Jazz

Jazz

A corneta dourada de Ron Miles

Blue Note lança Rainbow Sign, em quinteto que inclui a guitarra de Bill Frisell

Ron Miles / Crédito: Divulgação

Ron Miles é um jazzman muito especial. Principalmente por eleger e dominar um instrumento não muito comum para compor e interpretar um tipo de música que oscila entre dois extremos: evocações dos velhos tempos de Nova Orleans e a concepção free surgida na década de 1960 a partir de músicos dentre os quais o cornetista Don Cherry (1936-1991), que foi parceiro do “imortal” Ornette Coleman (1930-2015).

Só que sua dourada corneta, feita a mão, sob encomenda, pela Monette, é afinada em sol, e não em si bemol como o trompete tradicional. Ainda de acordo com o site da Monette, “o som da cornette tem quase tudo daquele da Golden Era que tanto amamos, mas com entonação e as vantagens de resposta características dos nossos modernos instrumentos”. O cornetista Kirk Knuffe, por sua vez, assim definiu a diferença entre os dois horns: “A corneta é como luz num nevoeiro; o trompete está mais para um raio laser”.

Aos 57 anos, Ron Miles tem uma discreta discografia de 14 álbuns como líder, mas quase sempre na companhia de alguns dos melhores sidemen em suas respectivas especialidades. Em 2017, ele lançara, com muito sucesso de crítica, o CD I Am a Man (selo Yellow Bird), à frente de um quinteto excepcional com Brian Blade (bateria), Bill Frisell (guitarra), Thomas Morgan (baixo) e Jason Moran (piano). 

Valendo anotar que Blade e Frisell chegaram em primeiro e segundo lugares, respectivamente, em suas especialidades, na última votação dos melhores jazzmen do ano promovida pela revista Downbeat.

Pois esse mesmo quinteto está novamente reunido agora, no seu primeiro álbum para o prestigioso selo Blue Note, intitulado Rainbow SignSão ao todo nove peças do cornetista-líder, incluindo a faixa-título (7m05), que é tocada em tempo médio, numa atmosfera bluesyEm contraste com a peça inicial de 16 minutos, que começa com o ranger e os lamentos das cordas, e é levada num contexto bem free, as cordas e o piano ombreando-se com as intervenções e divagações dramáticas de Ron Miles.

O compositor-solista dá realce ao fato de ter escrito as peças de Rainbow Sign em meados de 2018, quando o seu pai – por quem nutria grande admiração e afeto – já estava muito doente, desenganado pelos médicos. “É por isso que o álbum reflete uma jornada da Terra para a paz eterna” – comenta o músico.

Jim Hynes, do Glide Magazine, destaca na review do álbum que Ron Miles evita solos muito longos, preferindo “mover a música em torno do grupo, variando a melodia e as harmonias assim como o conjunto de Wayne Shorter, que é o modelo de Miles e também do grupo do qual Brian Blade (baterista) é a âncora”.

Mas não se pode deixar de sublinhar – e reparar bem no novo disco – a ligação muito especial entre o cornetista-líder e o guitarrista Bill Frisell, 12 anos mais velho. Ambos estudaram na mesma high school em Denver, e Miles – assim que se formou no college – acabou enviando a Frisell uma cassette com a mensagem: “Gosto do seu trabalho; aqui vai um pouco do meu”. 

O tempo passou, o renomado guitarrista acabou ouvindo um trompetista no rádio do carro que logo identificou como sendo o seu admirador. Os dois se encontraram, e desde a década de 1990 começaram a tocar e a gravar juntos (a partir do álbum Quartet, selo Nonesuch, 1996).

Samples disponível em: https://www.amazon.com/dp/B08FR32Z97/ref=dm_ws_tlw_trk2

Ouça a faixa Queen of the South:


Cadastre-se e leia 10 matérias/mês de graça e receba conteúdo especializado

Cadastro Gratuito