Coluna do Fábio Zambeli

Jair Bolsonaro

‘Fadiga de consentimento’ político dá folga a Bolsonaro

Sem pressão, presidente cede ao populismo digital e tende a deixar pauta reformista em segundo plano

ANPR
Presidente da República Jair Bolsonaro / Crédito: Alan Santos/PR
Esta coluna foi alterada às 17h56 de 10 de fevereiro de 2020 para correção do gráfico. A pesquisa foi realizada entre 28 e 31 de janeiro de  2020, não em 2019

Fadiga de consentimento é uma expressão técnica usada na seara da proteção de dados pessoais que tipifica a conduta de quem passa a concordar com quaisquer pedidos de autorização, sobretudo no meio digital, ficando desprotegido(a) e desatento(a) ao risco de clicar “sim” aos avisos de fornecedores para baixar aplicativos, acessar programas, liberar conteúdos e ingressar em redes sociais. 

Trata-se de um termo aplicável ao estágio atual da cena política brasileira, depois da estridência de movimentos disruptivos, como os protestos de rua de 2013, o impeachment e a Operação Lava-Jato. 

Depois da tempestade, o eleitor emite sinais de que está conformado com a marcha do governo de Jair Bolsonaro e admite invulgar resignação com uma trajetória lenta de recuperação da economia. 

Pesquisa exclusiva JOTA divulgada esta semana indica que 59% dos eleitores acreditam que a economia “ainda vai demorar muito para se recuperar”. É um percentual expressivo, sobretudo num país com 11 milhões de desempregados e poder de compra dos salários em curva descendente. E mais: outros 16,2% acham que vai melhorar só em 2021. Apenas 15,6% esperam melhora na economia este ano. Ou seja: o presidente tem uma margem de segurança substantiva para operar politicamente rumo à sucessão, em 2022.

A simples expectativa de que dias melhores virão é capaz de sustentar a viabilidade do projeto de reeleição de Bolsonaro, sobretudo por causa da base de comparação tangível a parcela expressiva da população que culpa Dilma Rousseff pela recessão e pelos entraves na retomada. Esse dado também consta na nova rodada de pesquisas JOTA: os entrevistados que atribuem conceito “ruim” à atual política econômica responsabilizam, pela ordem, Dilma (16,8%), Michel Temer (16%) e só depois Bolsonaro (15,5%). 

São notícias alvissareiras para os bolsonaristas, pois reduzem a pressão por resultados imediatos e liberam o presidente para mergulhar numa agenda mais populista e menos virtuosa, para desespero de quem esperava o triunfo da narrativa liberal.

Medidas como a inusitada declaração de guerra aos governadores para transferir responsabilidades sobre eventuais reajustes no preço dos combustíveis denotam de que lado está Bolsonaro.

Entre uma bravata que aumente sua popularidade e jogue os entes no buraco fiscal e uma articulação federativa transparente e efetiva, não resta dúvida de que a opção presidencial será a primeira, que lhe renderá mais dividendos eleitorais. 

O cálculo político, lembremos, legitimado pelas urnas em 2018, conspira contra o desejado processo reformista das bases econômicas, tão premente para a retomada consistente do crescimento.

A despeito dos esforços do ministro Paulo Guedes, cujos conceitos, goste-se ou não, têm lastro acadêmico e técnico, o risco que se corre a partir deste ano é de que agenda econômica fique esquálida, muito dependente da capacidade de organização do Congresso Nacional e pouco convincente para investidores. Sobretudo num cenário em que os mercados miram vulnerabilidades externas com potencial inegável de dano.

À exceção das já endereçadas reformas do “Mais Brasil”, em tramitação no Senado, há pouca clareza sobre o empenho que o governo fará nas duas consideradas mais espinhosas: a tributária e a administrativa.

Não será, contudo, um desastre político para Bolsonaro se nenhum item da chamada ‘pauta reformista’ prosperar em 2020. Na visão de quem está na bolha ideológica do presidente, a única reforma inexorável era a da Previdência, vencida em velocidade e potência recordes, logo no primeiro ano de mandato.

A precoce aprovação da mudança do sistema de aposentadorias deixou o chefe do Executivo na zona de conforto para pautar projetos e medidas na área de costumes e comportamentos, essencial para manter coesa sua base eleitoral (hoje muito sólida, com pouco mais de um terço de apoiadores).

Episódios que causariam histeria midiática em qualquer momento da vida política do país passam incólumes ao grande público, como o vácuo sem precedentes na interlocução federal com Estados e municípios. 

Bolsonaro e estados

Bolsonaro é um presidente que, um ano depois de assumir, perdeu amparo institucional nas unidades da Federação mais ricas e populosas. Basta mencionar a simbólica e mais recente visita a São Paulo, maior cidade brasileira, na última segunda-feira, boicotada solenemente pelo governador João Doria e pelo prefeito Bruno Covas, ambos do PSDB. Nem no instante mais agudo de embate entre petistas e tucanos, houve tamanho desdém com o protocolo no trato entre autoridades eleitas.

Também o componente partidário estimula a apatia generalizada com a classe política. Nesse quesito, Bolsonaro é craque. Rompeu com o PSL e deu início à formação de uma legenda para chamar de sua. Sem pressa, todavia, para livrá-lo do embaraço das eleições municipais. Engrossando o coro dos “sem partido”, ficou livre para seguir à margem do establishment político. 

Dada a exuberante incapacidade do centro e da esquerda de apresentar bandeiras que retirem o eleitorado da indiferença, o bolsonarismo tem tudo para terminar o ano do primeiro teste de urnas do atual mandato surfando no populismo digital, sem ser acossado por rivais à altura.

Principal antagonista de Bolsonaro, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem feito análises pragmáticas sobre a percepção popular do governo. Em conversas com aliados, é do próprio expoente do PT o diagnóstico segundo o qual a chave mental daqueles que conferiram 57,7 milhões de votos ao presidente não mudará enquanto houver alguma esperança no horizonte, sentimento que pode persistir até as vésperas do processo sucessório, em 2022.


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