Coluna do Milton Seligman

Entrevista

Conversa com Miguel Patrício, CEO Global da Kraft-Heinz

Miguel é um cidadão do mundo, um empreendedor e homem de negócios . ‘Sejam ambiciosos e humildes’, diz ele

Miguel Patrício
Miguel Patrício, CEO da Kraft-Heinz / Divulgação/Kraft-Heinz

Convido-os a ouvir essa conversa com Miguel Patrício, um dos grandes dirigentes empresariais da atualidade. Ele é a personificação do líder que pensa grande e faz as coisas parecerem simples.

Miguel aos 54 anos é um cidadão do mundo, um empreendedor e homem de negócios bem-sucedido e nada disso é um clichê.

Nasceu em Portugal onde viveu até os 9 anos de idade quando a família se mudou para São Paulo. Aqui estudou, formou-se na FGV e iniciou sua vida profissional. Logo ganhou o mundo e, além de Brasil e Portugal, viveu nos Estados Unidos, Panamá, Canadá e China.

Trabalhou em grandes empresas, nas áreas de marketing da Philip Morris International, Coca-Cola Co. e Johnson & Johnson até chegar na Antarctica, no final dos anos 90. Aí começa o empreendedor.

Com a criação da Ambev, Miguel assumiu a diretoria de marketing, área que também liderou na Labatt Brewing Company, subsidiária da Ambev no Canadá. Depois disso, foi chamado para a Anheuser-Busch Inbev onde ocupou sucessivamente a presidência das unidades dos Estados Unidos e da Ásia-Pacífico. Depois de 4 anos vivendo em Shangai, na China, voltou para New York para assumir a direção global de marketing da empresa.

Em 2019, começou um novo e atual desafio como CEO Global da Kraft Heinz, uma empresa cujo valor de mercado supera os 36 bilhões de dólares e tem mais de 37 mil empregados em todo o mundo.

Com essa vivência, Miguel comenta a evolução das relações de mercado ao longo das últimas décadas e como essa evolução impactou diferentes geografias, culturas e organizações sociais, algumas delas vivendo em distintos regimes políticos.

O mundo vive hoje uma notável revolução nos modos de produzir e nos costumes por conta do impacto da tecnologia e da mudança brutal nos tempos de várias atividades.

Miguel viveu esse câmbio, liderando empresas que atendem consumidores e percebeu uma mudança, no início lenta, mas de um momento para outro rápida, desses mesmos consumidores para dentro das redes sociais. É como se fossem outros. A experiência ajudou, mas também desafiou. Manter e mudar, uma contradição permanente e também inescapável.

Começa a contar sua história a partir da entrada em uma tradicional empresa fabricante de cervejas no Brasil, mas que tinha enormes ambições. Ele e seu colega Juan Vergara, então diretor de marketing da Brahma, eram os únicos “marqueteiros” em uma companhia focada em aumentar a produtividade e a eficiência.

Lutavam para colocar a criatividade típica da comunicação comercial no jogo, mas não era fácil. Como ele mesmo diz, foi essa escolha que permitiu à Ambev participar ativamente do jogo de consolidação do mercado mundial de cervejas, tornando-se a líder global do segmento.

A luta por uma empresa com foco no consumidor nunca parou. O desafio não era ter uma ou outra visão, substituir o que vinha dando certo, mas ter ambas e com a mesma importância. Criatividade e eficiência não são fáceis de compatibilizar e esse tem sido o seu desafio permanente.

Miguel viveu, e nos conta, a rápida mudança no modo como o consumidor reage sobre os produtos que adquire. A disseminação da informação é muito mais rápida, tudo muda em um instante, assim como os desejos dos consumidores.

Companhias estão se adaptando à velocidade dos tempos que vivemos. Para manter as marcas vivas, algumas centenárias, as empresas terão que acompanhar as mudanças de seus consumidores. As pesquisas de opinião, os painéis de consumidores são feitos agora em tempo real, todos os dias. Tudo está muito mais integrado. As opiniões dos consumidores transformam-se em necessidade de mudanças e o tempo entre o desejo do mercado, os laboratórios de inovação e as prateleiras dos supermercados estreitaram-se enormemente.

Há muito pouco tempo, eram necessários dois anos de trabalho para levar um produto do laboratório de pesquisa até o ponto de venda. Hoje, diz Miguel, em 6 meses um produto sai da bancada de pesquisa e chega no consumidor, significando um aumento de produtividade gigantesco.

Tudo isso tem uma causa: a crescente digitalização de todos os processos, trazendo ganhos imensos de produtividade e aumentando a agilidade das empresas.

Um dos países onde estas mudanças são mais acentuadas e mais profundas é a China, uma das maiores potências do mundo, onde adquiriu uma experiência única, e conquistou resultados admiráveis.

Na China, Miguel Patrício se relacionou com o Governo e com o Partido Comunista Chinês (PCC). E surpreendam-se, Miguel nos conta que o PCC e a administração pública chinesa é pró-business! Sim, os dirigentes são escolhidos em processos em que a meritocracia conta, lá todas as autoridades públicas têm metas a serem cumpridas e, entre elas, atrair investimentos privados.

Relacionar-se com governos na China e nos Estados Unidos, na democracia ou em sociedades de partido único, é sempre possível desde que você, como ensina Miguel, tenha uma postura ética e uma cultura empresarial sólida e íntegra.

O mundo digital está mudando as companhias de cabeça para baixo; os limites da ética e da regulação passaram a ser parte de uma estratégia de não mercado, que hoje compõe a estratégia geral das grandes e também das pequenas companhias.

Miguel está envolvido em uma grande transformação na Kraft Heinz, quase uma revolução, diz ele. Essa revolução, segundo a Revista Forbes conquistou Warren Buffett, o maior acionista individual da empresa. No final da conversa, Miguel Patrício nos dá um conselho que, segundo ele, é o que tem observado nas lideranças empresariais mais inspiradoras. “Sejam ambiciosos e humildes”, diz ele. Só com ambição você cresce e se desenvolve, mas só com humildade você apreende.

Convido-os a ouvir essa conversa amigável que trata, com simplicidade, de temas que estão desafiando todas as lideranças do mundo contemporâneo.