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No setor público, sem concurso ou indicação política

Startup seleciona, treina e acompanha jovens para atuar no serviço público e produzir impacto em escala

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Turma de trainees da Vetor Brasil durante treinamento em São Paulo - Crédito: Divulgação/Vetor Brasil

Costuma-se pensar que, para entrar no serviço público, é necessário prestar um concurso ou ser próximo de algum partido político que possa arranjar um cargo em comissão. Mas a startup Vetor Brasil mostra que há uma terceira via. Ela faz a ponte entre jovens talentos e governos que buscam oxigenar o setor público em vez de recorrer a compadrios.

A iniciativa surgiu num contexto de aumento pelo mundo do empreendedorismo de impacto social. No Brasil, segundo um relatório da Aspen Network for Development Entrepeneurs (ANDE), apesar da crise econômica, o investimento em negócios que buscam soluções para problemas sociais e ambientais cresceram de US$ 177 milhões para US$ 186 milhões de 2014 a 2016.

No caso dos 18 funcionários da Vetor Brasil, a missão é ter impacto de alto nível e em escala no serviço público brasileiro. Tradicionalmente associado à letargia, o setor público muitas vezes ficava fora dos planos de carreira de jovens que não queriam prestar concurso ou se envolver politicamente. Nos últimos anos, o interesse em melhorar a gestão pública e empreender em áreas de impacto social mudou o cenário.

Em linhas gerais, o objetivo da Vetor Brasil é atrair talentos interessados em trabalhar no governo, selecioná-los para atuar nos órgãos por meio de termos de cooperação e desenvolvê-los com treinamento e acompanhamento. “Nossa missão é criar uma rede de talentos para potencializar o setor público”, diz Joice Toyota, fundadora do Vetor Brasil. “Muitos diziam que essa demanda não existia para o governo”.

Não é isso que os dados dos programas de treinamento da startup mostram até aqui. Nos últimos anos, mais de 50 mil pessoas participaram de seus processos seletivos, numa progressão acelerada da busca: saltou de 1.700 inscritos em 2014 para 16 mil, em duas etapas, no ano passado. Neste ano, Toyota espera que as inscrições, que estão abertas até o final de setembro, cresçam ainda mais.

Entre os inscritos, 260 já ocuparam cargos em mais de cem órgãos públicos de 45 governos municipais e estaduais das 27 unidades federativas. Eles atuam em governos de 10 partidos políticos diferentes.

O processo de seleção não é simples. São seis etapas até que o candidato assuma uma função em um órgão público, que vão de testes específicos, entrevistas com gestores do Vetor e com o próprio departamento em que será alocado.

Eles também passam por um programa – realizado por meio de um algoritmo de metodologia própria da Vetor – que analisa diversas variáveis, como as competências, resiliência, capacidade de trabalho em equipe e disposição para se mudar a trabalho, uma vez que 90% dos trainees têm de mudar de estado para exercer os cargos.

Depois de aprovados na seleção, eles passam por cem horas de treinamento na sede da companhia, em São Paulo, onde imergem na cultura da startup. Outras cem horas de aulas online acontecem ao longo do período em que trabalham para ampliar as noções sobre o funcionamento do setor público. Ainda recebem mentoria para o planejamento da carreira e, nos primeiros três meses na função pública, são acompanhados por um coach.

Durante toda a trajetória, os trainees são acompanhados pela Vetor. Uma das razões é motivá-los diante do cenário adverso encontrado nas repartições e pela dificuldade de adaptação a outras culturas. “Em algum momento, todos eles vão querer desistir”, pondera Joice.

Ela fala com a propriedade de quem já viveu na pele o desafio de atuar no setor público. No início da década, ao trabalhar numa renomada consultoria internacional, fez parte de um projeto na secretaria de Educação do Amazonas. Lá, observou em primeira mão os processos que faziam com que os serviços nas escolas – como a entrega de merenda ou a presença de professores – fossem afetados. “Vi que eu era capaz de fazer uma mudança”, diz.

Depois de finalizado o projeto, deixou a consultoria e foi atuar numa reforma educacional na secretaria de Educação de Goiás. Então, em 2014, fundou junto com José Frederico a Vetor Brasil.

Esse acompanhamento ajuda a medir os resultados da iniciativa. “Fazemos pesquisas mensais com os trainees para acompanhar a experiência, assim como uma avaliação final”,  afirma Marco Camargo, diretor de sustentabilidade financeira. “Também realizamos uma pesquisa para entender a satisfação dos governos com quem trabalhamos. Essas pesquisas têm como objetivo medir o impacto, mas também buscar formas de melhorar o nosso trabalho”.

Os números apresentados nesses levantamentos têm sido favoráveis. Mais de três em quatro gestores que receberam os trainees recomendam fortemente a experiência. Na turma de 2017, 62% dos trainees seguiram nas funções depois dos 12 meses previstos do programa.

Para os trainees, a experiência também tem sido satisfatória: 73% deles recomendam a iniciativa e 80% dos que passaram pela Vetor trabalham com áreas de impacto no setor público, no terceiro setor ou em organismos multilaterais.

Nos governos, esses jovens ocupam cargos comissionados – que costumam ser mencionados no noticiário com frequência por motivos pouco republicanos. Para evitar riscos à integridade do programa, ao alocar os trainees, a Vetor Brasil mapeia o contexto dos órgãos públicos.

Uma preocupação estratégica é com a estabilidade política do departamento em questão. “Já tivemos casos de secretários que saíram por questões políticas, caíram ou foram retirados do cargo, por exemplo. E isso atrapalhou muito os processos. Se fazemos uma alocação em um órgão onde o responsável é afastado, o maior prejuízo que o profissional alocado tem é o custo de oportunidade”, diz Joice.

Eles também buscam dimensionar a relevância do projeto e o interesse político para que ele aconteça ao fazer suas parcerias.

Diversidade

Na Vetor Brasil, o termo trainee é utilizado no gênero feminino. A ideia por trás da estratégia é reforçar o “convite para que mais mulheres ocupem espaços na gestão pública brasileira”, segundo seu próprio site.

Essa questão tem sido central dentro da startup. Joice conta que o movimento surgiu a partir de percepções do perfil dos inscritos nos processos seletivos e das discussões entre coletivos de minorias sociais criados por trainees dentro da comunidade Vetor.

Para tentar atrair mais pessoas das regiões Norte e Nordeste, por exemplo, a empresa aumentou a exposição do programa nesses locais, realizando investimento mais altos em mídia programática localizada. Estratégias como essa fizeram com que recebessem candidatos de todos os estados brasileiros.

A startup também ampliou a participação de homens como avaliadores, até então em menor número, para haver equilíbrio de gênero na seleção dos candidatos.

Com ações pró-diversidade, mais que triplicou o número de inscritos que se autodeclaram negros e pardos de 2016 para 2018. Neste ano, o Coletivo Vetor dos Pretxs preparou as finalistas negras e pardas para as entrevistas do processo seletivo.

A preocupação da startup se justifica. Segundo dados do InfoGov da Escola Nacional de Administração Pública (ENAP), mulheres ocupam quase 50% dos cargos DAS1-3, os que compõem a base do funcionalismo público. Já para os cargos DAS 6, topo da carreira, essa proporção é inferior a 20%.

Em dimensão menor, acontece algo semelhante com negros e indígenas, que estão em quase 35% dos cargos DAS1-3, mas são menos de 25% dos cargos do topo do funcionalismo federal.

A avaliação dos governos

Alguns gestores públicos viram na iniciativa uma forma de oxigenar suas equipes e estimular novos desafios.

“Escolhemos a parceria com a Vetor Brasil porque identificamos a possibilidade oxigenar o trabalho público com a alocação de jovens talentos selecionados por meio de um processo que identifica as potencialidades de cada um e as sintoniza com as necessidades das vagas”, diz Pedro Henrique Trindade de Souza, gerente de inovação na gestão na Secretaria de Gestão e Recursos Humanos do Espírito Santo, que recebeu 12 trainees em seu departamento.

Segundo Souza, os trainees trouxeram motivação para a equipe, agilidade, conhecimento técnico significativo e, “principalmente, vontade de construir um serviço público melhor”.

“Quando eles têm dificuldade em alguma etapa, não poupam esforços para buscar novos conhecimentos e aplicá-los nas atividades”, ressalta o gestor. “Eles trouxeram frescor e novas possibilidades para os trabalhos. Conseguiram nos ajudar a desatar nós logo nos primeiros dias. Hoje, o trabalho flui com harmonia e agilidade. Resolvem as demandas existentes e criam novas demandas por conta própria reforçando a sede que têm por enfrentar desafios.”

O diretor de procedimentos e logística da Agência de Transporte do Estado de São Paulo (ARTESP) Nelson Raposo de Mello Junior afirma que os trainees trabalham com “brilho nos olhos”.

“Embora a maioria das pessoas com quem trabalhe atualmente sejam envolvidas e muito empenhadas em suas tarefas e funções, é inegável o contagiante empenho em apresentar novos olhares sobre atuais e antigas questões existentes no departamento pelos trainees”, avalia Raposo.


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