Inova&Ação

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Fundos 100% GovTech: ideias inovadoras precisam e merecem mais apoio

É preciso mudar a relação entre setores público e privado para tornar nossos governos mais eficientes

Daniel Korski é co-fundador e CEO da PUBLIC, empresa focada em ajudar startups de tecnologia. Crédito: Egert Kamenik (EU2017EE)/Flickr

O evento “GovTech Brasil”, organizado em agosto de 2018 pelo BrazilLAB e outros parceiros, teve como objetivo contribuir com a estratégia de implementação de uma agenda digital para o país. Durante dois dias, reuniu em São Paulo dezenas de especialistas brasileiros e estrangeiros nesse tema. E uma das grandes atrações do encontro foi o americano Bill McGlashan, fundador e principal executivo do fundo de investimento com maior impacto do mundo, The Rise Fund. Criado em 2016, tem como sócios o cantor Bono Vox, vocalista da banda U2, e Jeff Skoll, primeiro presidente do eBay, entre outros nomes (e dispõe de mais de 2 bilhões de dólares).

Sua missão é investir em startups com impacto social e ambiental na Índia, América Latina e Ásia – uma grande iniciativa.

Em quase uma hora de palestra, McGlashan ressaltou a importância de estabelecer métricas quantitativas e metodologias confiáveis para saber, de fato, qual é a influência gerada pelas startups – afinal, medir impacto é algo bem mais complexo do que quantificar o retorno financeiro puro de um investimento; e discorreu sobre as oportunidades existentes para que os empreendedores mais engajados busquem soluções para os complexos desafios vividos pela sociedade. São pontos pertinentes para quem deseja se aventurar nessa área.

Mas, ao ser perguntado sobre possíveis parcerias com o poder público para resolver temas sociais como saúde e educação, Bill McGlashan afirmou não acreditar que exista uma relação direta entre governos e investimentos de impacto social. Foi ainda mais enfático: disse que, devido a regras rígidas de compliance, seu fundo não pode investir em iniciativas que tenham relação com o governo.

Um comentário semelhante foi feito, no fim do ano passado, também em visita ao Brasil, pelo engenheiro Peter Diamandis, co-fundador da Singularity University (instituição do Vale do Silício, nos Estados Unidos, e autor do best-seller Abundância: o Futuro é Melhor do que Você Imagina). Ao ser questionado sobre a importância da tecnologia para o avanço do setor público no mundo e como as startups podem ajudar a gerar impacto nos governos, Diamandis mostrou-se incrédulo, afirmando que acredita muito mais na função do empreendedor, do indivíduo e da iniciativa privada do que no papel do setor público.

Concordo com McGlashan e Diamandis quando eles dizem que startups engajadas não apenas em gerar lucro, mas também no impacto social, são fundamentais para o avanço da sociedade. No livro Conscious Capitalism: Liberating the Heroic Spirit of Business (Capitalismo consciente: liberando o espírito heroico dos negócios), os autores John Mackey, um dos fundadores da rede de produtos naturais Whole Foods Market, e Raj Sisodia, professor de marketing da Bentley University, nos Estados Unidos, afirmam que um dos grandes marcos da sociedade atual é que as pessoas finalmente começaram a perceber que, quanto mais consciente se está sobre o funcionamento e a evolução do capitalismo, maior o potencial para conduzir e fazer os negócios prosperarem.

A partir dessa percepção, é possível investir em empresas baseadas em metas alinhadas com as necessidades de seu público, que tenham líderes a serviço não apenas dos interesses da corporação, mas também dos consumidores e do planeta. Essas companhias, alinhadas com o “capitalismo consciente”, tendem a construir um mundo melhor para todos nós, com prosperidade, compaixão e liberdade. Acredito muito nessa tese e, para quem ainda não conhece a obra, recomendo fortemente a leitura.

Quando falamos de progresso e desenvolvimento econômico e social, entretanto, estamos ignorando um “ator” extremamente importante nessa equação: o governo, que, no Brasil, representa cerca de 40% do PIB. Também estamos deixando de lado, por ceticismo e talvez excesso de precaução, oportunidades que as startups podem proporcionar junto ao setor público. Temos, sim, de apostar nas GovTechs e criar um ecossistema capaz de viabilizar esses empreendimentos – é aí que os fundos GovTech, destinados a investir em startups que fazem parcerias com os governos, podem exercer um papel fundamental.

Em 2018, concedi uma entrevista à revista Exame na qual abordei a necessidade de os fundos de impacto social se tornarem mais flexíveis e estabelecerem novas regras de compliance para investir também em startups GovTech. Ouso dizer que, atualmente, não existe nenhum fundo fazendo isso no Brasil. Nos Estados Unidos e Europa, ao contrário, essa realidade começa a mudar e já temos bons exemplos. Um deles é o Govtech Fund, criado no Vale do Silício em 2014, pioneiro em financiar projetos focados em tornar governos mais eficientes.

Na Europa, o destaque em 2018 foi o GovTech Summit, evento que reuniu em Paris quase 3.000 corporações, startups, investidores, acadêmicos e políticos – como o presidente francês Emmanuel Macron e o primeiro-ministro canadense Justin Trudeau – para propor parcerias entre governos e iniciativa privada.

Em uma das apresentações, Daniel Korski CBE, co-fundador da PUBLIC, instituição que organizou o evento, previu que os 400 bilhões de dólares atuais da indústria GovTech vão crescer 15% ao ano e, em 2025, atingirão o montante de 1 trilhão de dólares ao ano, sobretudo em áreas como saúde e assistência social, energia, turismo, cultura, infraestrutura, educação, transporte e mobilidade, educação, cibersegurança, recrutamento e seleção de pessoal. No Reino Unido, maior mercado mundial dessa tendência, o crescimento já chega a 20% ao ano.

É preciso mudar a relação entre os setores público e privado para tornar nossos governos mais confiáveis e eficientes, de modo que eles cumpram a função primordial de proporcionar uma boa qualidade de vida à população. Nesse processo, a tecnologia pode ter um papel fundamental para garantir que essa relação seja transparente e idônea, algo tão necessário e urgente para nós, brasileiros.

As GovTechs são iniciativas inteligentes – e certamente necessitam de recursos para viabilizar suas soluções e apoiar mudanças sistêmicas no setor público. Colocar na pauta nacional a criação de fundos 100% destinados ao fomento e crescimento dessas empresas e suas ideias inovadoras poderia começar a tirar o Brasil das amarras da burocracia e causar o impacto social necessário para colocar, de fato, o cidadão em primeiro lugar.


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