Inova&Ação

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Do sonho à realidade: uma viagem por Inovésia

O que eu vi por lá pode parecer distante, mas a tecnologia para melhorar os serviços públicos já existe

Imagem: Pixabay

Há alguns meses tive a oportunidade de conhecer Inovésia, um ex-território ultramarino britânico, hoje país independente. O convite partiu de um amigo que já havia estado lá e que me garantiu que a visita seria surpreendente. Eu nunca tinha ido a um lugar tão remoto – mais do que isso, soube que pouquíssimos brasileiros visitaram a longínqua ilha, o que me deixou ainda mais curioso.

Alguns dias depois, iniciei os preparativos. Para começar, busquei informações sobre os requisitos de imigração. O país possui um site completo, que deixa tudo muito fácil. O cadastro para o visto é feito por meio de um formulário em que se indica, além das informações pessoais de costume, todos os links para seus perfis em redes sociais. Achei isso fantástico – na Inovésia, ao invés de se entrevistar o interessado, um web crawler busca e cruza uma série de informações digitais para determinar se faz sentido autorizar certa pessoa a entrar no país. Resultado: em menos de 24h eu já tinha meu visto emitido e pronto para ser utilizado. Um detalhe, o visto – algo que normalmente vemos como um adesivo fixado ao passaporte – neste caso era um QR code recebido por email. O código pode ser impresso ou, mais conveniente ainda, armazenado no smartphone e lido em segundos pelas autoridades migratórias.

E assim entrei em Inovésia. Sem filas, sem burocracia, sem papelada.

A saída do aeroporto não foi menos fácil. De dentro do terminal, saem trens a cada cinco minutos rumo ao centro da cidade. Impressionado com a qualidade dos trens, perguntei ao Aurelius, meu anfitrião nessa jornada, de que maneira se conseguia manter o serviço a um preço razoável. No passado, gastava-se muito todos os anos com combustível, desgaste de pneus, manutenção de vias e tudo o mais que era necessário no sistema tradicional de transporte. Diante desses gastos exorbitantes, o governo resolveu chamar suas melhores cabeças para pensar em conjunto eventuais soluções. De uma proposta de pesquisadores da melhor universidade local nasceu o sistema atual, que se pauta em eletromagnetismo (magnetic levitation) para oferecer transporte a uma fração do custo de outros modos. O trem levita silenciosamente sobre trilhos magnéticos a uma velocidade de 120 km/h, sem emissão de poluentes – parece mágica!

Dentro da cidade, raramente se usa transporte privado. Paremos para pensar: imagine se fosse possível fazer desaparecer, da Avenida 23 de maio em São Paulo ou da Avenida Brasil no Rio de Janeiro, todos os carros em hora de rush, restando somente as pessoas que estão dentro deles. Essas avenidas, aparentemente tão “cheias”, ficariam automaticamente vazias. Não há, portanto, sentido algum no fato de que todos os dias gastamos energia suficiente para que um objeto de duas toneladas de metal carregue nossas meras dezenas de quilos por alguns quilômetros de distância. Fazemos isso diariamente e não paramos para pensar no absurdo. “OK, mas onde eu moro o transporte público é ineficiente.” Isso pode ser verdade, mas também é fato que já existe tecnologia para eliminar a ineficiência. Em Inovésia, é possível ver na prática o futuro do transporte: ônibus conectados com GPS, câmeras e radares; semáforos inteligentes prontos para melhor direcionar o tráfego; smart roads que se comunicam com veículos e semáforos, capturam dados e armazenam energia.

Cheguei ao hotel e, depois de um banho revigorante, fomos tomar um café. Ainda impressionado com as inovações adotadas pelo serviço público de Inovésia, perguntei a Aurelius sobre o sistema de saúde local. “Como você sabe, meu amigo, Inovésia é um pequeno país e não pode se dar ao luxo de prover saúde pública cara e ineficiente. Sendo assim, há dez anos adotamos a prevenção como forma de evitar gastos desnecessários para manter a população saudável. No início da implantação dessa política pública, sofremos muito pois não encontrávamos meio de incorporar a prevenção na rotina corrida das pessoas. Mais uma vez, a tecnologia nos salvou.

Hoje, por meio de comunicações eletrônicas, como SMS, notificações em push e email, alertamos os cidadãos sobre os medicamentos que devem tomar, os exames que devem fazer ou mesmo sobre aquela consulta que há tempos queremos realizar, mas nos esquecemos de agendar. Desde então, os custos com saúde pública reduziram em mais de quinze por cento! Nossa saúde pública deixou de jogar na defesa, para atacar as causas dos problemas.”

Licitações em Inovésia? Antes de entrar no tema, Aurelius me garantiu que cem por cento das empresas do país – repito, todas – estão cadastradas eletronicamente no banco de dados unificado do governo. A partir desse banco, qualquer órgão do governo é capaz de determinar se empresas estão aptas ou não a participar de licitações – certidões em dia, idoneidade, capacidade financeira, evidências de capacidade técnica, histórico de transações/reclamações, etc. Tudo está lá, sem necessidade de buscar diferentes fontes de informações, entrega de papeladas ou outros obstáculos. Ou seja, o que na maioria dos países é um processo burocrático, custoso e com pouca transparência, em Inovésia ocorre de maneira simples, objetiva e com visibilidade para todos os envolvidos.

Mais do que isso, os proventos para fornecedores do governo são feitos de maneira automatizada. Preenchidos os requisitos (serviço prestado ou produto entregue; pagamento devido; elegibilidade do fornecedor; e validade da contratação), os pagamentos são realizados eletronicamente, sem intervenção humana.

Nem preciso mencionar que os registros públicos em Inovésia são feitos de maneira decentralizada, utilizando blockchain. Essa prática, segundo Aurelius, causou o aumento da segurança da informação e tem facilitado o acesso da população a esses dados. Mais do que haver o registro confiável, a tecnologia permite criar portais inteligentes de acesso. Essas plataformas determinam quem pode acessar, a que tempo, de que forma e qual o limite da informação a ser disponibilizada para cada parte interessada. Outra vantagem é a possibilidade do “dono” da informação (o poder público, pessoas físicas ou jurídicas) controlarem individualmente quem acessa esses dados. Dados são o maior ativo do país.

Em seguida, Aurelius me levou a uma escola. Estava curioso para saber como aquele micro país havia alcançado índices tão altos de engajamento na sala de aula. Andávamos pelo corredor do vibrante prédio principal quando ouço um sinal estridente. Pensei que fosse o alarme da escola… quando na verdade era o meu smartphone despertando para mais um dia de trabalho em São Paulo. Em uma noite de sono, passei horas fantásticas em Inovésia!

O que eu vi por lá pode parecer um sonho distante, mas a tecnologia pra melhorar os serviços públicos já existe. Basta flexibilidade e vontade política para perseguir esse sonho, além de começar com sonhos possíveis, um desafio por vez. E isso é justamente uma das coisas que as minhas contribuições a esta série de artigos desejam despertar. Em minhas próximas contribuições, pretendo apresentar, na prática, alguns dos exemplos que citei antes e que já são ou já possam ser adotados no Brasil e em outros lugares do mundo, que provam ser possível encurtar as distâncias entre a Inovésia e o Brasil, entre sonhos e realidade.


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