Coluna do Fábio Zambeli

Análise

Silêncio das ruas testa velocidade da agenda de Bolsonaro

Indisposição da maioria dos brasileiros em protestar contra o governo não autoriza prognóstico de calmaria até 2022

Bolsonaro
O Presidente da República Jair Bolsonaro em visita ao estado do Tocantins / Crédito: Isac Nóbrega/PR

Qual o risco concreto de que eventuais manifestações de rua impactem a agenda liberal em curso na economia brasileira?

A resposta a essa pergunta, que inquieta investidores internacionais sugestionados pela onda de protestos que tomou conta da América Latina no final de 2019, requer uma visita às premissas que levariam a população brasileira a se rebelar em praça pública.

Pesquisa inédita do JOTA, realizada em dezembro, capturou o pulso do eleitor quanto à possibilidade da eclosão de eventos como os registrados no Chile, por exemplo. São duas as notícias extraídas do levantamento: uma boa e outra ruim para Jair Bolsonaro.

A positiva é a que chama mais a atenção: 71% dos entrevistados não se dizem dispostos a sair às ruas para protestar contra o governo. A negativa é que os 25,8% que expressam alguma propensão a aderir a manifestações seriam suficientes para um razoável estrago na popularidade do presidente. Isso porque, no mesmo levantamento, pouco mais de 11% dos ouvidos afirmam que participaram dos atos de 2013 e pró-impeachment, em 2015-16. Em suma, ondas de tensão social podem produzir danos à governabilidade mesmo sem engajamento de maiorias.

O contexto de expectativa de melhora na qualidade de vida, recuperação dos empregos e da capacidade de compra dos salários, explorado à exaustão na virada do ano a reboque das projeções otimistas de crescimento econômico, joga a favor da estabilidade institucional.

A avaliação é compartilhada até por expoentes da oposição, como Lula, um dos interessados diretos no enfraquecimento do capital político de Bolsonaro. Foi dele que partiu o comando que desestimula, por ora, entidades sindicais e movimentos sociais a convocarem manifestações.

O diagnóstico que os atores da cena política fazem é quase consensual. A vitória eleitoral de Bolsonaro foi produto de uma sequência estridente de eventos horizontais deflagrados em junho de 2013, que atravessaram a dinâmica anti-establishment da Lava-Jato e desaguaram no Fora Dilma. Há, na visão desses mesmos operadores, uma tendência natural de trégua pelo menos no primeira fase da nova gestão.

O governo, contudo, monitora três vetores que poderiam mexer na equação que mantém o brasileiro na poltrona, espectador de uma narrativa que promete dias melhores no horizonte:

  • A inflação de alimentos;
  • Os reajustes das passagens do transporte coletivo (ônibus, trens e metrôs), que, embora de atribuição de estados e municípios, ajudam a formar o caldo de descontentamento popular;
  • O preço dos combustíveis e o imbróglio dos fretes, com alto potencial para acionar a faísca dos caminhoneiros, categoria que se mostrou capaz de paralisar o Brasil.

São temas tratados como absoluta prioridade por auxiliares de Bolsonaro. Em dois deles, há espaço para medidas profiláticas no âmbito dos ministérios: uma delas já foi colocada em prática esta semana: a reposição do INPC no salário mínimo. A outra é a manutenção de uma linha-direta dos líderes dos caminhoneiros com a equipe do presidente na qual a ordem é ouvir, antever e debelar crises.

Em novembro passado, o governo anunciou, de forma enviesada, que tende a endurecer na reação a eventuais protestos que migrem para o vandalismo. Bolsonaro e assessores falaram em medidas de exceção para garantia da ordem, mas procuraram colocar o selo da “esquerda” em quaisquer mobilizações que pudessem ganhar tônus.

A estratégia do Planalto parece fazer sentido. Outra pesquisa exclusiva do JOTA mostra que 58% dos brasileiros são contra repressão policial a manifestações, em tese. Mas o número se inverte quando a pergunta aborda atos seguidos de vandalismo –75% dos entrevistados apoiam repressão policial a atos em que houver depredação e violência.

O que preocupa, de fato, o núcleo-duro bolsonarista é o timing do reconhecimento público acerca das realizações da gestão federal.

O ritmo das reformas tende a ficar mais lento em ano eleitoral e, mesmo que aprovadas e implementadas, essas mudanças teriam pouco efeito no curto prazo sobre a sensação de bem-estar do cidadão comum — nos casos da tributária e da administrativa, ao contrário, as notícias não serão alvissareiras para contribuintes e importantes agentes econômicos.

Premida pelo calendário, a equipe de Paulo Guedes voltou de férias com a corda toda. De repente, fevereiro passou a ser a data mágica para o endereçamento da pauta reformista e do fast-track das privatizações. Ou seja, no mês do Carnaval, tudo pode acontecer. E, se nada der certo, é sempre uma hipótese plausível terceirizar a responsabilidade e jogar o eleitor contra o Congresso Nacional. 

A ausência de indícios, até aqui, de que a massa crítica incendeie as ruas bradando a deposição do presidente não autoriza, portanto, previsões perenes de calmaria. O período de degustação do bolsonarismo está prestes a expirar e as faturas entrarão no débito automático rapidamente se a expectativa não se converter em realidade. O QG palaciano sabe que essa conta não pode ficar no vermelho. Até a quarta-feira de cinzas, o brasileiro costuma aguardar com alguma resignação. 


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