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Combate à corrupção: a tentativa de liquidação do modelo Lava Jato

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MPF

Sumário

Texto está dividido em cinco capítulos

O artigo aborda, na perspectiva de um membro do Ministério Público Federal, o momento atual da Lava Jato e do novo modelo de combate à corrupção inaugurado no país com essa investigação. A análise parte da crise que esse novo modelo começou a enfrentar em 2016, após o impeachment, e que se acentuou com a colaboração da JBS em maio de 2017. O texto está dividido em cinco capítulos assim intitulados: “O Cerco”, “Contexto histórico”, “Reveses”, “Próximos passos” e “O Resgate”.

Partindo de um paralelo histórico com episódio da II Guerra Mundial, analisa-se, na primeira parte, o momento agudo da crise da Lava Jato que se deu com a colaboração da JBS. Em seguida, o cenário político, social e jurídico que viabilizou o surgimento dessa superinvestigação criminal. O capítulo “Reveses” trata dos obstáculos enfrentados para o desenvolvimento da Lava Jato e das sabotagens engendradas pelo aparato de poder. Ainda, uma breve reflexão sobre os caminhos a seguir, especialmente no âmbito do Ministério Público Federal, na marcha contra a corrupção que assola nosso país. Finalmente, a última parte é reservada à resposta dada pela sociedade diante das ameaças que tentavam encurralar a Lava Jato e seus principais pilares de sustentação no enfrentamento à corrupção nos nossos sistemas público e político-partidário.

Ameaças

O cerco

Um momento crucial para a consolidação dos avanços

Em agosto de 2017, escrevi um artigo publicado no site da revista Época intitulado: “O Cerco se fecha à Lava Jato – Será o fim do combate à corrupção? Na oportunidade, fiz referência a um episódio histórico da II Gerra Mundial, e tracei um paralelo com as ameças que se avolumavam contra o modelo de combate à corrupção inaugurado pela Lava Jato.

Para rememorar e contextualizar, lembro que, na Inglaterra no início dos anos 40, boas lideranças e, acima de tudo, a têmpera do povo inglês salvaram o país de uma tragédia anunciada e praticamente inevitável. Quase todo o exército inglês estava cercado pelos alemães em Dunquerque, no Norte da França. Com as forças da Real Marinha Britânica, a expectativa era a de que fossem resgatados cerca 30 mil homens no porto da cidade francesa que se encontrava sob intenso bombardeio alemão.

Em uma decisão inspirada, o governo britânico convocou o povo a ajudar no resgate. Centenas de embarcações privadas se mobilizaram, atravessaram o mar do Canal da Mancha e, com destemor, viabilizaram o resgate não apenas de 30 mil, mas de mais de 300 mil soldados.

Dizia eu, então, que, guardadas as proporções e a propriedade dos fatos, estávamos, no ano de 2017, em momento crucial para a consolidação dos avanços obtidos com o trabalho desenvolvido pela Lava Jato. As conquistas dessa grande investigação estavam cercadas e ameaçadas como nunca. Após abalar a estrutura da República, revelando os meandros da corrupção que anulava a democracia e esgarçava o tecido social, muitas forças retrógradas se mobilizaram contra os pilares que poderiam nos alçar para novo patamar republicano e democrático. E destacava, ainda, que só uma força seria capaz de fazer frente a essas investidas: a união do povo brasileiro.

Passado mais de um ano do prognóstico, é fato que não se viu mobilização popular de vulto desde então. A sociedade, por muitas razões, acomodou-se em certa apatia expectante. Uma parte dos movimentos sociais ligados à direita que ajudou no avanço da Lava Jato enquanto Dilma Rousseff estava no Poder arrefeceu e calou-se, mesmo diante dos gravíssimos crimes revelados com a colaboração da JBS. A esquerda, por sua vez, entrou em estado de autocomiseração, passando a acusar o trabalho de combate à corrupção de golpista e parcial, mais preocupada com narrativa que lhe reconduzisse ao poder do que com os verdadeiros interesses do país. Importantes segmentos da imprensa também mudaram sua linha editorial, e, após o impeachment, passaram a atacar severamente o Ministério Público.

Já não importava mais que o país estivesse mergulhado em uma crise política e ética de proporções impensáveis; as baterias voltaram-se contra o Ministério Público e o sistema de justiça criminal. A instituição transformou-se, para muitos formadores de opinião, em uma usina produtora de ilegalidades. Em alguns casos, chegou-se perto de afirmar que a corrupção sempre esteve aí, e que o problema real do país não são os corruptos, mas essa “despudorada investigação” que surpreendeu a classe dirigente em um balcão de comércio, mercantilizando os interesses do Brasil: vendendo e comprando leis, decisões administrativas e até judiciais.

O tempo passou, e com ele começaram a chegar algumas respostas.

JBS

Contexto histórico

Janot, os irmãos Batista e Temer

Para bem entender o fenômeno que se desenrolou no país desde o processo de redemocratização, e que recrudesceu em 2013, culminando com a Lava Jato em 2014, precisamos ampliar um pouco o foco e sair do âmbito estrito dessa investigação.

Ao longo desses 30 anos de nova República, o sistema de representação política foi desgastando-se paulatinamente. Inapetência, corrupção, incapacidade de entender e veicular os verdadeiros anseios populares – tanto por parte da direita como da esquerda –, tudo isso (60 mil assassinatos por ano, presídios completamente fora de controle, sensação de insegurança, péssimos serviços públicos, entre outros tantos problemas que inviabilizam uma vida decente em nosso país) culminou com a eclosão dos movimentos desordenados, mas violentamente eloquentes de 2013.

O povo estava farto da sua classe política. Era preciso mudança. Muitos já divisavam o problema. Pouco antes de as ruas serem tomadas pelos protestos, estive com o então senador José Sarney em seu gabinete. Na oportunidade, integrando a equipe do Procurador-Geral da República, Roberto Gurgel, fomos recebidos pelo poderoso político maranhense para tratar da famigerada PEC 37. Lembro-me vividamente de suas palavras: há um claro processo de esgarçamento entre os eleitores e seus representantes políticos. E vaticinava Sarney, isso provocará uma convulsão social de proporções incalculáveis. Arrematava por fim: minha sorte é que estou velho, e provavelmente não mais estarei por aqui quando isso ocorrer. Menos de um mês após essa singela conversa, o país, de fato, convulsionou. Acertou, assim, o senador no prognóstico, errando apenas no quando.

Isso revela que a classe política entende exatamente o que se passa no país dos nossos dias, e, por isso mesmo, debate-se de forma tão intransigente contra as necessárias mudanças. Faz concessões pontuais e cede posição apenas para preservar seu poder e modus vivendi. Não foi por outra razão que, na esteira desses movimentos populares, ainda em junho de 2013, a PEC 37 foi derrotada, e o Senado aprovou a Lei 12.850/13 – Lei de Combate às Organizações Criminosas –, que trouxe nova e mais eficaz regulamentação para a colaboração premiada.

Em março de 2014, surge a Lava Jato, com sua até então mais vistosa medida investigativa. Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras, sofria buscas e apreensão e era preso. Com robustas provas de sua participação em um grande esquema de pagamento de propinas, Paulo Roberto decidiu assinar com o Ministério Público Federal o primeiro acordo de colaboração premiada, já sob a égide da nova legislação editada para o combate mais vigoroso ao crime organizado.

O Brasil de então caminhava para a eleição presidencial com dois candidatos viáveis: Dilma Rousseff, que disputava a reeleição, e Aécio Neves, que tentava quebrar a sequência de mandatos do PT à frente da presidência da República.

Certamente, a eleição de 2014 deve entrar para a história do país como uma das mais disputadas. A briga renhida entre PT e PSDB levou a um racha entre os eleitores, recrudescendo uma polarização política ainda incipiente na sociedade brasileira.

Dilma, como se sabe, venceu o pleito por pequena margem. Ganhou, mas com seu partido no centro dos escândalos revelados pela Lava Jato, e enfrentando severos problemas econômicos, encontrou desde o início muitas dificuldades de governabilidade.

Embalada pelos casos de corrupção que vinham à tona com o trabalho da Lava Jato em Curitiba e em Brasília, parcela significativa da população voltou às ruas em 2015. Desta vez, o objetivo era claro: queriam o impeachment da presidente Dilma.

Com a economia em frangalhos, escândalos de corrupção que se revelavam em proporções impensáveis, baixa popularidade e sem apoio do Congresso, em agosto de 2016, a presidente sofre o impedimento, e assume seu vice, Michel Temer, do PMDB.

O combate à corrupção ainda estava em alta por essa época. A Lava Jato avançava e expandia-se com o apoio da mídia e da opinião pública. Todas as tentativas de frear as investigações pelos meios tradicionais (por nulidades de algibeira, manobras judiciais e políticas) esbarravam na qualidade técnica do trabalho desenvolvido pelo Ministério Público, pela Polícia Federal e pelo Juízo da 13ª Vara Federal de Curitiba, mas principalmente no suporte massivo que a operação recebia publicamente.

No entanto, isso não duraria muito tempo. Em novembro desse mesmo ano, a Câmara dos Deputados infligiu uma derrota esmagadora aos esforços de combate à corrupção e à impunidade que marcará indelevelmente a sua história. Na madrugada da queda do avião do time da Chapecoense – fato de comoção nacional –, os deputados rejeitaram as 10 Medidas, distorcendo completamente o propósito dos projetos de lei daquele pacote contra a corrupção. Na prática, jogaram na lata do lixo mais dois milhões de assinaturas colhidas pelo esforço concentrado da sociedade brasileira.

Mas o verdadeiro ponto de inflexão na jornada da Lava Jato deu-se mesmo em 2017 com a colaboração dos irmãos Batista da JBS. Na posse de uma gravação comprometedora do Presidente da República e do senador Aécio Neves, de uma infinidade de provas de corrupção contra centenas de políticos e partidos de todos os matizes e contra um Procurador da República que assessorava o então Procurador-Geral Eleitoral, Joesley e Wesley Batista conseguiram do Ministério Público Federal uma cláusula de imunidade no acordo celebrado.

O país não estava, naquele momento, pronto para mais aquele passo. Um presidente recém-empossado, após um traumático processo de impeachment da antecessora, com apoio do parlamento, de parte da mídia e do setor econômico, não cairia tão facilmente: era preciso manter isso aí. Antes do caso JBS vir a público, presenciei, por mais de vez, o então PGR, Rodrigo Janot, expressar sua perplexidade diante do alcance da corrupção no país. Dizia ele entre taciturno e incrédulo: não sei se o país suportará tanta verdade sobre si mesmo.

As gravações e parte das provas apresentadas foram divulgadas na noite da quarta-feira (17.05.2017) pelo jornal “O Globo”. Na quinta (18.05), uma operação foi deflagrada com base nas informações colhidas com a colaboração da JBS. O ambiente ainda era turvo na sexta-feira (19.05), e a sorte do presidente incerta ainda. Foi então que, no sábado (20.05), o jornal Folha de São Paulo, em momento profundamente infeliz de sua história, publicou, com destaque, matéria sobre o resultado de uma “perícia” por ele contratada, que identificou, no áudio de conversas gravadas entre os colaboradores e o presidente da República, “mais de 50 edições”. Esse fato fortaleceu Michel Temer e seus apoiadores.

Poucos dias após a matéria da Folha, descobriu-se que o “perito” contratado era, para dizer o mínimo, profissional de baixíssima credibilidade, e que as supostas 50 edições da gravação do presidente eram, na verdade, pausas naturais do aparelho de gravação. O estrago, no entanto, estava irremediavelmente feito.

O Estado de São Paulo, por sua vez, foi mais explícito em sua luta para salvar o mandato do presidente Temer. Esse jornal publicou uma sequência de sete editoriais, entre os dias 18.05.2017 e 24.05.2017, dedicados exclusivamente a atacar e desqualificar a colaboração firmada com os irmãos Batista. No dia 24.05, o editorialista chegou a pedir o impeachment do PGR Rodrigo Janot: Como se vê, há mais do que indícios de que o sr. Janot já não sabe onde se situa o norte firme da lei e da Constituição. Se excessos ou omissões há de sua parte, a Constituição prevê caminhos para sua substituição. Afinal, numa República, sempre deve prevalecer a lei e a ela também se sujeita aquele que deve guardá-la.

A partir daí, o presidente gastaria todo o seu capital político para manter-se no poder, deixando em segundo plano reformas importantes e a própria gestão do governo. Michel Temer conseguiu, a um custo muito alto para o país, barrar duas consistentes denúncias contra si oferecidas pelo então Procurador-Geral da República.

Establishment

Reveses

Ciclo produtivo da Lava Jato parecia chegar ao fim

Enfraquecido por uma certa exaustão da “marca” Lava Jato e por divergências internas no próprio Ministério Público Federal, o trabalho de combate à corrupção e à impunidade entrou em 2018 sofrendo reveses dignos de nota.

A Segunda Turma do STF retrocedia visivelmente em seus posicionamentos, se compararmos com o que ocorria em relação ao passado recente. Denúncias substanciosas foram rejeitadas, réus absolvidos, sob o argumento frágil de que colaboração não era prova, como se os colaboradores não apresentassem, além de suas declarações, outros elementos probatórios consistentes. A imprensa, de forma acrítica, limitava-se a reverberar esses argumentos vazios esgrimidos com vigor por alguns ministros da Corte.

No entanto, de todos os possíveis retrocessos em curso, dois temas merecem especial atenção, pois são de suma relevância para a consolidação do novo modelo de combate à corrupção e à impunidade. O primeiro deles diz respeito ao cumprimento de pena após o julgamento em segunda instância. Depois de o STF haver alterado anterior posicionamento (HC 84.078), reafirmando a constitucionalidade da execução provisória da pena por duas vezes (HC 126.292 e ADCs 43 e 44), parte dos ministros, inconformada com a nova orientação, tenta ainda reverter essa nova posição da Corte. Tudo indica que o tema retorna à pauta do STF ainda no primeiro semestre de 2019.

O segundo tem a ver com o novo modelo de colaboração premiada regulamentado pela Lei 12.850/13. Há um embate jurídico-político-corporativo em torno do tema, cujo desfecho terá impacto incalculável sobre a forma de se investigar corrupção no país.

Para resumir a disputa, podemos colocar a questão nos seguintes termos: a colaboração premiada pode ser entendida como um ato negocial entre MP e colaborador, o qual, uma vez homologado pelo juiz, obriga o Judiciário nos exatos limites do acordo celebrado, salvo se o colaborador não cumprir sua parte na avença; ou, por outro lado, pode a colaboração premiada ser interpretada como um favor do juiz, que estará absolutamente livre para, ao fim do processo, avaliar a qualidade e eficácia da colaboração e conceder os benefícios que entender cabíveis e proporcionais. Nessa linha, o colaborador, após abrir mão do seu direito ao silêncio, entregar comparsas, cumprir sua parte no acordo estaria ainda sujeito a benefícios incertos.

Se vencer o segundo modelo, voltaremos à era pré-Lava Jato, sob a égide da legislação anterior, que, em mais de 10 anos de vigência, nunca produziu nada que chegasse sequer perto do que se logrou alcançar com o formato negocial utilizado pela Lava Jato.

De toda forma, subjacente a todos esses movimentos aparentemente desconexos, havia uma articulação concertada de grandes placas tectônicas de nossa velha política que buscavam uma acomodação em duas frentes essenciais. A primeira delas consistia em frear o avanço da Lava Jato para preservar o que havia restado do sistema político que dominou o país desde 1988, sob a retórica da necessidade de estabilidade e crescimento econômicos. A segunda dizia com um movimento mais profundo e ousado, pois tinha em vista reverter o próprio modelo jurídico que deu azo ao desenvolvimento de uma nova e mais eficiente forma de combate à corrupção.

A colaboração da JBS foi a ponte de ouro que o sistema encontrou para por em marcha o plano de recolocar as coisas em seus devidos lugares.

Muito embora tecnicamente o acordo com os irmãos Batista tenha sido adequado e proporcional, considerando a relevância da colaboração prestada e as substanciosas provas de corroboração apresentadas, o fato é que o MPF não conseguiu convencer a opinião pública dessa vantajosidade. Formadores de opinião e as redes sociais foram impiedosos com o benefício concedido aos irmãos Batista, o que se explica, a nosso ver, pela conjunção de dois fatores: i) a premência do setor empresarial em ver retomado o crescimento econômico prometido pelo governo Temer com a apresentação de propostas de macrorreformas econômicas, como a trabalhista e a previdenciária; e ii) o receio de parte significativa da população de que apoiar o avanço da Lava Jato sobre o novo governo pudesse trazer o PT de volta ao poder.

Pois bem. Essa trinca que surgiu na confiança da opinião pública em relação à Lava Jato foi o espaço do qual o sistema político se utilizou para introduzir uma cunha que a um só tempo deveria paralisar as investigações e reverter as condicionantes que levaram ao êxito do trabalho, como a prisão em segunda instância e o novo modelo de colaboração premiada.

A apatia da sociedade em relação aos escândalos do governo Temer encorajaram as linhas de frente do sistema a avançar contra o novo modelo de combate à corrupção, isso praticamente sem nenhuma resistência significativa. A esquerda, apeada do poder por conta da corrupção patrocinada pelo PT e revelada pela Lava Jato, não apenas não foi resistência à demolição da pauta anticorrupção, como coonestou com o pacto enunciado em viva voz por um senador do PMDB, gravado pelo colaborador Sérgio Machado, para desmoralizar as investigações.

Tudo parecia perdido. O PSDB, apesar do conteúdo inequívoco das gravações de Aécio Neves, relutou até mesmo em afastá-lo da presidência da legenda. Além disso, a alternativa mais natural ao PT para as eleições que se avizinhavam redobrou as apostas no governo Temer, de modo que, na briga intestina entre os tucanos cabeças brancas e os cabeças pretas, a ala mais antiga e poderosa da legenda levou a melhor, conseguindo manter o partido na base de apoio ao governo, inclusive com participação no seu Ministério.

O ciclo produtivo da Lava Jato parecia chegar ao fim. O novo modelo de combate à corrupção vivia sua Dunquerque, encurralado por uma insólita coalizão formada pelo Centrão, pelo PMDB, pelo PSDB e pelo PT. Todos disputariam a presidência da República, mas qualquer das alternativas representaria muito provavelmente o fim da Lava Jato e do modelo com ela inaugurado.

No MPF, a atual Procuradora-Geral da República, ferrenha opositora de Rodrigo Janot, entendeu bem a onda que se formava e posicionou-se estrategicamente para impulsionar sua candidatura ao cargo. Sem dizer expressamente que era contra os esforços empreendidos pela gestão Janot no combate à corrupção, fez ela uso do discurso que calhou bem ao momento: era preciso tirar o foco do crime e dar atenção a outras áreas de atuação institucional. Aparentemente, o governo Temer e setores do STF contrários à Lava Jato gostaram do discurso da então pretendente à cadeira de PGR. O fato é que, passadas menos de 24 horas da divulgação do resultado da lista tríplice, Raquel Dodge, segunda colocada na eleição interna do MPF, estava nomeada pelo presidente da República para o cargo com uma antecedência de 2 meses do fim do mandato de Rodrigo Janot, fato esse inédito desde que se começou a respeitar a lista tríplice do MPF em 2003.

Já novamente no campo político, o início do ano de 2018 indicava que teríamos mais uma vez a tradicional disputa PSBD x PT, com uma provável vitória dos tucanos. Era o que os especialistas diziam então. Recursos, estrutura partidária e tempo de TV seriam os fatores que, no fim, decidiram o resultado das eleições.

A maior parte do eleitorado brasileiro, no entanto, pensou fora da casinha. Um outsider do baixo clero político, conjugando um mix de liberalismo econômico, apoio à Lava Jato, pauta conservadora em matéria de costumes e, principalmente, colocando-se como um político anti-PT, foi escolhido presidente da República. Jair Bolsonaro não tinha recursos, estrutura partidária e nem tempo de TV.

Sem qualquer juízo de valor sobre o governo que ora se inicia, o fato é que essa escolha desmontou a estratégia que o establishment preparava para o golpe final contra a Lava Jato. A população, ainda que de forma desordenada e um tanto atabalhoada, demonstrou que aquela aparente apatia diante dos descalabros revelados pelo caso JBS não era uma aceitação passiva do velho modelo político-partidário, nem a rejeição à luta contra a corrupção, mas uma pausa para observação dos fatos que se desenrolavam em velocidade vertiginosa e para reorganização de forças sociais.

Novo padrão

Próximos passos

Em 2019, seremos convidados a arrostar grandes desafios institucionais

O momento do país é delicado. Estamos mais radicalizados em política do nunca. As paixões estão vivas e fortes. A irracionalidade campeia na arena política, razão pela qual o momento para o MPF é de circunspecção e prudência nessa seara.

É de se esperar que, passadas as eleições, cesse também esse clima de hostilidade e radicalização entre direita e esquerda, postura até então desconhecida por essas latitudes, ao menos na intensidade vista nos últimos tempos.

O resultado das eleições gerais, especialmente para o parlamento, com a maior renovação histórica do Congresso Nacional, deu um recado muito claro do que deseja a sociedade brasileira: combate à corrupção, segurança pública e um novo padrão ético no trato da coisa pública.

Ao pensar o MPF nesse contexto, esperamos que, a partir de setembro de 2019, tenhamos uma liderança institucional sintonizada com os anseios sociais, compromissada com a pauta anticorrupção, de direitos humanos e de tutela coletiva. Aguardamos um novo – ou nova – PGR que esteja também atento à necessidade de unir a carreira, e que não aposte em sua divisão. E mais ainda, que compreenda a ideia de que a instituição é fruto de uma construção coletiva e contínua das gerações passadas, presentes e das que nos sucederão, porque ninguém tem sozinho a chave da verdade absoluta.

Por óbvio, é necessário sempre avançar em busca de melhorias, mas evitar também o impulso personalista e mesquinho da desconstrução de tudo o que não veio pelas mãos do líder de ocasião. Estou certo de que iremos, em 2019, nos reorganizar internamente, investir no que deu certo até aqui e aprender com nossos erros, na busca por uma sintonia cada vez melhor com o desejo dos brasileiros e brasileiras, fugindo do solipsismo, do personalismo e das idiossincrasias que isolam e deslegitimam as instituições públicas.

Não há dúvida de que, neste ano de 2019, seremos convidados a arrostar grandes desafios institucionais: i) de seguir no combate à corrupção nas várias dimensões do fenômeno; ii) tomar parte nas discussões sobre uma proposta viável e eficiente de segurança pública que tenha o respeito aos direitos humanos como vetor; e iii) tão importante quanto, unir a instituição em torno de suas convergências, fortalecer e valorizar o Ministério Público para o fiel cumprimento de seu relevante papel constitucional no serviço à sociedade.

Mudança

O Resgate

Nosso trabalho está apenas no começo

Um olhar olímpico sobre o palco onde se desenrolam os fatos da vida política do nosso país nos dias atuais há de conduzir o observador à conclusão incontornável de que estamos ainda em desvantagem na nossa batalha de Dunquerque (o Brasil perdeu 17 posições no ranking da corrupção mundial divulgado no ano passado). Mas a guerra ainda não está perdida. O Ministério Público, embora ilhado, com liderança errática e sob cerrado ataque, segue confiante de que a sociedade brasileira não faltará nas horas cruciais. Se desejamos estabelecer bases sólidas para mudar nosso país, é preciso que cada um assuma sua parcela de responsabilidade e navegue seu barco nas águas turbulentas que agitam nosso país nos dias que se seguem.

O desejo dos brasileiros parece ser que se consolide um novo padrão de intolerância à impunidade e à corrupção no país. A sociedade, aliás, já mostrou disposição para mudanças. É preciso reconhecer, nessa linha, que o resultado das últimas eleições foi, antes de tudo, a rejeição do modelo político corrompido da nova República.

Mas não basta votar e voltar a passividade expectante. O Brasil só mudará verdadeiramente pelo esforço de cada um no exercício ativo e constante de sua cidadania; não pela concessão “generosa” de pseudo-heróis que vicejam no sebastianismo estéril e passivo. Isso porque, no fundo, a crença e o desejo por um “salvador” só revela o traço de uma sociedade subjugada em sua cidadania e derrotada irremediavelmente em sua liberdade e autonomia.

Sim, é preciso admitir que o MPF, na parte que lhe cabe nesse processo, cometeu algumas falhas nessa jornada difícil e nunca antes tentada, mas errar de boa-fé, tentando acertar, é humanamente inevitável. Assumir nossa própria falibilidade e reconhecer humildemente os equívocos cometidos, porém, não menoscaba o papel relevante da instituição, ao contrário, só nos faz mais fortes e sábios.

O cenário dessa luta parece ainda confuso e o seu desfecho incerto, mas devo lembrar que o resgate dos 300 mil soldados em Dunquerque realizou-se na base do improviso e, por isso mesmo, deu-se de forma absolutamente desordenada, mas, ainda assim, representou um ponto de inflexão relevante em momento crucial na luta contra os alemães. A Guerra ainda duraria 5 longos anos, e, antes da vitória final, os aliados encontrariam pelo caminho muitas decepções, percalços e reveses. Tenhamos então presente que nosso trabalho está apenas no começo.


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