Coluna do Milton Seligman

Pandemia da Covid-19

Cultura cidadã

É importante ter compreensão das responsabilidades mútuas. Isso se faz com diálogo, respeito, informação e muitos dados

cultura cidadã
Em Bogotá, soldados da Brigada n° 13, entregaram mantimentos a lares de adultos mais velhos / Crédito: Ejército Nacional de Colombia

Frida, minha segunda neta, nasceu no dia primeiro de março de 2020 em Bogotá, Colômbia, onde vivem seus pais, há quase dois anos. Felizes, nos programamos para recebê-la, comemorar o seu nascimento e retornar 20 dias depois. Quatro meses se passaram e ainda estamos por aqui, sem perspectiva de retorno. A Colômbia permanece com suas fronteiras fechadas.

Está sendo uma experiência interessante e uma oportunidade de ver como nossos vizinhos estão se comportando em relação à pandemia do Covid-19.

O professor Vicente Falconi, brasileiro, referência em gestão, observou em recente entrevista à revista Veja, que o mau desempenho do Brasil na gestão da pandemia se explica, entre outros aspectos, pela ausência de objetivos claros. Falconi não disse na entrevista, mas está em seus livros que além de meta clara – e ambiciosa – uma gestão de sucesso precisa de gente boa e cultura vencedora.

A Colômbia tem os três fatores. Além disso, os dirigentes públicos se comunicam com toda a sociedade, que acompanha o avanço dos indicadores de controle e verificação.

Pois é, os resultados estão aí. A Colômbia é o quarto país com melhor desempenho da região, mesmo sendo mais pobre que o Brasil, tendo a segunda maior população da América do Sul, em torno de 50 milhões de habitantes, e uma renda per-capita 25% menor que a nossa. A quantidade de infectados pelo novo coronavírus, por milhão de habitantes, é 30% do número de brasileiros atingidos pela doença e o número de mortos por milhão de habitantes é somente 27% em relação as nossas perdas.

Enquanto aguardam a vacina para imunizar sua população os governantes da Colômbia se puseram de acordo para minimizar os danos da pandemia na saúde e retomar a economia com critérios, conhecidos como protocolos setoriais de biossegurança.

A meta – estar entre os países com melhor desempenho – e os indicadores são divulgados todo final de tarde pelo presidente Iván Duque e alguns convidados. Usam a televisão aberta para apresentar os índices de controle de saúde – número de casos, número de recuperados e número de mortes – e os índices de verificação, que correspondem ao número de leitos de UTI ocupados em cada região. Nunca falta um gesto de carinho e solidariedade com as famílias enlutadas e que choram os mais de 4 mil mortos colombianos pela Covid-19.

O programa costuma seguir com perguntas, respostas e apresentações de iniciativas para prevenção de saúde e ações para a retomada das várias áreas da economia. Estão sendo assinados protocolos de biossegurança com cada setor empresarial e a retomada econômica começa em ritmo lento, mas aparentemente sem idas e vindas.

Não é tarefa fácil. Os jornais colombianos mostram problemas. Segue a luta contra os grupos armados dissidentes das FARC e ligados ao narcotráfico; as exportações colombianas registraram o maior declínio histórico, contraíram mais de 50% no comparativo anual; a população segue descontente com a justiça dada aos que abandonaram a luta armada (justiça especial pela paz); vários militares estão envolvidos em abuso sexual de menores e os principais dirigentes das Forças Armadas tem que vir a público para comentar; casos de corrupção envolvem dirigentes públicos; maiores de 70 anos se revoltam com medidas de afastamento social; setores econômicos pressionam para acelerar a retomada das atividades, e por aí vai. Não é difícil encontrar editoriais dizendo que o confinamento geral obrigatório foi uma medida efetiva para desacelerar a propagação do vírus e adequar o sistema de saúde, mas não pode permanecer por tempo indefinido.

A liderança pública segue disciplinada em sua estratégia de enfrentamento à pandemia e de olho em seus indicadores de controle e verificação. As metas são claras e eles demonstram resiliência.

Gente boa faz diferença e os principais dirigentes políticos do país vizinho tem boa formação e experiência. Para ficar nos de maior visibilidade, o presidente da República é um jovem advogado, de 43 anos, com pós-graduação na Universidade Georgetown, nos EUA. Duque é um político eleito pela direita colombiana, escreveu livros, governou seu estado, teve mandato no Senado Federal e foi diretor do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Cláudia López, a prefeita de Bogotá, é uma mulher vibrante de 50 anos, cientista política, eleita pela esquerda ambientalista, com doutorado pela Universidade Columbia, nos EUA. Foi senadora, concorreu à vice-presidência e foi consultora das Nações Unidas.

Acredito, entretanto, que seja no aspecto da cultura que a Colômbia esteja vencendo este jogo.

Sempre me chama atenção o número de vezes que o presidente Iván Duque e a prefeita Claudia López usam a expressão cultura cidadã. Acreditei ser mais um desses clichês que os políticos utilizam em seus discursos. Mas não é isso. Trata-se de uma estratégia escolhida pelos colombianos de enfrentar a Covid-19, baseada em cultura e pedagogia. O programa televisivo e seus similares regionais, fazem parte dessa estratégia.

Pelas ruas de Bogotá, por exemplo, a prefeita Cláudia fez divulgar cartazes com o bordão “para voltar a nos encontrarmos, estamos aprendendo a nos cuidar” e segue o mantra de usar máscaras, lavar as mão com frequência, respeitar os horários e turnos de trabalho estabelecidos nos protocolos de biossegurança, manter distância física de outras pessoas e ficar em casa se tiver qualquer sintoma de doença.

Essa estratégia tem sustentação baseada em estudos e em relatório publicado pelo BID que mostram não ser possível alcançar a consciência e a participação da população em questões como combate à violência e enfrentamento de grandes aflições públicas somente com o poder de polícia e coerção do estado.

Para que a população compreenda as razões das limitações e aceite cooperar é necessário que supere o individualismo, o egoísmo e pense coletivamente. É importante ter compreensão das responsabilidades mútuas, coletivas, cidadãs. Isso se faz com diálogo, entendimento, respeito, informação e muitos dados.

O enfrentamento da rebelião dos cabelos brancos é um bom exemplo. Maiores de 70 anos conseguiram tutela judicial para ir para a rua livremente e o governo respondeu com diálogo, fatos e dados. A luta não é na Justiça, mas na política, junto à opinião pública. Aposto que o governo vai resolver o assunto com respeito e diálogo.

Meu exílio involuntário deverá durar mais alguns meses, até que o protocolo de biossegurança para os voos internacionais seja aprovado e o Brasil, incluído na lista dos colombianos.

Tenho saudades de casa e das pessoas queridas que aí estão, mas quando vejo as fotos dos bares na zona sul do Rio de Janeiro com uma multidão de pessoas, sem qualquer cuidado consigo e com os outros, sem qualquer cultura cidadã; quando vejo o governador do Distrito Federal titubear entre fechar tudo e liberar geral, demonstrando estar completamente perdido, entendo a importância de viver um outro exemplo e admirar um povo vizinho que tem muito a nos ensinar.

Não me sai da cabeça a música do Gilberto Gil sobre seu exílio londrino: ilha do norte onde não sei se por sorte ou por castigo dei de parar; por algum tempo que afinal passou depressa, como tudo tem de passar; hoje eu me sinto como se ter ido fosse necessário para voltar; tanto mais vivo de vida mais vivida, dividida pra lá e pra cá.

Assista ao novo episódio do podcast Sem Precedentes: