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Serviços públicos inteligentes: a revolução smart city

Sensores, análise de dados e colaboração humana são os ingredientes de uma notável transformação

smart city
Crédito: Unsplash

O conceito de cidade inteligente (smart city) representa uma das grandes revoluções que as novas tecnologias estão proporcionando ao nosso modo de vida em sociedade. A mais visível aplicação dos modernos sensores e algoritmos que formam o núcleo tecnológico do conceito de smart city é a transformação pela qual passam os serviços públicos em diversas cidades do mundo. Essa revolução, a modelagem de serviços públicos “inteligentes”, exige, contudo, uma forte participação dos cidadãos locais, o núcleo humano do conceito.

A associação dos elementos tecnológico e humano permite afirmar que os serviços públicos inteligentes dependem de três fatores decisivos: a) a internet das coisas (IoT); b) a análise big data; c) a colaboração entre os cidadãos locais.

1 – Internet das coisas (IoT)

A internet das coisas, usualmente designada pela sigla IoT (internet of things), permite que sensores inteligentes se conectem aos mais variados equipamentos e objetos e coletem informações tanto sobre o uso da coisa em si quanto do ambiente em que ela está inserida.

É a partir da tecnologia IoT que se pode extrair informações em tempo real de veículos, postes de iluminação pública, coletoras de lixo residencial, hidrantes e vagas demarcadas em vias públicas, dentre outros exemplos.

Sensores colocados em ruas próximas a pontos com histórico de congestionamento podem identificar ou prever um modelo de movimentação de veículos (bluetooth tracking) e assim antecipar pontos de estrangulamento, recomendando novos trajetos a motoristas.

Também é possível que sensores em área reservadas ao estacionamento público de veículos ofereçam, em tempo real, um mapa das vagas livres. Por meio de um aplicativo, o motorista pode sinalizar que deseja uma vaga e, assim, a depender da localização enviada pelo veículo, receber avisos das vagas públicas mais próximas. No lugar de o motorista fazer a busca, a vaga “se oferece” a ele[1].

A mobilidade urbana é a “alma” das aplicações para serviços públicos inteligentes. A transformação é de tal ordem que já há cidades que nem pensam mais em modais concorrentes ou desconexos, mas em uma grande interação que transforma a mobilidade urbana em um serviço único, com atores integrados por aplicativos. O foco da atuação não é o modal, é o cidadão.

O conceito de mobilidade como um serviço, ou MaaS (Mobility as a Service), tem origem na reformulação dos serviços de transporte público de Helsinque. Desde 2016, os moradores da capital finlandesa podem usar o aplicativo “Whim”, que integra todos os modais de transporte e oferece a opção de locomoção mais eficiente[2]. Os usuários têm a opção de uma assinatura mensal ou ir pagando à medida que consomem os serviços, o que garante um verdadeiro marketplace de serviços de transporte, com interface facilitada e opções para todos os bolsos.

Nem só de mobilidade urbana viva a revolução em curso. Serviços como fornecimento de água e energia podem ser beneficiados com sensores inteligentes que detectam consumo excessivo ou adequação de consumo a tempos de escassez de água ou energia. Dessa forma, é possível sinalizar bom e mau comportamento do usuário e adotar uma política de incentivos.

É possível pensar além: uma integração entre sensores de água e energia pode detectar vazamentos em casos que o consumo de energia se mostra ausente e o consumo de água aparece constante. Aliado a uma sinalização de ausência do morador por meio de aplicativas, a companhia de água poderia emitir avisos de alerta e em seguida suspender o fornecimento.

Na coleta de lixo urbano a tecnologia IoT pode levar economia a contribuintes. Basta imaginar sensores inteligentes em lixeiras colocadas nos bairros mais populosos, auferindo o peso em seu interior. Isso poderia fazer com que a coleta fosse otimizada para as vias e condomínios com maior lixo depositado, utilizando-se um percentual de controle para sinalizar que a coleta em outras partes pode aguardar mais um pouco.

Sensores inteligentes em postes de iluminação pública podem detectar menos fluxo de pessoas e veículos, diminuindo automaticamente a intensidade da luz e gerando economia. Câmeras de observação podem detectar movimentos suspeitos e se comunicar de forma imediata com as forças policiais, garantindo eficiência na segurança pública em áreas críticas. A própria câmera poderia guiar a direção e a intensidade da iluminação em direção a um suspeito[3].

2 – Análise big data

Big data é o processamento de uma grande quantidade de informações por avançados programas de análise, a fim de elaborar modelos preditivos de comportamento ou acontecimento, aumentando a eficiência da área que fornece os dados[4].

A partir da coleta de dados enviados por sensores inteligentes nas várias ruas de uma cidade seria possível, por exemplo, estabelecer um modelo de congestionamento para todos os horários de pico, antecipando mesmo em horas os engarrafamentos, o que permitiria indicações para os motoristas seguirem nas próximas horas ou mesmo dias. O padrão de coleta de lixo de cada bairro também poderia compor um modelo que tornasse mais eficiente o serviço por toda a cidade.

Na área da mobilidade urbana haveria a possibilidade de determinar um padrão de deslocamento de habitantes locais e turistas em diversas circunstâncias, tais como feriados, eventos tradicionais, festas populares e mesmo no dia a dia comum da cidade.

Um mapeamento do possível modelo de deslocamento poderia servir tanto para guiar os motoristas de táxis e aplicativos quanto para definir novas linhas ou alterar linhas existentes no transporte coletivo, da mesma forma que sinalizaria a instalação de estações de bicicletas e patinetes elétricos, num movimento silencio de conforto e comodidade a todos os habitantes.

O cruzamento de grande volume de dados permitiria às autoridades de trânsito dispor de um modelo inteligente de temporização de sinais ou de revezamento de vagas nas áreas centrais, dentre outras notáveis melhorias.

Um fator adicional que impulsiona o uso de modelos preditivos para melhor prestação de serviços públicos é que a inovação vai ao encontro do conceito ESG (ações que respeitam os elementos ambiental, social e governança)[5], condição essencial para atração de investimentos na economia do século XXI.

3 – Colaboração entre os cidadãos locais

Para o sucesso de um serviço público inteligente é indispensável a atuação colaborativa dos cidadãos. Desde o advento da nova economia, fundada em plataformas digitais que garantem um crescimento exponencial das interações, houve uma radical mudança na relevância da participação dos usuários na elaboração do modelo de execução dos serviços públicos.

Até o advento da economia digital, viabilizada por plataformas digitais, as características dos serviços públicos de natureza econômica prestados aos cidadãos (transporte coletivo, distribuição de água e luz, telefonia etc.) eram basicamente formuladas por agentes estatais, sem muita participação dos destinatários dos serviços. Tal concepção decorre da origem francesa de boa parte do regime de concessões de serviços públicos no Ocidente: a Escola de Bordeaux e as obras de Gaston Jèze, Léon Duguit e Louis Rolland.

Ocorre que a moderna tecnologia dos aplicativos permite, como nunca antes, que os usuários de serviço público possam avaliar com facilidade e eficiência a qualidade da prestação pública que recebem, colaborando não apenas com os poderes públicos, mas principalmente uns com os outros.

Diante de uma grande quantidade de informações advinda das avaliações de milhares de usuários, é possível estabelecer um modelo mais adequado de prestação do serviço (big data), eis que agora se considera não a concepção teórica do agente estatal, mas a experiência dos usuários, colocados desta forma como ponto central na formulação do serviço público (e não mero destinatário).

Esse terceiro eixo da revolução dos serviços públicos inteligentes tem dado aos usuários de serviços públicos um papel nunca visto: o de moldar políticas públicas e controlar de forma mais efetiva a atuação do Estado. Quando cidadãos podem colaborar ativamente na elaboração do modelo, torna-se mais difícil que a prestação atenda interesses privados em face de alguma captura.

A inteligência dos serviços públicos do século XXI não se deve apenas aos elementos tecnológicos como IoT e big data, mas também ao maior poder de participação dos indivíduos na tomada de decisão sobre o modelo de serviço público (ainda que essa maior participação se deva… à tecnologia).

 


[1] Barcelona, na Espanha, aumentou a receita anual com as soluções de estacionamento inteligente, que incluem sensores no asfalto e aplicativos que guiam os motoristas até as vagas. Fonte: Smart City Barcelona Initiative Cuts Water Bills, Boosts Parking Revenues, Creates Jobs & More, Cisco, 2014.

[2] Disponível em: <https://summitmobilidade.estadao.com.br/ir-e-vir-no-mundo/como-surgiu-o-conceito-de-mobilidade-como-servico-maas/>.

[3] Disponível em: <https://www.cisco.com/c/dam/global/pt_br/offers/pdf/cis-digital-cities-whitepaper.pdf>.

[4] Jeremy Rifkin, “Sociedade com custo marginal zero”, M. Books do Brasil, São Paulo, 2016, p. 25.

[5] Disponível em: <https://economia.estadao.com.br/noticias/governanca,o-que-e-esg-e-por-que-esse-conceito-ganhou-importancia-no-mundo-dos-negocios,70003399787>.