Coluna do Milton Seligman

pandemia

A maior crise de nossas vidas

Precisamos urgente de um comitê de crise para tratar dela

Coronavírus
Crédito: Fotos Públicas

A crise do novo coronavírus chegou ao Brasil de maneira esperada, mas não fomos previdentes em nossa preparação. Excetuando alguns estados e municípios o País ficou torcendo pelo melhor e acreditando que o nosso clima e nossa parceria com o Divino nos livraria dessa.

Em janeiro desse ano a imprensa séria desse País já relatava o fato. Neste JOTA, artigo de João Pedro Paro dava conta que “página na Internet da Organização Mundial de Saúde (OMS) diz que em 31 de dezembro de 2019, a OMS foi alertada sobre vários casos de pneumonia na cidade de Wuhan, província de Hubei, na China. O vírus reportado não combinava com nenhum outro vírus conhecido. Isso causou preocupação porque, quando um vírus é novo, não sabemos como ele afeta as pessoas. Uma semana depois, em 7 de janeiro, as autoridades chinesas confirmaram que haviam identificado um novo vírus”.

Por outro lado, estudos sobre gestão de crise sustentam que não há como prever a chegada de um fenômeno negativo dessa grandeza. A resposta é sempre reativa, mas há que se estar preparado. Internamente preparado.

A prática e os estudos teóricos mostram que não há nada mais importante em uma crise do que o papel da liderança. Para liderar as respostas a uma crise, diz a teoria e a prática, é necessário possuir três características.

A primeira diz respeito a controlar a si mesmo, ter calma, saber refletir sobre as evidências e finalmente ser capaz de decidir com racionalidade.

A segunda refere-se à capacidade de comandar sua própria organização, fazendo-a atuar de modo disciplinado, aproveitando ao máximo suas potencialidades e respeitando um único comando.

A terceira diz respeito a capacidade de criar empatia que permita a construção de parcerias e alianças com terceiros – os stakeholders – de modo a criar sinergias e atuar de maneira muito mais efetiva e com mais eficácia.

São características difíceis de se construir e muito mais quando se está no epicentro da crise. Principalmente, quando esta é a crise mais dramática que o Brasil já enfrentou.

Não temos todas as respostas e ninguém as têm. Há desafios de todos os lados.

Começa com a saúde pública, onde nem sabemos exatamente as características das patologias transmitidas pelo Coranivírus-19. Não há certeza sobre o funcionamento do processo de imunização e nem como e quando a transmissão será interrompida. Os cientistas seguem pesquisando as vacinas e os remédios que podem responder a essas doenças. O mundo todo torce para que os resultados apareçam e se tornem disponíveis, mas para isso não há prazo.

Além disso, estamos metidos em um debate público, leigo e politizado, sobre o uso da estratégia de distanciamento social. A utilização da quarentena para diminuir a velocidade de disseminação do novo Coronavírus é necessária para adequar o número de doentes que necessitem hospitalização com a capacidade do sistema de saúde de cada localidade. Indiscutível que essa estratégia tem um custo econômico muito elevado. Além do mais, é necessário ter uma estratégia completa que implique em iniciar o período quarentena e sair dele, por grupos sociais, tão logo seja possível.

No campo social, também temos desafios pois 40 milhões de brasileiros são membros de famílias que não tem trabalho formal e com uma parada da economia e dos negócios ficarão sem renda do dia para a noite. Políticas econômicas compensatórias são absolutamente necessárias e instrumentos como o Cadastro Único Federal, o Programa Bolsa Família e outros instrumentos de renda mínima já começam a ser avaliados para responder a esse desafio.

As finanças públicas, assim como as das empresas privadas, sofrerão baques consideráveis que já estão sendo identificados e quantificados. Certamente teremos desafios gigantescos pela frente e teremos que começar a construir os entendimentos com o Congresso Nacional que nos permitam enfrenta-los assim que a crise for debelada.

Outro aspecto muito importante, mesmo em uma sociedade desigual como a nossa, é a grande solidariedade que se começa a observar nesse momento, tanto de pessoas físicas como empresas. Independente das dificuldades que também vivem, algumas mantém empregos, outras saem de suas áreas de atuação e aparecem para ajudar a enfrentar esse esforço de guerra. A liderança tem que estimular e coordenar essa corrente de solidariedade.

Como se não faltassem desafios, estamos vivendo uma crise política de proporções consideráveis. O desafio do Coronavírus-19 é grande demais para termos uma distração dessas. É hora de focar no essencial e o nosso maior problema agora é o vírus, a saúde da população e os efeitos sobre a renda das pessoas.

Acredito que a maneira mais eficiente para coordenar os esforços de enfrentamento do desafio do novo Corona vírus é a criação de um Comitê Nacional de Crise. Um comitê técnico, ligado à Presidência da República e que tenha interlocução com o Congresso Nacional, com estados, municípios e setor privado, para buscar coordenação das ações.

Já tivemos experiências bem-sucedidas com esse formato. O comitê que enfrentou a Crise do Apagão, no governo FHC, coordenado pelo então Ministro Pedro Parente deu uma resposta satisfatória e permitiu ao Brasil superar uma crise grande, mas ainda assim incomparavelmente menos complexa do que esta.

Por que não o Presidente da República e o comitê de crise por ele criado, do qual fazem parte todos os seus ministros?

Porque isso não é um comitê capaz de enfrentar a crise com foco. Cada um dos membros do ministério tem múltiplos problemas a tratar, não falam como um coletivo focado em um único problema, não tem autoridade para fazer alianças e parcerias específicas e nem são capazes de coordenar as ações de solidariedade que nascem da sociedade.

Não é essa reunião ministerial que pode cumprir o papel de um comitê nacional de crise, pois o Presidente da República não quer assumir, de fato esse papel. Disse isso de maneira bem clara ao demonstrar seu temor em relação as consequências da crise. É dele a frase “o povo tem que parar de deixar tudo nas costas do governo”.

Precisamos de um grupo de pessoas que lidere o esforço nacional. Poucas pessoas, que acreditem na ciência e na tecnologia, que busquem soluções técnicas, com base em fatos e dados e que saibam gerir equipes complexas onde não há comando hierárquico.

Mas talvez a resposta mais interessante para essa pergunta tenha sido dada, sem querer, por Max Lucado, um escritor e pastor evangélico norte-americano quando disse:

“Um homem que queira conduzir uma orquestra deve virar as costas para a multidão”