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Os 80 anos de Márcio Thomaz Bastos

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Capítulo 1

Os planos

Aos 79 anos, o advogado e ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos seguia cheio de planos. Entre eles, fazer uma festança aos 80, publicar uma biografia, multiplicar dinheiro investindo em startups e em incorporações imobiliárias e, é claro, amenizar o curso da operação Lava Jato tanto quanto possível. “Eu achava que ele viveria mais uns dez anos. Acho que ele também”, diz a empresária Marcela Bastos, filha única de MTB. A comemoração de 80 anos seria hoje, oito meses depois de seu falecimento.

A morte de Bastos foi precipitada por uma viagem de trabalho. Acometido por um câncer em 2007, submeteu-se a uma cirurgia que lhe extirpou metade do pulmão esquerdo e a algumas sessões de quimioterapia. Ficou curado. Não era de repetir histórias, mas contava frequentemente, com orgulho, os detalhes de como havia derrotado aquele câncer e as lições que tirara disso.

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Cartão de agradecimento aos que telefonavam ou escreviam para desejar melhoras durante a quimioterapia

No começo de 2014, surgiram complicações. Entre elas, uma fibrose pulmonar que, pouco a pouco, foi prejudicando suas funções respiratórias. No fim do primeiro semestre, começou a tossir com frequência e a se sentir mais cansado. Para evitar algumas caminhadas, transferiu para a sala de reuniões do escritório parte dos almoços que marcava nos restaurantes da rua Amauri, Itaim Bibi, bairro nobre da capital paulista.

Em novembro, sob protestos da família, decidiu viajar a Miami, nos Estados Unidos, para conversar com o empresário J. Hawilla, seu cliente, que negociava com as autoridades americanas uma delação premiada sobre a corrupção no futebol. A viagem não lhe fez bem e ele desenvolveu um quadro de embolia pulmonar. Voltou praticamente direto para o Hospital Sírio Libanês, onde faleceu dias depois, em 20 de novembro.

Capítulo 2

A reorganização

Triagem de clientes demorou cinco meses

Quando deixou o Ministério da Justiça, em 2007, MTB não quis voltar para o prédio da Avenida Liberdade nº 65, no centro de São Paulo, onde fez fama e fortuna. Repassou o antigo escritório ao criminalista Leônidas Scholz, um de seus pupilos, e decidiu se estabelecer em um local mais próximo de sua casa e dos clientes.

Convidou o sobrinho José Diogo Bastos Neto, advogado civilista, a quem tinha como filho, para dividir o novo espaço. Semanas depois, os escritórios Márcio Thomaz Bastos Advogados e Chiaparini e Bastos Advogados mudaram-se para o 14º andar do Edifício Millennium, localizado na Avenida Faria Lima, um dos mais importantes eixos financeiros da capital.

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Com José Diogo Bastos Neto; braços sobrepostos era pose habitual

Após décadas às voltas com a gestão de muitos casos e muitos advogados, desta vez ele queria uma boutique de advocacia consultiva e estrutura enxuta. Com ele, trabalhavam apenas dois advogados: Maíra Salomi, criminalista, sócia do escritório, e Luiz Armando Badin, especialista em Direito Público. Thomaz Bastos ocupava duas salas: a dele e a de reunião, em que recebia diariamente empresários, políticos, jornalistas e outros advogados.

Ele dividia a maioria dos casos com outros escritórios e, assim, dedicava-se apenas às estratégias e se livrava do operacional. Entre os parceiros habituais, estavam as bancas de Celso Vilardi, Pierpaolo Bottini e Dora Cavalcanti, que, sob a coordenação de MTB, atuavam na defesa dos interesses da Camargo Corrêa e da Odebrecht na Operação Lava Jato. Além deles, o ex-ministro repassava clientes para uma legião de discípulos. Os casos eram escolhidos por importância e rentabilidade.

Com o pai, José Diogo Bastos, médico e líder político na cidade de Cruzeiro (SP), o advogado aprendeu uma lição que lhe ajudou a construir um patrimônio milionário – a de que profissionais que cobram altos honorários são mais valorizados. “Ele contava que meu avô dizia”, lembra Bastos Neto: “Se você cobra pouco, o cara te vê e atravessa a rua para não te cumprimentar. Se você cobra muito, o cara pensa ‘que bom médico!’.”

Era o próprio Bastos quem falava de honorários com os clientes. Advogados formados por ele lembram da naturalidade com que, ao fim de muitas reuniões, há mais de uma década, ele dava preço ao trabalho que o cliente solicitava. Feição serena, dizia: “Um milhão.” Com o tempo, o preço aumentou bastante. Os clientes pagavam adiantado e à vista.

O escritório tinha cerca de setenta clientes – uns vinte só da boutique e outros cinquenta compartilhados com parceiros. Na conta, há  clientes com casos encerrados e outros, com diversos processos em andamento. A partir de dezembro, Maíra telefonou a todos, um por um, e marcou reuniões para discutir o futuro. A triagem só terminou em abril. “Foi um período muito desgastante. Havia a tristeza pela ausência dele, a tensão de muitos clientes e os prazos correndo”, lembra a advogada.

A maioria dos clientes divididos com outros escritórios ficou com os parceiros. Maíra montou o Chaves Alves & Salomi Advogados, com a criminalista Marina Chaves Alves, e levou com ela cerca de vinte casos. Badin também montou escritório próprio.

Como a morte do ex-ministro pegou os clientes de surpresa, as reuniões suscitaram as mais diversas reações. Houve quem pedisse de volta o dinheiro pago adiantado, o que não foi feito. “Um cliente, que tinha um caso bastante delicado, chegou lá nervoso e disse que queria um advogado igual ao Márcio. Mas não havia, não há, nunca houve um advogado igual a ele. Imagina que conversa difícil”, lembra Maíra. Teve gente que pediu até para falar com a filha do ex-ministro.

Herdeira da elegância discreta do pai, Marcela não seguiu profissão ligada ao Direito. Formada em administração de empresas e pós-graduada em semiótica, ela hoje dirige a startup Coruja Educação, focada na melhoria da qualidade do ensino em escolas públicas.

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Com Marcela, no escritório, em 2010

A principal sala de reunião do escritório tinha uma mesa grande e um aparador em forma de onda (foto acima), encomendados por MTB ao arquiteto e designer de móveis Ruy Ohtake. Sobre a onda, havia uma coleção de dezenas de miniaturas de advogados, que o ex-ministro comprou e ganhou ao longo da vida. A última peça foi incorporada à coleção postumamente. Uma mini-advogada de tailleur amarelo e saia preta, à esquerda do móvel, chegou às mãos de Bastos Neto, para que ele repassasse ao tio, quando MTB já estava no hospital. Como forma de homenagem ao ex-ministro, Ohtake batizou de Linha Márcio Thomaz Bastos esses dois e outros móveis do escritório.

Após o falecimento do pai, Marcela foi ao escritório para cuidar dos pertences dele. Decidiu vender as salas comerciais e levar a coleção de miniaturas para sua casa. Na escrivaninha e nos armários, um contraste entre a portentosa carreira e a singeleza dos objetos pessoais. “Quando fui olhar as coisas dele para levar embora, fiquei surpresa em ver como ele usava e guardava pouca coisa”, diz. Ela encontrou alguns moleskines com anotações soltas, brindes amontoados e material audiovisual sobre a carreira dele.

Havia também dezenas de cartas de amor.

Capítulo 3

O vazio

"Tudo é verdade, tudo existe e tudo vale / Na medida em que ela está ou não está"

O advogado era casado há 48 anos com Maria Leonor de Castro Bastos, a quem chamava de Nô. Conheceram-se muito jovens, em Cruzeiro, cidade natal de ambos. Na sala de trabalho, Thomaz Bastos ainda guardava cartas de amor da época, com poemas de autoria própria (como este, da década de 60, transcrito abaixo), dentro de um envelope.

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Com a mulher, Leonor, em 2010

Carta à inesperadamente amada

 

O amor não estava no esquema

De vida, que eu tinha traçado.

Fixação mental, histeria mal-curada,

Burrice ou fraqueza de caráter,

Tudo podia ser; ou coisa de mulher

Sem ter o que pensar ou o que fazer.

 

“Não quero do amor senão o gozo físico”

“Meu amante morreu bêbado, meu marido morreu tísico”

 

{…}

 

Caso a caso , mulher a mulher

Era sempre a mesma coisa. 

Receber tudo; não dar nada,

E, no fim, um gosto amargo e triste

Restando na gente; cinza e pó.

 

Causar sofrimento, no fundo era bom.

E protegia contra o medo de sofrer.

O mundo era seguro, mas vazio,

Mundinho de vidro, sem vida e sem verdade.

 

Mas, de repente, começou a acontecer,

Devagar, como essas coisas acontecem;

Parecia igual, sem diferença

Das outras vezes: a história se repete.

 

Mas, não era. Outro horizonte

Se abria e eu não entendia

E nem pensava que pudesse ser

O que, agora, eu sei que é.

 

Não adianta apelar aos velhos ritos

Nem procurar refúgio na razão.

Pensar deixou de resolver

E a lógica ficou subvertida.

 

Agora vejo, estão cheios de razão 

Castro Alves, Casimiro e o “Grande Hotel”

Tudo é verdade, tudo existe e tudo vale

Na medida em que ela está ou não está.

 

A urgência inadiável da presença

O medo irreconhecível da ausência

E a presença que se faz ausência

Pelo vago inexplorado de um olhar.

 

Isto é o pior; pois não articulado

E falho de sentido e de razão.

Explicar com palavras que são gelo

A ternura de água deste amor.

 

Deste amor que quer proximidade

E é vontade, tão só, de comunhão

Desejo obcecado e verdadeiro

De estar perto; de não ir e de ficar.

A morte inesperada do companheiro de tantas décadas desnorteou Leonor durante alguns meses, mas, recentemente, ela voltou a sair de casa e começou a retomar atividades rotineiras com amigos e familiares.

Coroinha na infância, membro de uma família católica praticante, Thomaz Bastos era ateu e cultivava uma “superstição jocosa”. Usava sempre a mesma beca surrada, isolava na madeira com frequência e carregava no peito uma corrente cheia de penduricalhos como pimenta, sal grosso, cruz, trevo de quatro folhas e outros. Além da indumentária tradicional, foi enterrado com a beca, a corrente e uma gravata vermelha.

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Com a fiel escudeira Delma, em 2010, numa festa de             fim de ano do escritório

Era vaidoso e adorava um mimo. Usava cremes faciais e corporais da esposa, obedecendo as indicações dela. Ia ao dentista mensalmente. Caprichava nas gravatas, nas abotoaduras (tinha algumas de pedras preciosas) e gostava de arriscar combinações estilosas de cores entre terno, camisa e acessórios. Só a filha lhe cortava as unhas das mãos. Ficava especialmente satisfeito quando restaurantes lhe davam mesa cativa, guardanapo de pano com as iniciais dele bordadas e abriam exceções para fazer entregas no escritório mesmo sem ter sistema de delivery.

Metódico, acordava às 5h30, tomava café, fazia ginástica (alternava musculação e pilates) e lia jornais. Três vezes por semana, passava na casa da filha para ver os netos Rafaela e Diogo, com quem trocava figurinhas. Caminhava até o escritório carregando uma banana no meio de um jornal. Comia metade dela às 11h30 e a outra metade às 15h. Ligava quase todas as manhãs para Dora (“Te acordei?”, perguntava, invariavelmente) e, às 8h50, todo santo dia para Vilardi, para comentar as notícias. Em seguida, tomava um café e batia papo com o sobrinho.

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Com Diogo e Rafaela, há cinco anos

Tinha uma média de quatro compromissos por dia no escritório – em dias de pico, oito. No intervalo entre uma reunião e outra, quase sempre escovava os dentes. Quando não dava tempo, bochechava um enxaguante bucal. Gostava de almoçar no Parigi e no Trindade. Com frequência, comia arroz de brócolis sem cebola e peixe. Arroz de pato era outra pedida de sempre. Vilardi, o advogado mais próximo de Bastos nos últimos anos, era companhia habitual.

“Tive um encontro de almas com o Márcio”, diz Vilardi. Eles começaram a trabalhar juntos em 2008, tornaram-se amigos e nunca mais se largaram. MTB adorava a dedicação de Vilardi. “Vim do nada na advocacia. Quando tive a chance de aprender com um advogado como ele, me dediquei.”

A agenda do ex-ministro era controlada pela secretária Delma Estrela, a fiel escudeira que ele surrupiou por anos de Bastos Neto. “O dr. Márcio falava os compromissos que era para registrar e eu registrava. A agenda ficava aqui comigo e ele consultava o dia todo. Várias vezes, ele próprio anotava coisas a lápis”, conta Delma.

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“Ligar Lula”: anotação de próprio punho, em 2011

“Ele era muito gentil, nunca brigava. A única vez que chamou minha atenção foi quando, por acidente, um cliente entrou na sala de reunião antes de ele se despedir do que estava dentro. Depois do encontro, ele me disse que aquilo nunca mais poderia acontecer.” Eram dois empresários envolvidos na Lava Jato. Quando os clientes eram especialmente VIPs, como ministros e ex-ministros, políticos e grandes empresários, Delma os esperava na garagem do prédio e os acompanhava até a sala de reunião, para que não precisassem se identificar na portaria.

Às 17h, era hora de tomar iogurte desnatado com farinha de linhaça. Depois do câncer, ficou mais rigoroso com a dieta e fazia o lanche na presença de quem estivesse lá. Às 20h, encerrava o expediente e ia para casa.

Quando a Polícia Federal deflagrava alguma operação nova, Delma sabia que o dia no escritório seria movimentado. MTB ficava tenso, mas adorava a agitação. “Às vezes, eu via pela imprensa alguma bomba e sabia que ia cair lá. Ligava e perguntava: ‘Como está seu dia, pai?’ Ele dizia que estava tudo bem, que tinha ido almoçar com minha filha e me repetia tudo que ela havia contado sobre a escola. Ele separava a tensão do trabalho da vida da gente”, conta a filha.

“Sempre que presenciei conversas dele com a mulher pelo telefone, era a mesma coisa: falava de amenidades e não de trabalho. Uma exceção foi no dia da Castelo de Areia. Ele estava radiante e ligou para ela para contar que tinha vencido”, lembra Vilardi, sobre a decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) que desmontou a operação, em 2011.

Bastos adorava ser demandado e, habitualmente, trabalhava nos finais de semana ­(muitas vezes de crocs!). Recebia em casa políticos de todo o espectro ideológico. De trabalho, falava a portas fechadas. Socialmente, nas festas que sempre gostou de dar, misturava pessoas.

Começou nos anos 80 a adoração que o advogado tinha pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na época, fazia muitas festas na cobertura em que a família morava nos Jardins, em São Paulo. Chamava os clientes, apresentava Lula e pedia doações para a campanha do petista à Presidência da República, em 1989. “Uma vez, ele brincou com o porteiro que, se o Lula ganhasse a eleição, os companheiros iriam morar na cobertura. Teve de fazer reunião de condomínio para explicar que era brincadeira”, lembra Marcela.

Em 2005, Thomaz Bastos preparou, com antecedência, uma festança para comemorar os 70 anos. O escândalo do mensalão se agravava e ele, então ministro da Justiça, estava envolvido até o último fio do cabelo na administração da crise. Em julho, a CPI dos Correios pegava fogo; o publicitário Marcos Valério ameaçava contar o que sabia sobre o governo petista. O advogado decidiu cancelar a comemoração e remarcá-la para os 80 anos. O evento teria de ser num salão porque ele considerava seu apartamento no Itaim pequeno para receber muitas pessoas. Até as últimas semanas de vida, estava em busca de outra cobertura nos Jardins.

Capítulo 4

A ciranda

"Se você não está cirandando, está fora"

Bastos começou a advogar no fim da década de 50 e se fez no tribunal do júri – participou de mais de 700 julgamentos desse tipo ao longo carreira. Até os anos 70, os crimes de maior complexidade técnica e repercussão social eram os homicídios – e, nesses casos, claro, trabalhavam os melhores criminalistas.

Nos anos 80, o cenário começou a mudar com novas leis que fizeram empresas procurarem as bancas criminais. Em 1984, surgiu o primeiro escândalo penal econômico do país – quando o principal acionista do Grupo Brasilinvest, Mário Garnero, foi acusado de estelionato. Dois anos depois, o governo federal sancionou a Lei do Colarinho Branco, com punições para delitos contra o sistema financeiro nacional. Em 1990, na esteira da Constituição de 1988, surgiram a Lei de Crimes contra a Ordem Tributária e o Código de Defesa do Consumidor, tipificando mais condutas relativas ao mundo dos negócios. Casos de repercussão, clientes endinheirados, começou a migração da categoria.

Nessa mesma época, o Direito Penal encontrou a política para não largar mais. O acompanhamento de convocados para depor em Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) passou a fazer parte dos serviços prestados pelos criminalistas. Eles começaram a participar da gestão não somente das crises jurídicas dos clientes, mas também de imagem. Tornaram-se porta-vozes, ocupando um espaço que, em diversos outros países, é de profissionais da comunicação contratados com esse único propósito. Além de assentar bem no ego dos criminalistas vocacionados, a notoriedade valorizou o passe dos advogados mais talentosos com a imprensa.

Thomaz Bastos fez toda essa transição. Também presidiu o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e adquiriu um trânsito ímpar no mundo da política. Na década de 90, os casos criminais mais importantes do país passaram pelas mãos de um dos cinco cardeais da advocacia criminal paulista: Bastos, Antônio Cláudio Mariz de Oliveira, Arnaldo Malheiros Filho, José Carlos Dias e Miguel Reale Junior.

Nos últimos vinte anos, centenas de novos crimes foram criados na legislação brasileira e o Direito Penal entrou, em caráter definitivo, no dia-a-dia das grandes empresas. Muitos criminalistas jovens de hoje tornaram-se profissionais bem sucedidos sem ter passado pelo júri, algo impensável até os anos 90.

Mas o grande upgrade da categoria se deu com a ida de Thomaz Bastos para o Ministério da Justiça, em 2003. Ao longo dos quatro anos que esteve em Brasília, o advogado reestruturou a Polícia Federal, capacitando-a para perseguir crimes mais complexos, praticados por pessoas com mais dinheiro. Quanto mais operações, denúncias e prisões, mais trabalho para os criminalistas. Como reflexo de sua atuação no Ministério, ele criou um mercado que não existia e propiciou uma elevação significativa do patamar de cobrança de honorários dos colegas.

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Bastos e Lula no Palácio do Planalto

No início dos anos 2000, novos talentos apareceram. Alberto Zacharias Toron, que havia sido estagiário e advogado no escritório de Bastos, tornou-se bastante conhecido na defesa do juiz Nicolau dos Santos Neto, o Lalau. José Luis Oliveira Lima, cria de José Carlos Dias, destacou-se na defesa de José Dirceu quando o Mensalão ainda era escândalo, na época da CPI dos Correios. Muitos outros surgiram, consolidaram-se e alcançaram notoriedade na imprensa, como Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, Roberto Podval, Vilardi e Dora.

Na última década, os principais nomes se repetiram nos casos de maior destaque. “Existe uma ciranda no mundo dos negócios. Se você não está cirandando, está fora”, resume Toron.

E a ciranda rodava, em boa medida, na palma da mão de MTB – apelidado de God (Deus) pelo poder que tinha e pelos discípulos que criou.

Capítulo 5

A Lava Jato

Quem será o próximo God?

“É o caso mais difícil da minha vida”, dizia MTB sobre a Operação Lava Jato, deflagrada em março de 2014, em Curitiba (PR). Assim como no Mensalão, ele exercia um papel informal de coordenador das defesas e escolheu boa parte dos defensores dos principais investigados.

Pouco antes de morrer, o ex-ministro tentava em Brasília costurar um “acordão” entre os principais réus e a Procuradoria-Geral da República, mas encontrava dificuldades em avançar. No Mensalão, também não conseguiu emplacar sua estratégia ideal, que era trabalhar pelo desmembramento do caso e evitar que o julgamento todo se desse no Supremo Tribunal Federal (STF) – foi freado, entre outros, pelo ex-ministro José Dirceu.

A costura que MTB fazia entre os envolvidos e os atingidos pela operação deixou de ser feita. “Ele falava com o Lula e com a Dilma [Rousseff, presidente da República] e até fazia ponte entre os dois. Conversava com ministros do governo e parlamentares, com autoridades da Justiça, com os empreiteiros e com os advogados. Não existe outro com tamanha interlocução”, diz um dos criminalistas.

Os advogados das principais construtoras envolvidas na investigação tiveram duas grandes reuniões com Thomaz Bastos, na mesa desenhada por Ruy Ohtake. Com a morte dele, a relação entre as defesas se estabilizou de forma orgânica, sem liderança, já que todo mundo se conhece e trabalha junto há muito tempo. “Devemos estar todos juntos em uns dez casos”, diz Dora. Em turmas menores, coincidem em dezenas de outros processos. Também em pequenos grupos, eles se falam todos os dias e têm pequenas reuniões frequentemente. Lima e Vilardi, por exemplo, são amigos. Há alguns anos, almoçam ou jantam juntos a cada duas semanas. Nesses últimos meses, com tanto estresse e tantos reveses, houve desentendimentos na turma e sobraram maledicências sobre a atuação dos demais.

Diz um atento criminalista: “uma grande operação é como Copa do Mundo. Só no final você sabe quem foram os melhores jogadores, quem saiu maior e quem saiu menor.”

Sucessores

A Lava Jato deve sacramentar o deslocamento do eixo de poder entre os penalistas – dos cardeais para os “criminalistas de crise” na faixa dos 50 anos. A morte de Thomaz Bastos não precipitou esse movimento, que já se anunciava no julgamento mensalão pelo Supremo, em 2013 – mas reforça a imagem do fim de um ciclo. O advento da delação premiada, melhor absorvida pelos mais novos, contribui para a mudança.

Na famigerada operação, Toron, Vilardi, Oliveira Lima e Podval têm clientes de primeira grandeza e seus honorários estão no patamar dos recebidos por Mariz, Malheiros e Dias. Ao panteão dos poderosos, soma-se um jovem de 38 anos. Pupilo de MTB no Ministério da Justiça, o criminalista Pierpaolo Cruz Bottini, professor-doutor da Faculdade de Direito da USP, tem trajetória profissional meteórica. Com Vilardi e Mariz, está na defesa da Camargo Corrêa.

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Toron e Bottini, em 2012

Em rodas de especialistas e autoridades, Toron costuma ser apontado como o criminalista mais completo nos dias de hoje: bom em estratégia, na escrita, na oratória, na tecnicalidade, no trânsito político e com a imprensa. “Ele é arrogante, muitas vezes, mas é aguerrido e isso faz diferença para nos convencer”, disse ao JOTA um ministro do STF.

Para o futuro, as bolsas de apostas voltam-se para Bottini. Além da bagagem tecnico-acadêmica, tem a diplomacia como característica marcante. Assim como MTB, tem excelente trânsito entre autoridades da Justiça (foi secretário de Reforma do Judiciário), políticos de vários partidos e empresários. Já advogou para o PT e tem ótima interlocução no Planalto.

Nos últimos anos, emergiram nomes com grande futuro pela frente, como Augusto de Arruda Botelho e Rafael Tucherman (sócios de Dora), Fábio Tofic Simantob, Rogério Taffarello, Thiago Gomes Anastácio e Marcelo Feller, só para citar alguns na faixa dos 30.

Capítulo 6

O legado

E os diários do Mensalão?

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Há alguns anos, Thomaz Bastos contratou uma empresa para fazer pesquisas que subsidiariam sua biografia. Depois de horas de entrevistas com ele, amigos e familiares, a equipe enviou um rascunho do que seria a obra. “Ele achou super chapa branca e resolveu interromper o projeto”, conta um amigo.

Marcela tenta reaver o material bruto para decidir seu encaminhamento. Ela pensa em fazer um memorial na internet, com a história da vida dele e seu legado. Há conteúdo de sobra. Bastos guardava caixas e mais caixas com recortes de matérias de jornais e revistas em que era entrevistado ou mencionado. Tinha também farto material em fitas cassete, CDs e DVDs com gravações de júris, sustentações orais, palestras e discursos.

Ao longos dos últimos anos, Bastos deu inúmeras entrevistas sobre os dezessete volumes do diário que teria escrito durante seus anos como ministro, especialmente na eclosão do mensalão. Repetiu, diversas vezes, que os cadernos ficariam guardados em um cofre e seu conteúdo só seria conhecido cinquenta anos após sua morte.

“Vasculhamos todos os lugares e não encontramos nada. Falta só a resposta da Biblioteca Nacional. Acho que era mentira. Ele gostava de contar histórias”, surpreende a filha Marcela. Se a teoria dela é verdade ou puro “despiste”, o tempo dirá. Episódio imprescindível para uma futura biografia.


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