Nova Economia

Metodologia

Afinal, pesquisas ou enquetes?

Informações geradas sem embasamento científico prejudicam o debate sobre delivery

jornada de trabalho
Entregador de delivery / Crédito: Divulgação Ifood

As pesquisas fazem parte da nossa vida e contribuem de forma relevante para a tomada de decisão. Sem dúvida, trata-se de uma ferramenta estratégica importante para nortear planejamentos e padrões de ação de empresas e governos, contribuindo de forma positiva para a sociedade.

A exemplo disso, temos as pesquisas quantitativas, aquelas que têm uma ênfase numérica, na qual os resultados podem ser quantificados. Esse tipo de pesquisa é utilizado, por exemplo, para avaliar o comportamento de consumo ou opinião sobre determinado assunto, tanto de um grupo específico de pessoas quanto da sociedade como um todo.

Os resultados obtidos em uma pesquisa quantitativa representam a opinião do universo do estudo e, para que eles sejam efetivos, é fundamental que a pesquisa obedeça a critérios estatísticos para a seleção da amostra e que seja definido o seu tamanho. É importante ressaltar que analisar apenas o tamanho da amostra não é o suficiente para determinar se ela é de boa ou de má qualidade: o fato de uma amostra ser maior não significa que seja melhor. Mais importante do que o seu tamanho é a sua representatividade, ou seja, o seu grau de similaridade com a população em estudo. A opinião de um grupo de pessoas selecionado sem critério não representará a opinião da população estudada.

Em um dos exemplos clássicos que a história conta, o periódico americano The Literary Digest, que vinha de um histórico de quatro acertos consecutivos nas pesquisas de eleição presidencial de 1920 a 1932, utilizou uma amostra de mais de 2 milhões de formulários para realizar a pesquisa eleitoral do ano de 1936. O resultado previa a vitória esmagadora de Alf Landon, membro do partido republicano. Com uma amostra de apenas 50 mil casos¹, selecionados seguindo critérios estatísticos, George Gallup acertou precisamente a vitória esmagadora de Franklin Delano Roosevelt, membro do partido democrata. Para a época, seus critérios inovadores de seleção amostral revelaram que a técnica supera a quantidade.

Em uma conversa com a Andrea Braga, especialista em pesquisa de mercado e atual diretora do IPEC —empresa que sucedeu ao IBOPE Inteligência, um dos principais institutos de pesquisa do país—, ela ressaltou que é importante respeitar os conceitos estatísticos e é papel do pesquisador se munir do máximo de informações possíveis relacionadas ao universo a ser pesquisado para, a partir dessas informações, definir a melhor técnica de amostragem, melhor metodologia de coleta dos dados e o melhor instrumento de coleta (questionário), com o objetivo de minimizar os erros amostrais e não amostrais, garantido assim a qualidade dos resultados.

A prestação de serviço de entrega de comidas e encomendas por meio de plataformas tecnológicas ganhou especial destaque desde o início da pandemia. Como consequência disso, vimos surgir o debate sobre políticas públicas adequadas para a categoria.

Diferentemente de algumas profissões tradicionais como é o caso dos trabalhadores domésticos, atendentes de lojas ou garçons, por exemplo, nas quais as horas de trabalho e a remuneração tendem a ser mais homogêneas e seguem, em sua maioria, critérios hierárquicos de cargos e funções, os entregadores de aplicativo representam uma população heterogênea. Eles podem utilizar a plataforma como a sua fonte de renda principal ou apenas como um complemento de renda, o que afeta diretamente as horas dedicadas na plataforma e, em consequência, a sua renda final. Se não entendermos isso, estaremos errando na missão de melhorar sua situação.

A noção da realidade do trabalho dessas pessoas, o debate sobre o tema e a valorização do trabalho dessa categoria são absolutamente fundamentais. Para fazermos jus a esse desafio, precisamos de informação confiável e de escuta ativa das demandas desses trabalhadores e trabalhadoras.

Nesse contexto, têm-se multiplicado pesquisas. Muitas delas utilizam como ponto de partida grupos de entregadores nas redes sociais (Facebook, WhatsApp, Twitter e Instagram) que utilizam como ferramenta de coleta de informação os questionários online, nos quais o respondente não é identificado.

Em uma das pesquisas mais divulgadas até agora na mídia, por exemplo, os participantes compartilham o questionário com outras pessoas, para que também participem da pesquisa, e dessa forma ela é passada adiante, sucessivamente. Nesse caso, o problema que surge é a falta de controle e a consequente falta de representatividade, pois não há nenhuma garantia de que apenas entregadores participaram da pesquisa. Além disso, a porta de entrada da pesquisa são as redes sociais, que estão a cada dia mais polarizadas, o que pode comprometer a representatividade do estudo. Dito isso, podemos concluir que, na prática, quando há auto seleção do entrevistado, as informações coletadas deixam de figurar uma pesquisa e passam a ser uma enquete, uma vez que não há controle sobre quem está participando, e se representam ou não o universo sobre o qual se quer investigar.

Ainda segundo Andrea Braga, especialista do IPEC, ao realizarmos uma pesquisa, os critérios de seleção da amostra precisam ser definidos de forma a representar de fato o universo. Esse critério deve permitir capturar os diferentes perfis, sem incluir viés de seleção.  Para tal, deve-se utilizar um processo de seleção da amostra para assegurar a aleatoriedade.

Os pesquisadores que estão, de fato, comprometidos com a construção de melhores sistemas de geração de oportunidade e renda para os trabalhadores devem seguir premissas estatísticas para que as informações geradas sejam confiáveis para refletir a realidade do tema proposto e contribuir na solução do problema. Uma amostra construída sem critérios, ainda que seja uma amostra grande, pode não representar o universo, e consequentemente o resultado do estudo pode não ser válido, levando a conclusões equivocadas.

Os resultados divulgados são utilizados, muitas vezes, como fonte de informação para formadores de opinião, sociedade civil e poder público. Não respeitar o rigor de uma pesquisa é, ainda que de forma não intencional, gerar informações que contribuem com a desinformação da sociedade.

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¹ Case Study I: The 1936 Literary Digest Poll