Livros

Livro

Bonança e tempestade na vida de Eduardo Cunha

Saga inglória de uma ex-eminência de Brasília é bem reconstituída em biografia recém-lançada

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Dizem que depois da tempestade vem a bonança. Não é sempre, como comprova a biografia de uma figura-chave no Brasil dos anos 2010. A julgar pelos rumos do ex-deputado federal Eduardo Cunha, a tempestade pode cair de surpresa – até após longa bonança no comando da Câmara de Deputados.

Não há como falar de “Deus tenha misericórdia dessa nação”, dos jornalistas Aloy Jupiara e Chico Otavio, sem citar a discrição de seu lançamento, no fim de 2019. A editora Record manteve sigiloso o nome do biografado até as livrarias receberem exemplares. Processada por ele pelo livro “Diário da cadeia”, assinado por Eduardo Cunha (pseudônimo), a editora só revelou seu título na véspera de lançá-lo. Essa opção afetou a repercussão, apesar do apelo do protagonista e do renome dos autores, veteranos repórteres de política.

O título remete a uma frase do protagonista num momento de clímax. Quem assistiu à votação do impeachment de Dilma Rousseff, num domingo de abril de 2016, ouviu Cunha votar a favor usando os termos na capa de sua biografia.

Das fraudes nos campos de pelada às transnacionais

O economista ex-aluno do Colégio Marista teve seu primeiro contato com a bonança na política três décadas atrás, depois de deixar negócios de comércio exterior. Trocou a venda de alimentos e outros itens para o Zaire – foi diretor da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Zaire – pelos bastidores da campanha presidencial de Fernando Collor no Estado do Rio. Os dons de lobista impulsionaram sua ascensão na equipe de campanha e lhe renderam o cargo de presidente da Telerj, com a chancela de deputados federais da base do governo. Jupiara e Chico Otavio atribuem a esse período, entre 1991 e 1993, o primeiro “Fora, Cunha”, vocalizado por funcionários da telefônica indignados com transações que desfalcaram a empresa. Cunha já tinha sido pivô de um escândalo num torneio infantil de pelada por ter escalado “gatos” (jogadores acima da idade) no time do qual era “cartola”.

Depois da queda da Telerj, no governo Itamar Franco, estreitou laços com políticos com eleitorado evangélico mais capilarizado. Se na campanha do PRN ele tinha feito do pastor Sá Freire o primeiro aliado religioso, nos anos seguintes ele teve apoios decisivos do deputado federal Francisco Silva, dono da evangélica Rádio Melodia, e do governador Anthony Garotinho, que fez dele presidente da Companhia Estadual de Habitação (Cehab), da qual foi afastado após denúncias de irregularidades.

Sua saída não afetou a relação com Garotinho, que atuou para o então suplente de deputado estadual assumir uma vaga na Alerj e usar o cargo para se blindar de investigações do MP-RJ. Em 2002, teve o apoio do então candidato do PSB à Presidência na sua primeira campanha para deputado federal. Foi eleito e logo trocou o PP pelo PMDB, onde foi subindo na burocracia do partido e seus negócios paralelos. Foi aliado de Michel Temer na disputa pelo comando partidário contra Nelson Jobim, que largou o páreo atacando o fisiologismo reinante.

Cunha se beneficiaria dessa preferência e da sua ascensão no PMDB para avançar no projeto de se tornar um líder inconteste na Câmara e controlar cargos na estrutura governamental”, relatam os biógrafos. É desconcertante o poderio acumulado com tanta rapidez. Os esquemas na Petrobras lhe deram muitos dividendos e ainda a primeira condenação na Lava Jato: 15 anos e 4 meses de prisão por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. A sentença se devia à propina na compra de um poço em Benin, perfurado em vão, gerando prejuízo de US$ 77,5 milhões à empresa.

Vigília no hospital e exemplo paterno no crime

A luta por nacos de poder e orçamentos só cresceu e a dupla de autores apurou e reuniu informações com a destreza com que Cunha operou nas sombras do Legislativo para ganhar espaços em estatais e ministérios e para fazer negócios com empresários – intuito menos esmiuçado que aquele. Poucas cenas exprimem a personalidade única de Cunha e seu tráfico de influência como a ida ao hospital onde o presidente de Furnas, Luiz Paulo Conde, sofria cirurgia de emergência para tratar câncer de próstata, em 2007. Além da saúde do aliado, estava em jogo a ascendência sobre a estatal, obtida “após um rosário de ameaças” ao governo Lula. O futuro desse tumor poderia selar o seu na estatal.

As jogadas a favor do impeachment e contra o processo no Comitê de Ética para cassá-lo também ilustram bem a capacidade política a serviço do crime e da promoção pessoal. Não se esqueça que era um nome com apoio das elites políticas e econômicas que poderia ter ido mais longe não fosse a cooperação entre autoridades do Brasil e da Suíça e o bom trabalho das instituições de persecução.

Os esquemas e como foram investigados são narrados com riqueza de detalhes, mas a prosa empaca na fluidez em certos relatos de processos. Ao longo da leitura, tem-se uma reconstituição digna de nota sobre uma vida digna de sanções. Personagens da vida pessoal como suas esposas e o pai – seu exemplo caseiro de fora-da-lei – e da vida política, como aliados já citados, merecem a atenção dos leitores, que podem se surpreender com relatos sobre alguns. Não cabe antecipar outras revelações.

Após terem lançado luz a relações espúrias entre agentes da repressão e chefes do crime organizado em “Os porões da contravenção”, os autores avançam pelo mundo do crime, mostrando que também o parlamento tem seus porões nutridos por um amálgama de interesses obscuros não só de políticos. Se a confiança popular em políticos está na lona graças a nomes como Eduardo Cunha, sua história demonstra, contudo, que líderes religiosos, empresariais e outros também estão de mãos dadas a políticos profissionais na cena que lhes deu tal reputação. E não adianta rogar à misericórdia divina.


Cadastre-se e leia 10 matérias/mês de graça e receba conteúdo especializado

Cadastro Gratuito