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Estudo

TrateCov indicava cloroquina e outros remédios sem eficácia a quase todos pacientes

Após polêmica, saiu do ar aplicativo desenvolvido pelo Ministério da Saúde que orientava médicos em “tratamento precoce”

Ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello, participa de audiência no Senado (Foto: Leopoldo Silvao/Agência Senado)

Não durou uma semana o aplicativo TrateCov, lançado pelo ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, na semana passada em visita a Manaus e propalado pelo general da ativa como uma diretriz para o “tratamento precoce” da Covid-19. 

Ao analisar o código fonte do aplicativo, o JOTA Labs constatou que em praticamente todas as formas de preenchimento do formulário do app levariam à combinação de um kit de remédios para tratar a Covid-19. Não há comprovação científica de que tais medicamentos funcionem no tratamento da doença.

O objetivo do Ministério da Saúde era testar o TrateCov em Manaus, que passa pelo pior momento da pandemia, com a perspectiva de expandir seu uso para outras regiões do país. A intenção esbarrou nas críticas de especialistas e até do Conselho Federal de Medicina (CFM), que se manifestou em nota, nesta quinta-feira (21), pedindo ao ministério a retirada imediata do ar do aplicativo TrateCov.

O aplicativo era bastante simples. Trazia um formulário (anamnese) com 52 campos de informações sobre o paciente para serem preenchidos por profissionais de saúde cadastrados. Ao final, o aplicativo calculava o escore do paciente, uma “pontuação de gravidade” entre 0 a 92 sem qualquer sofisticação quantitativa, a partir do qual recomendava seis opções de tratamentos para o médico prescrever. O problema: o aplicativo faz uma combinação de tratamentos com a prescrição dos medicamentos hidroxicloroquina, cloroquina, ivermectina, azitromicina, doxiciclina e sulfato de zinco em 30mg ou 50mg. Nenhum destes medicamentos tem eficácia comprovada contra a doença

Além disso, caso o médico optasse por não receitar um dos seis tratamentos sugeridos pelo aplicativo, ele precisaria informar no próprio aplicativo o motivo pelo qual não prescreveu um tratamento — por exemplo, pora “recusa do paciente”, “contraindicação médica” ou “falta do medicamento”.

Apesar de a ferramenta ser voltada a médicos, qualquer um poderia simular uma consulta com o aplicativo TrateCov, o que fez com que vários testes e memes fossem publicados nas redes sociais ao longo desta quarta-feira (20).

TrataCov: o código-fonte

O JOTA analisou o código fonte do aplicativo e constatou que, de todas as informações do paciente, apenas 28 informações distribuídas em três seções do formulário podiam influenciar o escore do paciente. 

Essas informações são relacionadas a manifestações clínicas da Covid-19, sinais de gravidade e a presença de sintomas de falta de ar.

Todas as combinações levavam a indicação da prescrição dos mesmos seis tratamentos. Apenas com modulação para a quantidade de sulfato de zinco, que aparece com a opção de indicação de 30mg ou 50mg.

Uma pergunta no questionário que chamou bastante a atenção, mas que também não exercia qualquer efeito no resultado da pontuação, era se o paciente apresentava calvície ou alopécia. 

As simulações realizadas mostraram que o app recomendava sempre os mesmos seis tratamentos para qualquer paciente, com qualquer combinação dos valores e informações do paciente. Inclusive, sem levar em consideração informações de idade, sexo, peso, exposição ao vírus e hábitos de vida. Nem se o paciente é homem ou mulher, jovem ou adulto saudável, ou idoso com múltiplas comorbidades.

A seguir, o JOTA extraiu a pontuação completa das variáveis que são consideradas no aplicativo do governo:

Presença de anosmia?Pontuação
Sim6
Não0
Presença de disgeusia ou hiposmia?
Sim5
Não0
Contato domiciliar com caso confirmado de COVID-19?
Sim4
Não0
Contato no trabalho com caso confirmado de COVID-19?
Sim1
Não0
Sintomas inespecíficos
Febre3
Fraqueza3
Fadiga3
Perda de apetite3
Tontura3
Sintomas gripais
Tosse seca3
Sinusite3
Congestão nasal3
Dor de garganta3
Rinorréia3
Cefaléia/ dor de cabeça3
Sintomas de dengue
Artralgia3
Hiperemia conjuntival3
Dor em coluna torácica3
Dor em membros inferiores3
Mialgia3
Lombalgia3
Cervicalgia3
Dor retrorbital3
Sintomas gastrointestinais
Dor abdominal3
Diarreia3
Náuseas3
Sinais de Gravidade
Saturação de oxigênio < 92% em ar ambiente?
Sim5
Não0
Presença de falta de ar?
Sim5
Não0

A prescrição dos tratamentos começava com uma pontuação bastante baixa. O critério de decisão do algoritmo era simples: se o paciente obtivesse uma valor entre 4 e 5 pontos, o app já indicava como “provavelmente Covid-19”. E para qualquer valor de pontuação superior a 6, o app indicava “diagnóstico de Covid-19”.  

De todas as 268 milhões de diferentes possibilidades de responder ao formulário, em apenas cinco o paciente não alcançava pontuação igual ou superior a 4. Ou seja, bastava o paciente relatar que teve diarreia, alergia ou perda de apetite para receber a indicação de iniciar o “tratamento precoce” proposto pelo Ministério da Saúde, como apresenta a figura a seguir: