Eleições 2022

Entrevista ao JOTA

‘A esquerda vem forte’, prevê Janaína Paschoal sobre eleições de 2022 

Deputada estadual diz que direita precisa se unir e Bolsonaro ‘poderia ter feito mais’ pelo combate à corrupção

‘A esquerda vem forte’, prevê Janaína Paschoal sobre eleições de 2022 
A deputada estadual Janaina Paschoal (PSL) / Crédito: José Antonio Teixeira / Alesp

Eleita na onda bolsonarista de 2018 que elevou a representatividade da direita no Congresso e nas Assembleias Legislativas, a deputada estadual Janaina Paschoal (PSL-SP) opina que as águas podem mudar de lado em 2022: a esquerda pode recuperar espaço, catapultada pela candidatura do ex-presidente Lula (PT) ao Palácio do Planalto.

“A esquerda vem forte. Nós corremos risco de ter o presidente da República da esquerda e, aqui, o governador de São Paulo idem,” disse em entrevista ao JOTA, conclamando a direita a se unir: “precisamos ter ali uma resistência porque a esquerda, se ganhar, vai vir com tudo”.

Ao contrário de 2018, quando esteve ao lado do então candidato Jair Bolsonaro  sem pestanejar — e foi até cotada para ser vice na chapa —, neste ano, a deputada estadual está dividida entre ele e Sergio Moro (Podemos). Diz que está observando. Sobre o presidente, declara não ter nada contra a pessoa dele — e que Bolsonaro sabe disso.

Ao mesmo tempo em que quase isenta o presidente de críticas na condução da economia, a parlamentar afirma que ainda falta ponderação no governo e que essa política do confronto acaba por afastar aliados. Sobre a inclusão do Centrão no governo, Janaina diz que “o presidente tem que tomar cuidado para não perder a rédea do governo”.

Para concluir o capítulo de análise do governo e de Bolsonaro, a deputada declarou na entrevista ao JOTA que Bolsonaro “perdeu a oportunidade de fortalecer o trabalho da Lava Jato” e que ele “poderia ter feito mais” pelo combate à corrupção.

Sobre seu futuro político, a deputada estadual mais votada em 2018, com mais de 2 milhões de votos, diz ter batido o martelo: quer disputar uma cadeira no Senado e, para isso, vai mudar de partido. O PRTB, partido do vice-presidente Hamilton Mourão, é uma opção. Mas Janaina quer a garantia da sigla de que concorrerá à vaga de senadora, ainda que, lá na frente, haja um pedido de Bolsonaro para que ela não seja  a candidata ao cargo. Ainda que queira o Senado, ela está sendo cotada para ser vice na chapa do ministro da Infraestrutura, Tarcísio Freitas, ao governo de São Paulo. “Se eu me unisse na chapa, as chances dele aumentariam muito”, disse ela, que afirma, no entanto, não ter interesse na vaga.

Assista e leia abaixo a entrevista:

A senhora já disse que quer ser candidata ao Senado e que vai mudar de partido. A qual sigla vai se filiar? 

As decisões dos partidos não são democráticas. São decisões tomadas por duas, três, às vezes, por uma única pessoa, que é quem controla o dinheiro e para quem será distribuído o dinheiro. E os donos desse dinheiro, da caneta, é que vão decidir quem terá a candidatura autorizada ou não, e querem pessoas submissas. Todo mundo sabe que não sou uma pessoa submissa. Por incrível que pareça, muito embora tenha tido a votação mais elevada da história do país, eu não sou um quadro interessante para partido nenhum. O meu desejo é, sim, de concorrer ao Senado. Eu decidi sair do PSL já antes dessa notícia da fusão [com o DEM].

Com quais outras siglas a senhora se reuniu? Chegou a se reunir com o General Mourão, do PRTB? 

Não foi só do PRTB, recebi convite de vários, mas ainda não tenho uma decisão tomada sobre que sigla abraçar. Não me reuni com o General Mourão. Quem se reuniu com Mourão para consultar sobre a minha possível entrada no partido foram os dirigentes: a filha do falecido Levi Fidélix e o genro.

Eles foram até lá a meu pedido para consultar o general sobre a aceitação da minha entrada e, principalmente, se a minha candidatura ao Senado estaria assegurada mesmo num cenário de o presidente Bolsonaro pedir para eu não ser a candidata do partido.

A senhora, então, acha que existe uma possibilidade de o presidente atrapalhar, digamos assim, seus planos de concorrer ao Senado, de fazer um pedido?

Existe porque o presidente está acostumado — e isso é muito parecido com o PT, do Lula — com pessoas que reverenciam. Muitas das minhas críticas ao PT foram sobre essa dinâmica de religião mesmo. O pessoal do Bolsonaro tem essa dinâmica de reverência, de liderança religiosa, mais do que política. Não acho certo, então não tem sentido eu praticar. Não sei se, chegando perto ali da eleição, e eu mantendo a minha linha de atuação, se eu sendo candidata ao Senado, não vou atrapalhar, por exemplo. Quero ter segurança da minha candidatura.

Com que outros partidos a senhora chegou a conversar, além do PRTB? 

Houve um convite do Podemos, do PL, do PP, do Republicanos… Houve sondagem até do PSDB, houve convites do Agir, do Democracia Cristã. Em alguns casos, foram pessoas filiadas, deputados, em outros foram os próprios presidentes das siglas. Existe uma pressão grande para eu sair a vice do ministro Tarcísio [Freitas, da Infraestrutura]. É algo muito importante. Já disse que vou apoiar a candidatura dele, mas, se eu me unisse na chapa, as chances dele aumentariam muito,  porque eu sou paulista e tenho uma votação histórica. Tenho consciência que seria um movimento importante, inclusive, para São Paulo. Mas, não deixa de ser uma condição que te tira autonomia.

A senhora abriria mão do Senado para ser vice? 

É ao contrário. Eu quero a minha autonomia.

Então, ser vice não é uma opção tentadora? 

Não.

Tarcísio Freitas é ministro de Bolsonaro, com quem a senhora tem trocado algumas farpas… Como está a sua relação com o presidente?

O presidente me conhece. Ele sabe que não tenho nada contra a pessoa dele, que as críticas que faço não são críticas para destruir, que não sou uma pessoa falsa. O que tinha para dizer para ele, inclusive durante a campanha quando ele tinha me convidado a ser vice, eu dizia.

Quando todo mundo estava puxando o saco dele para ficar como vice, eu estava fazendo as minhas críticas, inclusive públicas, como fiz na na convenção do PSL no Rio de Janeiro. Então, eles sabem. A vantagem que tenho com relação a outros quadros é a sinceridade porque muita gente reverencia pela frente, mas mina por trás. Nunca vou fazer isso.

Qual é a sua avaliação da condução da economia?

O mundo está passando por uma situação complicada. Ainda nem estamos  saindo completamente de uma pandemia. Houve decisões que foram tomadas à revelia dele, por governadores em especial, mas também por prefeitos, que tiveram impacto desastroso na economia. Não estou falando do primeiro fechamento.

Apoiei o primeiro fechamento porque não conhecíamos a doença, o sistema de saúde não estava organizado, mas o segundo fechamento e outras medidas de restrição foram errados. Era possível conciliar a manutenção da economia com o combate à pandemia, se não tivesse havido tanto desvio de dinheiro, se não tivesse havido uma série de decisões erradas nas esferas estaduais, principalmente estaduais, mas também municipais…

Não acho justo que agora todos os ônus da crise econômica recaiam sobre o presidente. Minhas críticas a ele não são essas.

Que análise a senhora faz da gestão econômica do ministro Paulo Guedes?

Estou te falando agora o que os deputados federais me dizem. Não vou dizer quais, mas eles têm dito que o ministro Paulo Guedes não está tendo tato para lidar com o Congresso, que ele explode demais, que isso está gerando muita antipatia. Ouço mais críticas ao ministro na maneira de agir e interagir com os parlamentares do que nas decisões em si.

O ministro Paulo Guedes tem perdido algumas quedas de braço para o Centrão, que, em 2018, foi demonizado até por aliados do presidente. Como a senhora está vendo essa relação entre governo e Centrão?

O presidente tem que tomar cuidado para não perder a rédea do governo. Uma coisa é você ter que fazer alianças, outra coisa é entregar o governo. Se entregar o governo, não adianta votar nele porque não é ele quem vai governar. Tudo isso estamos observando. Agora, sempre faço um registro: não vejo diferença, por exemplo, entre o PT e o Centrão. Não acho que o PT e o próprio PSDB sejam melhores do que o Centrão. As práticas são muito parecidas.

Quando perguntamos sobre a condução da economia, a senhora disse que suas críticas ao governo não eram essas. O que incomoda a senhora no governo então?

Ainda falta ponderação, cuidar da comunicação do próprio presidente. Muitas vezes, ele está defendendo posicionamentos corretos, mas utiliza expressões inadequadas.

Os filhos ainda insistem nesse estilo youtuber, de lacração nas redes. Alguns ministros ainda precisam se cercar de assessores mais técnicos. Um certo grau de ponderação seria necessário.

Quando o presidente estava em campanha em 2018, eu falava muito para ele que ele ia ser eleito por uma pluralidade e que ele tinha que governar para essa pluralidade. E, infelizmente, ele não me ouviu porque, a cada dia, eles se fecham mais.

Algum exemplo recente que a senhora viu nesse sentido? 

É o todo. Eu acho que falta mostrar que essas pautas da defesa do negro, do homossexual, do transexual, que isso não é uma pauta da esquerda. O que a direita não quer é que usem as crianças como bandeiras dessas causas. É diferente de você ter um problema com esses grupos.

Falta estudo, leitura, consciência do que é representatividade. O próprio Sérgio [Camargo], aquele, aquele presidente da Fundação Palmares, tenta, na verdade, fazer um movimento de demonstração, de que você não precisa desmerecer o papel histórico da princesa Isabel para reverenciar o papel do Zumbi, por exemplo. Você não precisa desmerecer, como a esquerda faz e fez, até numa atitude machista, diminuindo a princesa Isabel. Você também não precisa desmerecer os movimentos daqueles que lutaram de outra forma contra a escravidão.

A senhora elogiou o ex-juiz Sergio Moro recentemente e isso acabou gerando polêmica com os bolsonaristas. A senhora decidiu se vai apoiar Moro ou Bolsonaro?

Não voto na esquerda de jeito nenhum. Se o Moro for para o segundo turno, vou fazer campanha para ele. Se o Bolsonaro for para o segundo turno, vou fazer campanha para ele. Neste primeiro momento, estou ouvindo e avaliando os candidatos.

Tenho um respeito e uma consideração muito grande pelo ex-juiz Sergio Moro. O trabalho que ele prestou para o Brasil é um trabalho impagável. A coragem, a ousadia…

Além disso, vejo como uma das pessoas mais perseguidas dos últimos tempos. Todo trabalho dele foi destruído sem nenhuma fundamentação jurídica para isso, num instrumento jurídico pelo qual o Supremo jamais poderia ter feito o que fez.

Hoje, a gente vive uma situação esdrúxula, e tenho chamado atenção dos meus colegas bolsonaristas nesse sentido, de Bolsonaro e seus apoiadores mais raiz emprestarem a tese do PT para bater no Moro, sem perceber que estão, com isso, fazendo campanha para o Lula.

A que tese a senhora se refere?

Quem criou a teoria, a ficção de que o Moro foi parcial e perseguiu o Lula, de que o Moro não puniu o Aécio, isso tudo foi tese criada pelo pelos seus bons advogados [de Lula], isso ninguém pode negar.

E, agora, estou ouvindo bolsonaristas repetindo o mantra petista. Ao proceder desta forma, eles não estão fazendo campanha para o Bolsonaro. Eles estão fazendo campanha para o Lula.

Vamos imaginar que, no segundo turno, tenhamos Lula e Bolsonaro. Como é que eles vão falar do mensalão, do petrolão, da Odebrecht, da Lava Jato se, durante o primeiro turno inteiro, eles estão entoando a teoria conspiratória petista?

Eu tenho muita admiração pelo ex-juiz Moro, acho, sim, que se houver uma terceira via, essa terceira via é ele. Mas eu ando incomodada com duas situações em torno do ex-ministro.

Que situações?

A primeira é uma proximidade muito grande com o pessoal que é Doria. O MBL é um braço do Doria, eles disfarçam, mas são. Eu fico pensando: será que é ele que é o candidato mesmo? Ou ele vai tomar as pancadas no começo para depois se retirar e o Doria entrar como terceira  via?

Segundo reportagem do jornal “O Globo”, haveria um pacto de não-agressão entre Doria e Moro…

Não sei, mas essa dinâmica está me incomodando porque não quero o governador João Doria presidente do Brasil. Preciso ter certeza de que é Moro o candidato e que não vai ter chapa com João Doria. Ainda não tenho.

Outro ponto que está me incomodando demais no comportamento do ex-juiz e, veja bem, quero deixar bem claro aqui que isso não mina em nada minha admiração pelo trabalho dele na Lava Jato, é que ele não faz uma defesa das pessoas que querem que os efeitos adversos da vacina sejam divulgados, que querem observar mais antes de se vacinarem.

Sobre Lava Jato, o ex-juiz tem criticado Bolsonaro e a falta de combate à corrupção por parte do governo. A senhora acha que o presidente ajudou a sepultar a Lava Jato? 

Ele poderia ter tomado medidas que fortaleceriam aquele trabalho de combate à corrupção. E ele realmente não tomou.

Não acho que dê para falar que ele enterrou, entendeu? Essas coisas são mais o debate do palanque político. Mas, ele poderia ter feito mais, não tenho dúvida disso e também não tenho dúvida de que ele foi eleito na rabeira do movimento do impeachment e da Lava Jato.

Diferentemente do que dizem, de que eu teria sido eleita pelo movimento bolsonarista, é o contrário: ele que se elegeu pela avenida aberta pelo impeachment e pela Lava Jato.

Em 2018, houve a onda bolsonarista, com a direita crescendo no Congresso e nas Assembleias. Agora, no entanto, temos o presidente com uma avaliação ruim de governo. A esquerda pode voltar a ganhar espaço? 

A esquerda vem forte. Nós corremos risco de ter o presidente da República da esquerda e, aqui, o governador de São Paulo idem. Não acho que não corramos esse risco. Corremos, sim.

Por isso é que tenho insistido que as pessoas que são verdadeiramente defensoras da vida, contrárias a essa instrumentalização da infância, contrárias à banalização e legalização de drogas, que essas pessoas procurem se filiar e concorram tanto para deputados estaduais como para deputados federais, porque precisamos ter ali uma resistência, porque a esquerda, se ganhar, vai vir com tudo.

O PT tem conversas e articulações para a criação de uma federação de partidos de esquerda para conseguir a governabilidade. A direita pensa em fazer algo semelhante? 

Eu propus isso para o PRTB. Conversei nesse fim de semana com o pessoal do Agir. Gostaria que pelo menos essas siglas menores, que precisam romper com a cláusula de barreira, fizessem uma federação e criaríamos duas chapas de federais e de deputados estaduais de São Paulo, nos outros estados idem, porque a federação por previsão legal tem que ocorrer no país inteiro, daí as dificuldades.

Tem algum recado para a direita?

Preparem-se melhor, sejam menos agressivos, porque infelizmente o jovem que começou a acompanhar a política agora está muito mal impressionado com a direita, e a gente corre o risco de perder uma força grande de novo para os braços da esquerda, que é mais habilidosa e mais articulada.

Está na hora de ter quadros mais preparados. Infelizmente essa onda de 2018 levou muita gente sem preparo para dentro do Congresso. Precisamos eleger gente com consistência, seja para dar apoio para um governo eventualmente de direita, seja para fazer a resistência a um governo de esquerda.

Se não tiver consistência, essa coisa de ficar lacrando na internet não vai levar ninguém a lugar nenhum. Como não tem trazido, né?