Coluna do Fábio Zambeli

Análise

Crítica de Maia a Guedes é mais um capítulo na disputa por protagonismo sobre agenda econômica

Desde a aprovação da reforma da Previdência, em 2019, a interlocução está abalada

Ministro da Economia Paulo Guedes concede entrevista. Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado
Uma versão deste conteúdo foi distribuída antes, com exclusividade, aos nossos assinantes JOTA PRO

Ao criticar enfaticamente o Ministério da Economia após cerimônia repleta de elogios à nova articulação política do governo, Rodrigo Maia quis expor total alinhamento à ala militar do Planalto e enfraquecer a conexão de Paulo Guedes com o Congresso. O presidente da Câmara manifesta, assim, a disposição de colaborar para o desgaste político do ministro, que vem se acentuando nas últimas semanas.

O histórico da relação de Maia com Guedes é de permanente embate, tendo como pano de fundo o endereçamento da pauta econômica no Legislativo. Desde a aprovação da reforma da Previdência, em 2019, a interlocução está abalada pelas declarações sempre beligerantes do ministro em relação aos congressistas.

A tensão se aprofundou com a reforma tributária, projeto prioritário para Maia este ano, que ficou travada por causa do atraso do envio das propostas do governo. Piorou com a campanha “Xô, CPMF”, idealizada pelo presidente da Câmara para barrar a principal aposta de Guedes para o financiamento dos novos programas sociais do governo e a desoneração da folha.

A interlocução ganhou contornos dramáticos quando Guedes se aproximou dos próceres do “centrão” na tentativa de isolar Maia na articulação do Renda Brasil. O ‘namoro’ do ministro da Economia com Artur Lira, principal concorrente do grupo de Maia à Mesa da Câmara, azedou de vez o vínculo entre os dois.

Nas últimas semanas, além da alegada “proibição” do contato com membros da equipe econômica para tratar da agenda legislativa da pasta, o protagonismo de Maia na manutenção do veto ao reajuste salarial do servidor incomodou o ministro.

Na visão de auxiliares de Guedes, foi o presidente da Câmara quem “envenenou” Jair Bolsonaro na fatídica quarta-feira, 26 de agosto, dia em que o presidente deu a sua mais dura declaração contra ele, desautorizando-o a prosseguir acabar com o Abono Salarial e a Farmácia Popular para viabilizar o Renda Brasil. Horas antes do discurso do presidente criticando a solução de Guedes em visita a Ipatinga (MG), Bolsonaro havia tomado café com Maia e ouvido queixas sobre os acordos com o Congresso que não estariam sendo cumpridos na velocidade desejada com a Economia.

Nesta quarta-feira, Guedes voltou a alfinetar Maia durante sua exposição em comissão no Senado. Na ocasião, o ministro alegou que a demora no envio das propostas tributárias de interesse do governo se deu porque o presidente da Câmara publicamente interditou um dos seus pilares – o tributo sobre transações eletrônicas.

As consequências desse embate são expressivas, mas têm caráter mais simbólico. Quando Maia se alinha prioritariamente ao ministro Ramos, ele tenta demonstrar aos parlamentares que é essa a relação a ser cultivada para ganhos políticos – seja por meio de emendas, cargos ou outras benesses.

Dificilmente o presidente da Câmara se converterá num defensor da tese dos “fura-teto”, o que seria uma preocupação a ser monitorada não fosse o compromisso fiscal que tem marcado sua atuação à frente da pauta legislativa.

Tampouco haverá obstáculos criados por Maia à tramitação das reformas já entregues e novas iniciativas que tenham impacto fiscal.

O que fica mais improvável é o sucesso da agenda da nova CPMF, vista como fundamental para Guedes. Mesmo que seja construída alguma ponte de pacificação entre eles, o presidente da Câmara já entendeu que tem uma bandeira política a empunhar, cacifando-se para voos políticos futuros: a defesa do bolso do contribuinte.

Já a tática da ‘fritura’ de Guedes depende de Bolsonaro e da própria energia do ministro. Ele não mostra nenhuma inclinação a sair do cargo e tampouco o presidente tem emitido sinais de que possa demiti-lo. Maia sabe disso e, diante do quadro, prefere lidar com um “Posto Ipiranga” com menos combustível.


Cadastre-se e leia 10 matérias/mês de graça e receba conteúdo especializado

Cadastro Gratuito