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Organizações e empresas se movimentam para impedir racismo no transporte

Preconceito impacta mobilidade urbana, e novas iniciativas buscam mudar esse cenário

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Crédito: Unsplash

Um dos capítulos mais tenebrosos da história do Brasil, a escravidão foi abolida por aqui em 1888, após um processo tardio se comparado ao restante do mundo. Desde então, vimos avanços significativos no país ligados ao combate da segregação e do preconceito, mas ainda há muito a evoluir nessa questão. As feridas seguem abertas, e os negros sofrem pela cor de sua pele.

O racismo impacta a sociedade de diversas formas, inclusive na mobilidade urbana. “A população negra, vista como suspeita, passa por violências raciais e perseguições em todos os espaços nos quais está presente”, afirma o antropólogo Paíque Santarém. Em maio deste ano, o autor lançou um livro, do qual foi co-organizador, chamado “Mobilidade Antirracista” (editora Autonomia Literária), para ajudar na conscientização sobre o tema.

O pesquisador fala sobre a divisão das cidades em territórios majoritariamente brancos e negros. Nestes últimos bairros, percebe-se uma infraestrutura mais precária. “O transporte público, muitas vezes, segrega em vez de unir. Tira os negros do centro. E quando o trabalhador sai de seu território, vai violentado, em uma estrutura de ‘tortura light’”, diz Santarém, que já passou por situações que vão do ônibus não parar para ele quando acenou ao assento ao seu lado ficar vazio, mesmo com o coletivo cheio.

Lançada no mês passado, uma pesquisa realizada com usuários da 99 e outros transportes por app mostrou que o medo de ser vítima de preconceito fez com que 24% dos negros e pardos evitassem utilizar algum tipo de transporte. Os principais meios rejeitados são ônibus (40%), vans (13%) e metrô (10%). Quase metade dos entrevistados já presenciou preconceito em ônibus, trens, vans e metrô – e um em cada cinco negros relata que foi vítima de discriminação nesses locais. 

Na análise, carros próprios e veículos por app foram citados como os mais seguros em relação a esse problema, com 72% e 32% das respostas. Para incentivar a diversidade e combater o preconceito, a empresa – que conta também com o grupo interno 99Afro, de promoção à equidade na companhia – lançou o Guia da Comunidade 99. 

Voltado para passageiros e motoristas, o compilado busca a conscientização e a criação de ambientes baseados no respeito. Em casos de racismo, por exemplo, há canais de denúncia da própria 99, além dos meios oficiais – já que se trata de um crime -, e ferramentas como a gravação do áudio da corrida. Após a queixa, a 99 garante bloqueios, apoio às investigações e outros procedimentos previstos.

“A pesquisa fortalece a necessidade de investirmos no combate ao preconceito, seja promovendo o respeito através de materiais como o Guia da Comunidade 99, seja aplicando uma política de tolerância zero em casos de discriminação”, diz Erica Tavares, Gerente Sênior de Experiência do Usuário da 99 e integrante do 99Afro.

Papel na transformação social

Assim como o poder público, as empresas possuem papel fundamental na transformação social. Uma companhia como a 99 inclui uma comunidade de mais de 20 milhões de passageiros e motoristas. Ou seja, uma iniciativa bem sucedida traz grande impacto no país e impulsiona mudanças nas políticas do governo. É necessário criar um ambiente de negócios que preserve direitos e gere mudanças positivas. 

“Para combater o preconceito, é preciso não pactuar com os racismos já existentes, falar sobre isso e entender que, como diz a autora Angela Davis, não basta ser não ser racista, é preciso ser antirracista”, afirma Glaucia Pereira, fundadora do instituto de pesquisa Multiplicidade Mobilidade Urbana. “Várias políticas públicas na mobilidade não foram pensadas para combater o preconceito, e pior, podem ter aparecido para reforçá-lo. Em regiões com mais negros, há menos frequência de ônibus, os veículos são antigos, existem linhas que deixam de funcionar aos finais de semana ou à noite. Assim, a população não se sente bem-vinda, acaba excluída e não consegue realizar suas atividades na cidade”.

No ano passado, o Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP) lançou o projeto “A Cor da Mobilidade”. O objetivo é mostrar, a partir de uma série de reportagens, como os sistemas de mobilidade urbana acabam impactados pelo racismo histórico, abordando questões como baixa representatividade e dificuldade de acesso a modais. “Buscamos que gestores públicos e organizações da sociedade civil reconheçam este problema estrutural”, afirma Mariana Brito, coordenadora de comunicação da entidade. “Construir e implementar políticas que sejam sensíveis à raça são caminhos importantes para que o deslocamento de pessoas negras se mostre mais seguro e acessível”.