Coluna do Milton Seligman

transformação digital

A revolução dos dados e as relações governamentais

Se, antes, valia ter acesso a pessoas com bons contatos com o poder público, agora isso é muito pouco

Tecnologia e Regulação contrata
Pixabay

As relações governamentais são um jogo entre interesses legítimos onde vencem aqueles que escolhem a estratégia mais eficaz para convencer autoridades a adotar políticas públicas de seu interesse.

Existem diversas estratégias que podem ser empregadas para alcançar os resultados desejados e todas necessitam de informações precisas e atualizadas para que possam ser concluídas com sucesso.

É na busca dessas informações que começa a diferença entre aqueles que serão bem-sucedidos e os que não lograrão conquistar seus objetivos. O uso de ciência de dados, associado a informações colhidas com os tomadores de decisão muda qualitativamente a forma como se pode atuar em relações governamentais.

Algumas das etapas de uma boa estratégia para influenciar políticas públicas dependem de um eficiente sistema de informação sobre “o outro lado”. Sempre dependeram, mas até que se começasse a usar engenharia de dados, valia ter acesso a pessoas com bons contatos com o poder público. Agora, isso é muito pouco.

Um dos pontos iniciais de uma boa estratégia é se preparar para contar ao interlocutor quem é o grupo que pretende influir e negociar uma determinada política e, de modo objetivo, o que pretende nesse processo.

Como em qualquer conversa, para que essa possa fluir de maneira interessante, é preciso haver empatia, se colocar no papel do outro. As conversas fluirão naturalmente se for possível contar sua história e mostrar seu interesse identificando com interesses de seus interlocutores governamentais. Mas quem conhece os interesses dos interlocutores governamentais, para permitir essa preparação?

Por exemplo, as ONGs que trabalham na questão de ensino e estão preocupadas com a aprovação do Fundeb, principal mecanismo de financiamento da educação, deverão buscar interlocução do Congresso. Como o MEC se ausentou das discussões e o fundo precisa ser aprovado pelo Congresso Nacional, em ano de eleições municipais, a questão é como entrar no calendário parlamentar nessas circunstâncias. Um bom caminho pode ser mostrar para cada parlamentar quais as consequências da não aprovação do Fundeb para municípios onde estão suas bases eleitorais. Se o fundo não for aprovado o que aconteceria com seus municípios se começassem o ano de 2021 sem os recursos para salários dos professores? O desafio é obter esses dados e correlacionar os 513 deputados, 81 senadores e mais de 5 mil municípios, com os valores do fundo que tacariam a cada um. Trabalhar sobre as bases de dados públicas permitem essas correlações.

Outro ponto da estratégia de relações governamentais sensível a informações precisas é a avaliação da possibilidade de aprovar ou não um determinado projeto dentro do poder legislativo.

A viabilidade de aprovação de uma norma pode condicionar a decisão de atuar ou não para propô-la. Mas como saber de antemão? Até pouco tempo essa avaliação dependia, exclusivamente, da experiência e sensibilidade de profissionais com amplo trânsito junto ao poder público. Esses experts eram responsáveis pela palavra final dizendo se era possível ou não aprovar o tema e se ele estava quente ou frio nos debates políticos.

Hoje é possível utilizar métodos de big data e inteligência artificial para estimar as chances de aprovação de cada projeto de lei ou proposta em tramitação no Congresso. Empresas desenvolvem algoritmos que utilizam décadas de dados do Congresso, além de centenas de variáveis, incluindo o texto do projeto, autores, temas, emendas, tendências econômicas e mudanças de forças políticas para estimar a chance de um projeto se tornar lei com grande precisão.

Imagine por exemplo, que a sua organização tem interesse na discussão sobre o marco legal do saneamento básico. Será discutido, será aprovado, é hora de iniciar esse debate? Bem, o algoritmo desenvolvido pelo JOTA com base em big data e inteligência artificial, usando dados públicos do parlamento brasileiro, comercialmente oferecido com o nome comercial de Aprovômetro, atesta que há 97,2% de probabilidade de o marco legal ser aprovado em fevereiro pelo Senado Federal. Não há como titubear.

Outro exemplo da importância da ciência de dados nesse processo.

Mais de sete mil projetos de lei tramitam no Congresso Nacional e milhares de propostas estão em discussão nas 27 assembleias legislativas e nas mais de cinco mil câmaras de vereadores brasileiras. Além disso, todos os dias governantes e parlamentares tem ideias e propostas que são apresentadas para debate. Essa é a função desses representantes populares. Quais delas afetam as ações de uma determinada organização? Quais mudam o cenário de uma área empresarial?

Provavelmente esse é o maior problema de uma área de relações governamentais: como não ser surpreendido? Antes da revolução provocada pelo uso da ciência de dados nesse campo de atuação, a surpresa era inevitável. Muitas indústrias bem organizadas descobriram restrições a sua atuação, aumento de impostos, criação de taxas e outros problemas no jornal do dia seguinte.

A inovação criada não só pelo tratamento de dados como pela associação dessa ciência com o levantamento jornalístico reduziu muito essa incerteza. Jornalistas identificam os atores mais importantes e conseguem ouvir diferentes fontes para tirar conclusões sugeridas pelo tratamento adequado de informações históricas disponíveis.

Finalmente, outra área onde as novas tecnologias fazem uma diferença colossal é a escolha de prioridades onde organizações e empresas devam focar sua atenção. Milhares de temas públicos estão em debate e discussão por todo o País. Por onde começar, qual deve ser a atenção prioritária do time de relações governamentais? As dúvidas são enormes. Deve-se começar por se defender de alguma ameaça ou buscar uma oportunidade nova?

Tradicionalmente essas decisões são tomadas a partir de sondagens as lideranças dos governos e isso parecia bastar. Não é mais assim. Os inúmeros partidos e a volatilidade das lideranças não sugerem mais o uso desse esquema. Hoje é possível construir algoritmos para criar índices de criticidade a partir de variáveis como origem da proposta, quem a apresentou e seu histórico de aprovação, modo de tramitação, debates em comissões técnicas, interesse dos partidos políticos e lideranças governamentais, quanto falta para terminar a tramitação e finalmente quanto tempo está tramitando.

Um exemplo disso pode ser dado no campo das reformas tributária e fiscal. Formalmente existem duas propostas tramitando, PEC 45/2019 que está na comissão especial para análise de mérito e a PEC 110/19 está na CCJ do Senado à espera de votação do parecer do relator Roberto Rocha (PSDB-MA). Há uma comissão mista criada, mas não instalada para elaborar um “texto consensual” das duas Casas e o governo prometeu o envio de uma reforma fatiada para a Câmara.

Opiniões sobre como esse processo vai prosperar são muitas, mas o Aprovômetro do JOTA mostra que uma delas tem 51,6% de chances de ser aprovada enquanto a outra tem somente 5,6%. É bom ficar atento, pois já parece haver uma tendência do legislativo em relação a essa sensível matéria.

Os tempos são de mudança. A atividade de relações governamentais está sendo regulamentada pelo Congresso Nacional e prestes a ser votada na Câmara dos Deputados. Ao lado disso, porém, o modo de influenciar as políticas públicas está sendo profundamente revolucionado pelo uso de ciência de dados associado aos métodos tradicionais de trabalho. Será que os processos de regulamentação da atividade e de transformação do modo de atuação criarão um ambiente mais justo e equânime?


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