que psicólogos políticos chamam de ‘raciocínio motivado’

Presidente da República Jair Bolsonaro posa para fotografia no canal de transposição do Rio São Francisco. Foto: Alan Santos/PR

Desde o início da crise do coronavírus, vários estudos vêm examinando como ideologia e preferências políticas afetam as avaliações dos brasileiros sobre a gestão da pandemia. Há um consenso acerca do fato de que eleitores do presidente Jair Bolsonaro avaliam melhor sua atuação. Sabe-se pouco, entretanto, sobre o porquê disso.

Há várias razões plausíveis para essa divergência. A mais simples é que eleitores interpretam de forma diferente a realidade, com aqueles mais favoráveis ao presidente se mostrando mais propensos ao otimismo. Em tempos de polarização e crescente uso de mídias sociais, entretanto, seria possível que mesmo a informação sobre a realidade varie entre aqueles que apoiam e os que se opõem ao governo?

Para responder esta questão e examinar as origens da divergência na avaliação da gestão da pandemia entre apoiadores e opositores de Bolsonaro, tomamos por base dados da última rodada da pesquisa de opinião realizada pela Quaest e publicada aqui no JOTA. A pesquisa ouviu 1.000 pessoas entre os dias 14 e 17 de junho de forma online, com amostra que reflete a população brasileira adulta. Nossa conclusão é que a lente ideológica colore informações, interpretações e avaliações relacionadas à pandemia.

Logo de imediato, nota-se que eleitores de Bolsonaro estão menos preocupados do que os demais com a pandemia (Figura 1). Em uma escala em que 5 representa aqueles muito preocupados com a pandemia, aqueles que não votaram em Bolsonaro em 2018 preocupam-se em média 4.5, contra 4.1 de bolsonaristas.

Essa diferença se acentua no caso de eleitores de Bolsonaro cuja principal fonte de informação são as mídias sociais — a categoria menos preocupada da amostra. É interessante notar que, entre não bolsonaristas, não há diferença estatisticamente relevante entre aqueles que se informam pela mídia tradicional ou por redes sociais. Entre bolsonaristas, no entanto, esse efeito é forte e estatisticamente significativo.

Essa “falta de medo” em relação à pandemia tem consequências concretas. Ela ajuda a compreender, por exemplo, os resultados de um estudo recente da USP, que mostra que o isolamento social é menor em municípios cuja maioria dos residentes votou no presidente em 2018.

Resta saber, assim, a origem destas distintas percepções sobre a pandemia. Uma hipótese é que eleitores compartilhem o fatalismo de Bolsonaro, segundo o qual “todos vão morrer um dia”, logo não há muito que se possa fazer. Uma outra possibilidade é que estes eleitores estejam simplesmente mal informados sobre a crise.

Para testar esta hipótese, pedimos aos entrevistados que apontassem o intervalo que contivesse o número de milhares de mortes por Covid-19 no país até aquela data ( 1 – 5 ; 5 – 10; 10 – 20; 20 – 50; 50 – 100), onde o quarto intervalo era o correto.

A Figura 2 mostra uma diferença clara e estatisticamente significativa entre a quantidade de vítimas apontada por eleitores e não eleitores de Bolsonaro. Enquanto aqueles que não votaram em Bolsonaro em média apontam o intervalo correto, bolsonaristas, em particular aqueles informados pelas redes, indicam um número de mortes menor do que a realidade.

Há mais. Perguntamos aos entrevistados como eles avaliam o número de vítimas da Covid-19, com cinco opções de resposta variando entre “muito alto” e “muito baixo”. Entre aqueles que apontam o mesmo intervalo para o número de vítimas, eleitores de Bolsonaro tendem a considerá-lo 0,5 ponto mais baixo do que não eleitores, um valor alto e estatisticamente significativo.

A Figura 3 indica a avaliação para todos aqueles que escolheram o intervalo correto, de 20 a 50 mil vítimas. Nota-se que, ainda que vejam a mesma realidade, eleitores e não-eleitores de Bolsonaro fazem uma avaliação flagrantemente distinta dela, com bolsonaristas tendendo a considerar este mesmo número de mortes “mais baixo” do que os demais.

Entre aqueles que se informam prioritariamente pelas redes sociais esse valor é ainda menor, entre alto e moderado.

Por fim, perguntamos aos pesquisados sua avaliação do presidente na gestão da pandemia, com seis opções entre péssima (1) e ótima (6). Enquanto eleitores de Bolsonaro avaliaram a gestão como regular (3.6), os demais indicaram 1,7, algo entre péssima e ruim. Como seria de se esperar, quanto mais baixo alguém considera o número de vítimas, melhor a avaliação do desempenho de Bolsonaro na gestão da pandemia.

O mais interessante, contudo, é que mesmo entre aqueles com a mesma interpretação quanto ao número de vítimas, há enorme variação entre os que votaram ou não em Bolsonaro. A Figura 4 mostra a avaliação do governo para o grupo de entrevistados que considera o número de vítimas da Covid até hoje “alto”.

Entre estes, eleitores de Bolsonaro avaliam a gestão do presidente entre regular positiva e boa, enquanto essa avaliação sobe para algo entre boa e ótima para bolsonaristas informados pelas redes sociais

Entre aqueles que possuem a mesma interpretação a respeito do número de mortos pela pandemia, entretanto, os eleitores do presidente tendem a avaliá-lo substancialmente melhor. Para ilustrar, a Figura 4 mostra a avaliação do presidente entre eleitores e não-eleitores que concordam que o número de vítimas da Covid-19 é “alto”.

Enquanto bolsonaristas avaliam a gestão do presidente na pandemia entre regular negativa e regular positiva, os demais a consideram ruim. Novamente, bolsonaristas que se informam via mídias sociais são os mais positivos em relação à forma como Bolsonaro vêm administrando a pandemia.

Conclusão

Concluindo, nosso estudo revela que o apoio a Bolsonaro afeta o conhecimento da realidade da pandemia, bem como sua avaliação e o julgamento da gestão do presidente que dela decorre. Eleitores de Bolsonaro acreditam que a pandemia matou menos pessoas.

Entre aqueles que reconhecem um mesmo número de vítimas, os que votaram em Bolsonaro tendem a avaliar esse número como mais baixo. Por fim, entre aqueles que detém a mesma avaliação do número de vítimas, eleitores de Bolsonaro tendem a avaliar (muito) melhor a sua gestão da pandemia.

Estes dados refletem o que psicólogos políticos chamam de “raciocínio motivado” – a tendência dos indivíduos de formar impressões a respeito de fatos e pessoas e de racionalizar essas impressões a posteriori.

Neste caso, esse raciocínio motivado acontece não apenas na avaliação do presidente ou na interpretação da realidade, mas se estende até mesmo a fatos objetivos, como o número de vítimas da pandemia. Como se poderia esperar, esse efeito é ainda mais forte entre eleitores do presidente que se informam principalmente através das mídias sociais.


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