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Pandemia

Crise não deve ser vista como uma dualidade entre vida e economia, dizem professores

Fernando Schuler e Carlos Melo falaram em webinar JOTA/Insper sobre ‘Ética e escolhas sociais em meio à pandemia’

Crédito: Paulo Desana/Dabakuri/Amazônia Real

No início do mês, o presidente da República Jair Bolsonaro foi ao Supremo Tribunal Federal (STF) acompanhado de um séquito de empresários para discursar, ao lado do presidente do STF, Dias Toffoli, sobre a necessidade da reabertura do comércio, restringido para o enfrentamento da pandemia da Covid-19. “Haverá mortes de CNPJ”, chegou a dizer um dos empresários.

Para o professor Carlos Melo, a dualidade quase maniqueísta entre a economia e a vida faz com que o país, agora considerado o novo epicentro da doença, não consiga ter êxito nem em reduzir os danos da pandemia nem em amenizar os problemas econômicos futuros. 

Para ele, depois de quase vinte mil mortes, a pandemia passa a ter nomes e não apenas números. “Quando começa a ser um vizinho ou parente seu, o horror começa a se estabelecer”, afirma. 

O óbvio, que alguns não querem enxergar, é que não haverá economia se não houver vida. “Se todo mundo coopera, fazemos isolamento radical, baixamos a curva de contágio e não pressionamos o sistema de saúde”, defende. Melo explica que quanto mais radical isso for, mais rápido será o retorno para vida normal e menos a economia será afetada.

Segundo ele, a ideia  de que vícios privados necessariamente levam a benefícios públicos é falha. “Porque, mesmo em um ambiente de mercado, é necessário ter coordenação. E o papel das instituições é justamente esse”, completa.

Além disso, defende que o critério não pode ser o achismo nesse momento. “O negacionismo chegou na crise e é a negação da ciência. E só as duas explicações para isso: a ignorância ou o autointeresse”, reitera.

O professor e mestre em ciências políticas Fernando Schuler também defende que é pouco plausível o tradeoff entre a economia e saúde, por isso há tanto incômodo social no nosso debate público. O professor afirma que, em tese, as normas sociais tenderiam a funcionar mais em pequenas comunidades do que em grandes sociedades abertas, como o Brasil.

Os professores participaram, nesta terça-feira (19/5), do webinar promovido pelo JOTA em parceria com o Centro de Gestão e Políticas Públicas do Insper. O tema do debate foi “Ética e escolhas sociais em meio à pandemia”.

“Há enorme tentação de que se deseje que normas sejam cumpridas por todos ‘menos por mim’. Desejo no país um padrão ético, mas me excepciono. Nós brasileiros somos convidados a pensar como uma grande comunidade e estamos fracassando”, afirma. Schuler entende que todos consideram que os custos da crise devem ser divididos, mas ninguém quer cobrir esse ônus. 

Por fim, Schuler diz que um dos maiores avanços possíveis pode ser justamente o da mediação do debate público: como compartilhamos custos em meio a uma pandemia como essa, na qual o contrato político (de oferecer seguridade social) exige um pouco mais das regras do jogo.