Coluna do Milton Seligman

Entrevista

Roberto Savio: um globalista de raiz

Jornalista italiano conversou com o JOTA sobre a conjuntura global, a crise do novo coronavírus e o que virá pela frente

O jornalista italiano Roberto Savio / Crédito: JOTA

Conheci Roberto Savio em 1988, em Brasília, em um almoço em sua homenagem, na casa do jornalista Guy de Almeida, então chefe do gabinete civil do governo do Distrito Federal na gestão do governador José Aparecido de Oliveira.

Savio fazia uma gira pela América Latina e lembro de ter ficado impressionado com a verdadeira volta ao mundo que esse jornalista e cineasta italiano estava envolvido. Visitaria praticamente todos os países de nossa região, estava vindo da Finlândia e completaria seu giro por países do norte da África, antes de retornar à Itália. Viagens internacionais eram bem menos comuns naquela época.

Savio era o diretor geral da agência Internacional de notícias Inter Press Service (IPS), com sede no centro histórico de Roma, na Via Panisperna, bem em frente onde jovens cientistas – o time de Enrico Fermi – realizaram, nos anos 30, a famosa descoberta do nêutron lento, que possibilitou mais tarde a construção do reator nuclear, e então a construção da primeira bomba atômica.

A IPS é uma agência de notícias sem fins lucrativos, fundada para cobrir a agenda do desenvolvimento mundial, contribuindo para o debate sobre a então chamada nova ordem informativa. Até os anos 60 todas as notícias internacionais eram editadas no hemisfério norte e lidas em todo o mundo. Em 1964 a IPS editou a primeira notícia em um país do hemisfério sul, na América Latina, a transmitiu por telex para a Europa e foi publicada em jornais de todo o mundo.

O romano Roberto Savio, de fato, nasceu na Argentina. Filho de uma pianista e de um violinista, a família estava na Argentina quando ele nasceu, acompanhando o pai que dava aulas naquele país. Daí sua dupla nacionalidade e também sua ligação com o nosso continente.

Savio tem uma formação eclética, graduado em economia com pós-graduação em economia do desenvolvimento, história da arte e Direito Internacional. Em seus estudos sobre a economia do desenvolvimento foi aluno de Gunnar Myrdal, o sueco reconhecido por seu trabalho pioneiro sobre a interdependência dos fenômenos econômicos, sociais e institucionais.

Nascido em 1934 foi adolescente no pós-guerra e militou na política italiana em um período de reconstrução da infraestrutura e da política daquele país. Ligado à esquerda da democracia-cristã italiana, Savio conheceu vários dirigentes latino-americanos da mesma linha ideológica.

Nos ensina o ex-chanceler chileno Clodomiro Almeyda que os primeiros grupos cristãos com preocupações sociais surgiram na América Latina no início do século XX, sob a influência da encíclica Rerum Novarum e das primeiras manifestações da luta de classes. Esta tendência iria florescer nos anos 30 e seria reforçada no período pós-guerra, inspirada em ideias humanistas e no compromisso de muitos cristãos na luta antifascista. É assim que muitos partidos democratas-cristãos conquistam importantes setores da classe média.

Por diferentes razões, a democracia cristã latino-americana se aproxima e incorpora as teorias do desenvolvimento que nascem em torno da CEPAL e, portanto, vinculados aos segmentos progressistas da região.

Nos anos 60, Savio é estimulado pela democracia cristã europeia e latino-americana a encontrar parceiros para formar uma cooperativa de jornalistas capaz de trabalhar temas inovadores e libertários, pondo seu olhar sobre pessoas, grupos, gêneros e regiões geográficas que simplesmente não eram atores (fontes) para os meios de comunicação tradicionais.

Tornou-se um personagem da cena internacional, um interlocutor de autoridades públicas de todo o mundo, em especial dos países pobres e em desenvolvimento. Frequentava com desenvoltura e era reconhecido no mundo das Nações Unidas e dos vários arranjos multilaterais, especialmente de países não-alinhados, criados a partir de meados do século passado.

Voltei a me aproximar de Savio em 1991 quando fui convidado para dirigir o Departamento de Projetos da IPS. Moramos em Roma por três anos, quando tive a oportunidade de trabalhar diretamente com ele. Nosso departamento desenhava projetos de comunicação a serem desenvolvidos em países pobres e os oferecíamos para serem financiados pelas agências de desenvolvimento dos países europeus ou pelos organismos multilaterais, em geral do mundo das Nações Unidas.

Savio corria o mundo participando de encontros, seminários e congressos e voltava para Roma cheio de contatos e ideias que nós transformávamos em projetos e buscávamos financiadores.

Os projetos eram ligados ao desenvolvimento humano de segmentos frágeis. Alguns exemplos. Em El Salvador nossos jornalistas acompanharam por dois anos o processo de transformar os ex-guerrilheiros e suas famílias em agricultores, após o fim da guerra civil naquele País. Em Burundi, pequeno e pobre país de África, encravado entre Ruanda e Tanzânia, jornalistas da IPS cobriram o desenvolvimento de algumas comunidades de agricultores familiares que desenvolviam um projeto financiado pela Igreja Católica da Áustria. As crianças, em especial as de famílias pobres, são praticamente desconhecidas, afora os estereótipos. Para vencê-los, a IPS organizou um projeto de reunir, na Polônia, jornalistas, ONGs e agências de desenvolvimento, escolhidos com equilíbrio de gênero, cultura e de origem geográfica, para debater o tema e formular uma pauta que seria coberta pelos jornalistas da IPS e distribuída para os meios de comunicação de todo o mundo.

A agência criada por Roberto Savio desenvolveu-se em plena guerra-fria e era focada em questões globais como justiça social, direitos humanos, refugiados, crianças, meio ambiente, populações indígenas e cultura. Não é preciso dizer que logo foi chamada de comunista pela CIA e de filo-americana pela KGB. Esse era um cenário impossível para a IPS que passou a ter portas fechadas e alguns aliados temerosos de seguir financiando os seus projetos.

Savio enfrentou de frente o desafio. Solicitou uma audiência com um funcionário graduado da CIA que estivesse disposto a ouvi-lo. Seu argumento foi direto: se a IPS estivesse a serviço de alguém o seu material jornalístico deveria refletir essa tendência. Roberto desafiou os norte-americanos a escolher um acadêmico para fazer uma avaliação do material produzido pelos jornalistas da Agência e publicar o relatório com os resultados encontrados.

O indicado foi o PhD em comunicação Anthony Giffard, professor emérito da Universidade de Washington na área de políticas e sistemas internacionais de mídia, com especial interesse nos meios de comunicação da Europa e dos países em desenvolvimento. O relatório de Giffard demonstrou o equilíbrio da IPS e o surpreendente surgimento de atores inéditos como fontes das matérias. Giffard seguiu acompanhando o material da IPS por décadas.

Roberto Savio conversou com o JOTA sobre a conjuntura global, a crise do novo coronavírus e o que ele imagina que virá pela frente. Acredito que você vai gostar de ouvir suas reflexões.