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GovTechs brasileiras são destacadas por consultoria de professora de Cambridge

Colab e Gove foram mencionadas no relatório da StateUp, sobre startups com potencial de transformar governos

População brasileira
População brasileira é beneficiada por GovTechs que atuam para modernizar o setor público / Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil
O texto foi alterado às 11h55 de 13/4 para corrigir a informação de que a professora citada pertence à Unividade de Cambridge, e não de Oxford como foi informado anteriormente.

A ebulição do ecossistema brasileiro de GovTechs tem atraído atenção internacional. Com um rico mercado doméstico, influenciado pelo tamanho do país e pelas dificuldades econômicas-sociais peculiares, as startups que têm como missão institucional modernizar o setor público no Brasil se tornaram referências em estudos sobre o tema.

No início deste ano, a StateUp, uma consultoria britânica focada em inovação digital com propósito público, fundada pela professora da Universidade de Cambridge Tanya Filer, publicou o relatório StateUp 21 – Data-driven insights into global GovTech, em que destaca as 21 GovTechs ao redor do mundo com grande potencial de transformação de governos. Listou, também, as oito empresas deste setor para ficar de olho em 2021.

Dentre as 21 empresas mais promissoras, a brasileira Colab, que atua com o propósito de conectar cidadãos e gestores públicos, é a única representante não só do Brasil, mas de toda a América Latina, a aparecer na lista. Ao lado dela estão empresas nativas de Israel, Bélgica, Reino Unido, Índia, Bélgica, Suécia e Estados Unidos.

Já em relação às startups para se acompanhar durante o ano está a brasileira Gove, focada na digitalização da gestão financeira dos municípios. Neste índice, há três GovTechs fundadas na Argentina, além de uma na Alemanha, duas no Reino Unido e uma em Israel.

“Apesar dos obstáculos burocráticos, o Brasil oferece um terreno fértil para o crescimento das GovTechs, com seus 5.570 municípios, 26 estados [mais o Distrito Federal] e inúmeras agências do setor público”, afirma Tanya Filer, em entrevista ao JOTA. “O Colab e a Gove foram selecionadas porque trazem um profundo entendimento contextual do mercado brasileiro, que historicamente tem sido difícil para as empresas estrangeiras entrar”, avalia.

Para Filer, a expertise adquirida por startups que atuam com os complexos desafios do setor público no Brasil traz uma vantagem em relação às de outras nacionalidades. “Se posteriormente essas GovTechs decidirem se internacionalizar, elas poderão trazer consigo uma gama heterogênea de experiências que adquiriram no mercado doméstico. Este não é o caso das startups de países menores, com poucas agências do setor público”, avaliou.

Colab: “Queremos fazer o governo ser sexy”

Há oito anos, desde que fundou o Colab, o empreendedor Gustavo Maia persegue um objetivo: melhorar o relacionamento entre cidadão e gestor público nas cidades brasileiras. Em 2013, a GovTech surgiu com duas verticais de atuação, uma de zeladoria urbana, em que os munícipes podem indicar melhorias a serem feitas pelo setor público na cidade, e outra de participação nos processos de tomada de decisão, como por exemplo votar uma proposta de plano diretor e até mesmo qual banda vai tocar em um show promovido pelo município. Toda a interação acontece por meio de um aplicativo.

Uma das primeiras cidades a negociar com o Colab foi Niterói, município no estado do Rio de Janeiro. Inicialmente, em 2013, a startup foi contratada para oferecer à população um canal de comunicação específico de encaminhamento de solicitações de serviços. Ao longo dos anos, a utilização do serviço foi ampliada, e atualmente o Colab é a plataforma que centraliza e organiza o fluxo de diversos canais de comunicação e de ouvidoria oferecidos pela prefeitura.

“Hoje, Niterói utiliza o Colabgov, que é a plataforma de gerenciamento de demandas e de governança dos dados. Utilizamos também o ‘Comunique’, que permite que o gestor envie mensagens em tempo real para toda a base de usuários cadastrados. Há, ainda, a plataforma para realização de consultas públicas”, diz Fernando Stern, coordenador de Mídias Digitais de Niterói.

Segundo dados da cidade, o Colab é utilizado por 37 mil niteroienses, que fizeram quase 40 mil publicações. A taxa de resolução das demandas é de 85%. “A popularização da ferramenta se deu por meio de uma estratégia múltipla que envolveu a divulgação pela imprensa e pelas nossas redes sociais, sempre destacando o papel central do cidadão na gestão da cidade”, afirma Stern.

Ao longo desses anos de atuação à frente do Colab, o CEO Gustavo Maia passou por um processo de amadurecimento em relação à utilização da plataforma. “Comecei a pensar como a gente poderia melhorar mais ainda o relacionamento entre cidadãos e governos? Isso ficou na minha cabeça”, diz o empresário.

Segundo ele, a pandemia da Covid-19 acabou sendo um propulsor para a transformação que a startup terá neste ano, por influência do “Brasil sem Corona”, ferramenta que foi disponibilizada dentro do aplicativo do Colab para que gestores de saúde, a partir da participação voluntária dos cidadãos que respondem questões sobre seu estado de saúde, pudessem rastrear o avanço da Covid-19 nos municípios.

A partir de março deste ano, o Colab vai lançar o novo projeto com o objetivo de se tornar o “aplicativo oficial das prefeituras”, concentrando em um só aplicativo todos os serviços digitais oferecidos pelas cidades. Para fazer essas mudanças, a startup recebeu um aporte de R$ 3 milhões da EDP Ventures.

“Do meio do ano passado para cá, a gente virou nossa tecnologia de cabeça pra baixo. Nosso objetivo é transformar o Colab em um super aplicativo de participação do cidadão e relacionamento com o governo”, afirma.

“Temos uma camada muito forte de conceito. Um exemplo é o Nubank. Bancos existem há centenas de anos, mas o Nubank foi lá e tornou isso algo legal. O nosso olhar é fazer isso com o setor público, transformar o governo em algo sexy”.

Gove: análise de dados como aliada da gestão financeira

Diferentemente de outros países, a administração pública municipal no Brasil concentra uma série de responsabilidades financeiras para colocar em prática políticas públicas importantes, como a de educação básica, de habitação e de tratamento da coleta de lixo.

Por ano, são cerca de R$ 1 trilhão movimentados pela gestão municipal. Milhares de dados também são gerados pelos sistemas que administram o dinheiro. Apesar dessa realidade, cerca de dois terços das cidades do país seguem em situação fiscal crítica, com baixa flexibilidade no orçamento.

Diante deste contexto, os engenheiros Ricardo Ramos e Rodolfo Fiori fundaram em 2018 a Gove, uma plataforma de inteligência que busca aumentar a eficiência das finanças municipais.

A plataforma, aliada a uma equipe qualificada de análise de dados, cumpre três funções objetivas: automatizar análises que as secretarias de fazenda municipais têm que fazer no dia a dia; identificar a qualidade e a legalidade dos gastos, enviando avisos diários sobre como melhorar a performance; e auxiliar o gestor para colocar essas melhorias em prática.

“As cidades do Brasil têm dinheiro, são responsáveis por políticas públicas complexas, mas não estão preparadas para isso. O município não utiliza dados para tomar decisão e isso é um dos motivos que os torna ineficientes”, explica Rodolfo Fiori.

Segundo Ricardo Ramos, o importante quando se fala em eficiência dos municípios é que cada economia traz um potencial de impacto grande, uma vez que se trata de investimento em questões que influenciam o dia a dia de toda a população.

“Não tem nenhuma outra organização tão presente nos municípios quanto as prefeituras, que investem a maior parte do seu orçamento para questões como saúde, educação e assistência social. Então, atuar com gestão pública é atuar diretamente com impacto nas populações mais vulneráveis”, diz.

Em Tramandaí, cidade do Rio Grande do Sul, o sistema da Gove é utilizado desde 2019, com a otimização dos gastos com deslocamentos de servidores e transporte escolar, além de uma atualização da Planta Genérica de Valores do município. Segundo dados divulgados pela cidade, a otimização dessas despesas gerou um retorno de R$ 2,3 milhões.

“A plataforma é eficaz na medida em que as pessoas envolvidas nos projetos possuem acessos a todos as ações em andamento, concluídas e as possíveis ações futuras, além de poderem consultar legislações, planilhas e vários outros recursos”, explica Leila de Fátima Orceno, agente de controle interno da prefeitura de Tramandaí.

Durante a pandemia da Covid-19, a Gove também foi uma aliada dos municípios ao mapear os decretos do governo federal para repassar verbas. “Até novembro do ano passado, o governo federal já tinha disponibilizado R$ 42 bilhões através de algumas leis, mas os municípios tinham gasto menos da metade. Era dinheiro em cima da mesa. Existem diversos motivos para que esse recurso não tenha sido utilizado, mas muitas vezes é ineficiência. Então essa dinâmica acabou ficando ainda mais corrida e a gente pode ajudar”, avalia Ramos.

Para os próximos dois anos, a GovTech pretende multiplicar por dez a base de municípios que atende, após ter recebido em novembro do ano passado um aporte de R$ 8 milhões realizado pela Astella Investimentos.

“Provamos o produto, vimos que ele deu certo, e agora queremos aproveitar esse momento de pós-eleição e de pandemia em que os gestores estão interessados em conhecer soluções inovadoras”, diz Fiori.