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CORONAVÍRUS

A crise, o mercado e os pequenos investidores

É preciso que o regulador avalie a possível volatidade do mercado e do impacto que ela pode produzir sobre os investidores individuais

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Crédito: Flickr

Além dos difíceis desafios humanitários que a pandemia de coronavírus nos impõe, as incertezas sobre as suas consequências na economia são refletidas diariamente nas quedas abruptas dos valores dos ativos negociados nas bolsas de valores ao redor do mundo.  No Brasil, a crise chegou justamente quando o Ibovespa atingia seus patamares historicamente mais elevados e uma nova onda de ofertas iniciais de ações (IPOs) se iniciava.

Em dezembro de 2019, reportagem de mídia especializada apontava projeção de especialistas que o Ibovespa chegaria a 150 mil pontos com alta de 38% em 2020.[1] No final de janeiro, apesar de já serem conhecidos os problemas com o coronavírus na China, os jornais traziam otimismo sobre futuras  ofertas públicas de distribuição de ações no Brasil. Somente após o carnaval, por várias razões, as notícias começaram a apontar dúvidas sobre o futuro da economia mundial e brasileira.

Uma das consequências da redução das taxas de juros no Brasil nos últimos anos foi a redução do rendimento de produtos de renda fixa, surgindo as “viúvas do CDI”. O mercado acionário tornou-se interessante alternativa de investimento, levando um grande número de pessoas físicas a alocar suas poupanças em ações e em outros ativos como os fundos imobiliários. Olhares mais atentos de especialistas do mercado financeiro e de capitais, no entanto, sugeriam a existência de uma bolha no mercado de capitais brasileiro. Destacava-se nesse contexto a diminuição do número de companhias abertas com ações negociadas em bolsa, a progressiva retirada do capital estrangeiro ao longo de 2019, a aceleração da entrada de pessoas físicas e a elevação Ibovespa a um patamar inédito.

Como se verifica no Gráfico 01, as companhias listadas na B3 diminuíram em número a partir de 2011. Se em 2007, tínhamos 361 companhias listadas; o final de 2019, este número baixou para 320.

Gráfico 01 – Número de empresas listadas na bolsa de valores

Fonte: B3, histórico de cotações diárias, disponível em http://www.b3.com.br/pt_br/market-data-e-indices/servicos-de-dados/market-data/historico/mercado-a-vista/cotacoes-historicas/

Em um contexto de redução de taxas de juros e controle inflacionário, as pessoas físicas viram o mercado acionário como alternativa de investimento. O número de pessoas físicas aumentou, em especial após 2018. Se em 2007, tínhamos 456 mil pessoas físicas negociando no mercado secundário, fechamos 2019 com 1,681 milhão de investidores.

Gráfico 02 – Número de pessoas físicas investindo na bolsa[2]

Fonte: B3, histórico de pessoas físicas, disponível em http://www.b3.com.br/pt_br/market-data-e-indices/servicos-de-dados/market-data/consultas/mercado-a-vista/historico-pessoas-fisicas/

Além disto, entre janeiro de 2019 e março de 2020, houve a saída de investidores estrangeiros do mercado secundário de ações na B3, no montante de R$ 45,9 bilhões, descontados os ingressos no mercado primário. Levando em conta apenas as movimentações no mercado secundário, temos um saldo negativo de R$ 99,3 bilhões[3]. Cumpre lembrar que o saldo de investimentos estrangeiros foi positivo entre 2015 e 2017 (R$ 83.3 bilhões) e levemente negativo em 2018 (R$ 5,6 bilhões).

Gráfico 03 – Investimento estrangeiro na bolsa

Fonte: B3, dados do mercado, disponível em B3, Dados do Mercado, disponível em http://www.b3.com.br/pt_br/market-data-e-indices/servicos-de-dados/market-data/consultas/mercado-a-vista/dados-de-mercado/

Ao longo de 2019, nosso cenário era de saída de investidores estrangeiros e, apesar disso, um aumento no Ibovespa, algo em parte auxiliado pela liquidez dada pela entrada de pessoas físicas. Mas a confirmação de existência ou não de uma bolha foi impossibilitada pelas consequências econômicas da pandemia do coronavírus.

Já existiram tantas outras crises com as mais variadas causas desde o encilhamento no final do Século XIX, passando pela crise de 1971 até a recente crise financeira do subprime em 2008. Mas há um detalhe relevante na observação das crises passadas e que provavelmente se reflete na atual: são as pessoas físicas as últimas a saírem do mercado e, por isso, sofrem em demasia as consequências negativas.

Se a dúvida em fevereiro era a possível existência de uma bolha no mercado brasileiro, com a chegada da pandemia do coronavírus, o cenário mudou e tornou crítica a situação dos investimentos em ações por pequenos investidores. De toda forma, a situação revela a necessidade de melhor refletir sobre a forma com que se deu o crescimento dessa participação das pessoas no mercado acionário.

É evidente que a maior presença de pessoas físicas não é um problema, muito pelo contrário. Mas a crescente facilidade de acesso direto, por exemplo, por meio de aplicativos e outras plataformas eletrônicas que democratizam o acesso ao mercado, despertam questões. Houve controle efetivo da adequação dos investimentos em renda variável (suitability) para essas os milhares de entrantes no mercado? Esses investidores possuíam informações suficientes para orientar seus investimentos, em especial no que concerne aos riscos envolvidos?

Uma vez que a situação esteja estabilizada, é interessante que o regulador se debruce sobre essas questões. Episódios recentes apelando para o investimento de pessoas físicas ganham um tom de seriedade mais grave, dado que a crise nos faz lembrar da possível volatidade do mercado e do impacto que ela pode produzir sobre os investidores individuais.

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[1] Juliana Machado e Ana Carolina Neira, Valor, 04/12/2019 – https://valorinveste.globo.com/mercados/renda-variavel/bolsas-e-indices/noticia/2019/12/04/para-onde-vai-a-bolsa-em-2020-os-analistas-respondem.ghtml

[2] Como os dados são anuais, assumimos um crescimento uniforme mensal. O número de CPFs é contato por cadastro nos agentes de custódia, de sorte que é possível uma duplicidade na contagem para alguns casos.

[3] B3, Dados do Mercado, disponível em http://www.b3.com.br/pt_br/market-data-e-indices/servicos-de-dados/market-data/consultas/mercado-a-vista/dados-de-mercado/