Agenda da Privacidade e da Proteção de Dados

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O big data somos nós: a humanidade de nossos dados

O que são dados, afinal?

Vivemos na era do big data. Essa é a constatação de quem vive rodeado pelas novas tecnologias. Jovens empreendedores são estimulados a “explorar as oportunidades do big data”. Pesquisadores das mais diversas áreas constroem bases de dados das quais tiram as mais diversas conclusões. Algo frequentemente desconsiderado é que os dados que compõem o big data são, com frequência, dados sobre pessoas. Rebecca Lemov é um ponto fora dessa curva. Num mundo cada vez mais datificado, ela destoa: “big data is people!”. É a partir das ideias de Lemov que pretendo destacar a humanidade de nossos dados.

Definições de big data são quase sempre circulares. O big data seria algo grande… e formado por dados. Permanecemos no mesmo lugar. O que são dados, afinal?

Dados são como os tijolos da informação. Para que nós possamos entendê-los, eles precisam se relacionar — uns com os outros, ou com o contexto em que se inserem. É o aspecto relacional — e não o tamanho — que caracteriza o big data. Se é assim, dados não falam por si só: somos nós quem damos sentido a eles. Julia Powles diz que os dados são “the digital stuff of life”. William Gibson, em Burning Chrome, os caracteriza “faint images of me”. É esse o sentido que frequentemente nos escapa.

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As relações entre nossos dados e nossa própria identidade ainda é uma questão em aberto. Há no Facebook, por exemplo, 56 opções de descritores de gênero — para além da binaridade “masculino” e “feminino”. Suas pesquisas no Google são convertidas em dados que serão relacionados a uma infinidade de outros dados. Os aplicativos de mobilidade — como o Waze ou o Uber — sabem de onde você vem e para onde vai. O LinkedIn sabe as suas preferências de trabalho. O Tinder sabe quem te atrai e quem é atraído por você. E não para por aí.

Dizer que o big data somos nós tem dois sentidos: o primeiro, ele é constituído por nossas ações — nossos likes, nossos clicks, nosso comportamento; o segundo, ele influencia a maneira como construímos nossa identidade — e se torna mais relevante conforme as fronteiras entre o real e o virtual vão se tornando mais tênues — e deixando de existir. A ideia de autodeterminação informativa, princípio basilar em matéria de proteção de dados, é justamente empoderar as pessoas em relação aos seus próprios dados. É intuitivo imaginar um conjunto de dados como algo objetivo, frio, sem qualquer humanidade. O big data não é nada disso. Se as pessoas tivessem consciência de que os dados coletados são constituídos pelo que elas são, talvez não abrissem mão deles tão facilmente.

Levando isso em conta, leis internacionais de proteção de dados colocam a especificação da finalidade e a limitação do uso dos dados por terceiros como princípios básicos – tanto esses  quanto o princípio da autodeterminação também aparecem no Projeto de Lei para a Proteção de Dados Pessoais (PL 5276/16), que está tramitando no Congresso. A ideia por trás desses princípios é de que o uso de informações pessoais deve servir à finalidade comunicada na coleta, nos limites do consentimento do indivíduo,

Contrariando essas orientações, empresas de tecnologia coletam nossos dados muitas vezes sem autorização. Estados vigilantes fazem a mesma coisa. Ao menos parte das razões para isso, acredito, está na crença de que essas tecnologias mudaram tudo e consequentemente, nossos problemas de agora não se parecem em nada com problemas do passado — posição exagerada e descabida.

Rebecca Lemov, olhando para a história, tem um exemplo esclarecedor. Nas primeiras exibições dos filmes dos irmãos Lumière, muitas pessoas ficavam em pânico nos cinemas com a impressão de que o trem na tela do cinema atravessaria a tela. Esse tipo de ilusão de ótica era algo inovador na época. Feito em 1895, o filme de 50 segundos captava uma cena trivial: um trem chegando numa plataforma. A posição da câmera na plataforma dava a sensação de que o trem atingiria a plateia em cheio. A audiência confundia a sensação de perigo da situação com a sensação de se assistir a um filme sobre uma situação perigosa. Hoje, olhamos para essa situação com certo riso no rosto, impressionados com a ingenuidade dessas pessoas.

Daqui a algumas décadas, talvez as pessoas nos olhem também impressionadas com nossa ingenuidade, encantados pela tecnologia, sem perceber a verdadeira natureza do big data. Esse é um caminho possível. O outro caminho é uma mudança no paradigma da maneira como nos relacionamos com nossos dados, nossa intimidade e nossa própria identidade.

Se queremos entender as transformações que a tecnologia tem causado, precisamos entender o que permaneceu — a privacidade não é uma ideia pronta, mas sim recheada de mudanças e permanências. O big data é mais que um emaranhado de dados, pois é essencialmente relacional. Isso não é novo — para a tristeza daqueles que acreditam que a internet mudou todas as coisas. O que a internet fez foi dar uma nova dimensão a esse fenômeno, transformando-o. Para bem entender essas transformações, precisamos compreender que o big data somos nós.


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