Coluna do Milton Seligman

Análise

À flor da pele: o assassinato do colombiano Javier Ordóñez

Em que parte da história as lideranças de mediação perderam o seu espaço?

Imagem: Pixabay

O colombiano Javier Ordóñez foi assassinado na noite de terça-feira, dia 8 de setembro, em Bogotá, vítima do excesso e da desproporção do uso da força por dois policiais. O episódio lembra muito o assassinato do norte-americano George Floyd em 25 de maio, em Minneapolis. A ação policial contra um cidadão gerou, tanto nos Estados Unidos como na Colômbia, reações semelhantes envolvendo conflitos entre manifestantes e policiais que causaram dezenas de mortes, centenas de feridos e generalizada depredação.

Aparentemente, as semelhanças param por aqui. Mas só aparentemente, no meu ponto de vista.

O caso de Floyd teve o poder de agendar, uma vez mais, o tema da discriminação racial, sempre presente nos Estados Unidos, e detonar a reação da comunidade afrodescendente sob o slogan de que vidas negras importam. Sem a mediação de lideranças ponderadas, como Martin Luther King, e uma agenda clara de direitos civis, os atuais conflitos norte-americanos buscam uma resposta, rápida e clara a uma situação indigna. Ninguém pede para fazer parte do sonho americano. Isso parece não interessar mais.

O caso da Colômbia tem outro significado, mas aqui também se notam raízes históricas e também a busca de justiça rápida e sem as intermediações tradicionais.

Javier Ordóñez tinha 44 anos, era morador do bairro de Santa Cecilia, região de Engativá, em Bogotá. É uma região de classe média, que se situa próxima ao aeroporto internacional El Dorado. Conhecidos relatavam ser um pai dedicado a seus dois filhos, de 15 e 11 anos, que moravam com ele desde a separação. Javier cursava os últimos anos de uma faculdade de direito, havia estudado aeronáutica e, para pagar os estudos e sustentar a família, dirigia um táxi. Tudo que se sabe sobre ele tem tom elogioso. Sua ex-cunhada refere-se a Javier como um sujeito boa praça, bom pai, trabalhador e estudioso.

Além do vídeo, que mostra os dois policiais submetendo-o no solo, a situação é bastante nebulosa. Há notícias que Javier saiu de casa para comprar alguma coisa quando foi abordado e submetido pela polícia. Os policiais o imobilizam e o submetem a inúmeras descargas de armas de choque elétrico. Após, o levaram a um posto de detenção policial e depois a um pronto socorro. Nesse percurso, ele morre.

A Colômbia é um país que convive com a violência desde os anos 40, com o assassinato do líder político Jorge Gaitán e o início de uma forte repressão anticomunista, apoiada pelos Estados Unidos, que levaria setores liberais e de esquerda a se reorganizar nas Forças Armadas Revolucionárias Colombiana, as FARC. A esse conflito segue, a partir dos anos 60, a disputa armada pelo poder entre liberais, conservadores e socialistas. Essa realidade persiste até a primeira década do século XXI, com as Forças Armadas, grupos paramilitares, traficantes e guerrilheiros de esquerda lutando entre si, com violência rural, atentados e sequestros nas grandes cidades.

Inúmeros processos de paz foram tentados, sem sucesso. Após os anos 90 a guerrilha começa a perder seu conteúdo político e passa a ser financiada e controlada por grupos do narcotráfico, enfraquecendo-se paulatinamente. O processo de pacificação ganha força e em 2016, sob a liderança do Presidente Juan Manuel Santos, o governo colombiano e a liderança das FARC concordaram em aceitar um cessar fogo, acordo que não inclui o grupo chamado Exército de Libertação Nacional, a ELN.

Os colombianos são muito divididos em relação ao processo de paz, e o atual Presidente Ivan Duque é expressão dos setores que não concordam com uma dinâmica que, afinal, redundou no desarmamento, na anistia aos guerrilheiros da FARC e na criação de uma justiça especial pela paz, a JEP. Independente da oposição de quase metade da população, em junho do mesmo ano, as FARC anunciaram que haviam encerrado a luta armada e deixariam de existir como organização paramilitar.

Toda essa longa, e ainda não concluída, história de conflitos armados, explica por que a polícia da Colômbia é militarizada, tem forte treinamento de combate e é vinculada ao Ministério da Defesa da Nação.

A instituição fez parte do conflito histórico e segue fazendo.

A polícia colombiana é, geralmente, identificada como violenta e costuma empregar uso desproporcional da força para resolver conflitos na sociedade. O treinamento para enfrentar inimigos torna a tropa inadequada para o desafio do policiamento preventivo e da cooperação com a polícia judiciária para o cumprimento da lei. Essa situação provoca protestos e é motivo de denúncias de ativistas em favor dos direitos humanos.

O que relaciona as mortes de Ordoñez e de Floyd, entretanto, não é somente o fato de serem nitidamente injustiças cometidas por forças do estado, formadas e pagas pela sociedade para lhe dar proteção, mas o fato de terem servido de gatilho para destravar uma ira social de enormes proporções. Qual a razão dessa cólera incontida?

O autor italiano Giuliano da Empoli, em sua obra “Os engenheiros do caos: Como as fake-news, as teorias da conspiração e os algoritmos estão sendo utilizados para disseminar ódio, medo e influenciar eleições”, nos dá algumas pistas.

Lembra ele que “… a raiva contemporânea não nasce somente de causas objetivas de natureza econômica e social. Nasce, também, do encontro de duas grandes tendências que vêm sendo observadas. No plano da oferta política, o enfraquecimento das organizações que canalizam tradicionalmente a revolta popular, os “bancos de cólera” de (Peter) Sloterdijk: a Igreja e os partidos de massa. E, no plano da demanda, a irrupção de novas mídias que parecem ter sido concebidas de propósito – e foram, de fato – para exacerbar as paixões mais extremadas …”

A falta de mediação de lideranças tradicionais, sejam elas políticas ou religiosas, é nítida em ambos os casos. Na Colômbia, por exemplo, as lideranças políticas não foram levadas em conta, mesmo que todas elas tenham reconhecido o exagero policial, prometido empenho para uma investigação profunda, repudiado o vandalismo e lamentado que as forças do estado tenham se envolvido em um conflito que deixou 11 mortos e mais de 100 pessoas feridas.

Em que parte da história as lideranças de mediação perderam o seu espaço?

Novamente recorro a Empoli. “Fomos nos habituando a ter nossas demandas e nossos desejos imediatamente satisfeitos. Qualquer que seja a exigência, “There’s an app for that” – “Há um aplicativo para isso” – prometia o slogan da Apple. Uma forma de impaciência legítima tomou conta de todo mundo: não estamos mais dispostos a esperar. Google, Amazon e os deliveries de comida nos habituaram a ver nossos desejos atendidos antes mesmo de terem sido totalmente formulados. Por que a política deveria ser diferente? Como é possível continuar tolerando os rituais demorados e ineficazes de uma máquina governada por dinossauros impermeáveis a toda e qualquer solicitação?”

Como avançar na construção da civilização se um dos principais instrumentos, a política, está desacreditada e precisa ser renovada? O filósofo Sloterdijk lembra que, no lugar de válvula de escape para desejos não realizados, a ira passa a ter valor histórico, sobretudo na construção de um equilíbrio político. Daí, sugere ele “… é preciso exercitar este equilíbrio sem se esquivar das lutas necessárias e, ao mesmo tempo, não provocar nenhuma luta supérflua.”

Há uma mudança profunda na forma como as sociedades se organizam, se manifestam e se relacionam com os poderes do estado. A pergunta difícil de responder é que características devem ter os dirigentes públicos nesses novos tempos. Deverão buscar formas novas de ponderação ou deverão atiçar os ânimos? Dá para ser otimista?


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