Às Claras

Investimento estrangeiro

Agenda econômica míope põe em risco investimento estrangeiro futuro

Vale refletir se, no atual contexto, tais recursos são benéficos para o desenvolvimento brasileiro

Palmas- TO, Brasil- Ponte da Amizade Fernando Henrique Cardoso; construída sob o lago da Usina Hidrelétrica de Lajeado, em Palmas (TO).

Os fluxos de investimento estrangeiro direto (IED, ou FDI em inglês) para o Brasil voltaram a subir. E com eles vemos todos os dias noticiários sobre aquisições e fusões no país envolvendo grandes grupos estrangeiros. O governo e parte do empresariado celebram, mas alguns analistas se preocupam, especialmente quando o investimento em questão envolve empresas brasileiras como a Embraer – à qual nos acostumamos a olhar com orgulho e como símbolo de liderança tecnológica e projeção no mercado internacional. Neste momento, é, de fato, fundamental refletir em que contexto o investimento estrangeiro pode se benéfico para o desenvolvimento brasileiro.

IED representa uma aposta que o investidor estrangeiro faz no futuro do país recipiente. Tal aposta está ancorada em variáveis como tamanho relativo do seu mercado doméstico, custo doméstico de produção em relação a outros países, acesso a mão de obra qualificada e com capacidade de inovar e adaptar-se, infraestrutura física e social e ambiente de negócios. Nossa economia há muito tempo está entre as 10 mais atrativas para o IED, e em 2017 compartilhou com a Austrália a 7a posição em um ranking liderado pelos Estados Unidos e pela China, Hong Kong, Holanda e Irlanda. Estamos nesta posição porque, ao longo das décadas, construímos um mercado doméstico pujante, uma oferta razoável de mão-de-obra qualificada e diversificada, e porque temos recursos naturais abundantes e uma larga fronteira agrícola.

O aumento recente do IED ainda reflete estes atrativos, mas é, especialmente, fruto de uma conjuntura internacional favorável. Como aponta um relatório da Nações Unidas (https://goo.gl/TayhgP), a crise de 2008 provocou um enorme tranco dos fluxos globais de investimento estrangeiro direto, e com exceção de 2014, uma tendência de baixa. Esta trajetória reflete a incerteza dos investidores produtivos internacionais sobre o futuro da economia global. Mas, turbinadas por ganhos de capital gerados pela enorme valorização das bolsas de valores, e animados com a recuperação da economia global, muitas empresas globais, oriundas de países desenvolvidos e emergentes, voltaram a investir em economias emergentes.

Dados estes fatores estruturais e o contexto internacional, é realista a previsão que neste ano tenhamos uma recuperação dos IED, que podem chegar a US$ 80 bi – ainda muito abaixo dos quase US$ 100 bilhões de 2011, mas maior do que a média dos últimos anos. Como mencionamos, o governo brasileiro tem alardeado e comemorado este aumento. E motivos há para celebrar. Afinal, estes recursos adicionais vão ser fundamentais para cobrir o possível déficit da balança comercial frente a qualquer recuperação econômica. Garante-se, assim, o nível de reservas que temos atualmente (US$ 370 bi), importantes frente à incerteza e às instabilidades dos fluxos de capital internacional.  Também é certo que um maior investimento estrangeiro direto pode mitigar os impactos do baixíssimo investimento público a que chegamos. Por fim, mais IED, mesmo aquele movido por fusões e aquisições, pode ajudar a dar um pequeno ânimo ao investimento de longo prazo no país – deprimido pela situação fiscal, pela alta dívida de grandes empresas e pela deterioração das condições de financiamento de longo prazo.

Mas esta comemoração não pode levar a uma miopia sobre o contexto em que crescem os IED. Primeiramente, a recuperação global destes fluxos ainda é frágil. O aumento do protecionismo nos Estados Unidos e outras economias desenvolvidas, somado às políticas agressivas de repatriação das suas empresas globais, pode tranquilamente provocar uma rápida retração dos IED para economias emergentes. Uma redução do crescimento do comércio internacional pode levar as empresas chinesas e europeias a reverem suas estratégias de internacionalização. Por outro lado, do jeito que vai nossa agenda econômica, nada garante que o mercado interno brasileiro continue se apresentando como um forte atrativo para os investidores estrangeiros.

De fato, nenhum dos indicadores atuais apontam para uma melhora destas variáveis. Por exemplo, a solidez do nosso “pujante” mercado doméstico está ameaçada: o investimento público já está “no osso”, o investimento privado reprimido pela alta dívida corporativa, e o consumo privado tende a crescer pouco, em função do desemprego ainda elevado e do crescimento da informalidade, que vem com menores remunerações.

Por outro lado, como eu aponto em outro artigo, uma grande parte da atratividade de um país está associada ao seu capital físico, especialmente a infraestrutura econômica e social. E neste quesito, as notícias não são nada animadoras: como indica um relatório recente da Confederação Nacional da Industria, os investimentos em infraestrutura e logística, que vinham caindo há mais de três décadas, e estacionaram em cerca de 2,0% entre 2001 e 2015, levaram um tombo nos últimos anos. Com números assim, não surpreende que sejamos 73 no ranking de qualidade de infraestrutura dos 137 ranqueados pelo Fórum Econômico Global. Este é um dos principais fatores explicativos da nossa posição 80 (!) no índice global de competitividade, o que assusta o potencial investidor estrangeiro.

Por fim, em um país que já tem um enorme déficit de capital humano qualificado, tem havido um significativo retrocesso no investimento em educação, pesquisa e inovação. Os gastos em melhoria da oferta e qualidade da educação primária e secundária se retraem, enquanto as universidades e centros de pesquisa brasileiros passam pela pior crise da história recente brasileira, numa aberta promoção da exportação de talentos e capital humano. Não é somente que estejamos deixando de preparar uma nova geração para a revolução em curso da indústria 4.0: também estamos literalmente provocando uma depreciação do capital humano, deixando de investir nas novas gerações e expulsando aqueles que adquiriram, com alto custo público, conhecimento e capacidade inovadora.

Além da deterioração das variáveis objetivas de atração do IED, o Brasil sofre hoje de um problema da narrativa e uma falta de visão de longo prazo. O país hoje se apresenta nos fóruns internacionais com um discurso negativo sobre a trajetória de desenvolvimento econômico e social recente, fazendo parecer que tudo o que o mundo viu nas últimas décadas era puro “castelo de areia”. Não há tampouco nenhuma visão consistente sobre o futuro do desenvolvimento que convença os investidores estrangeiros que este é um pais de futuro, além das promessas de aprovação de reforma e manter “o dever de casa” fiscal – promessas que garantem um retorno elevado e seguro dos investimentos financeiros de curto prazo, mas estão longe de ser uma plataforma crível de crescimento de longo prazo.

É sempre importante lembrar que na maioria das economias emergentes, especialmente na China e Índia, o investimento estrangeiro direto desempenhou um papel fundamental em atrair capital, tecnologia, conhecimento e acesso ao mercado internacional. Nestes exemplos de sucesso, atrair estes investimentos sempre fez parte de um projeto de desenvolvimento de longo prazo claro, onde também se criaram condições domésticas para que empresas nacionais se expandissem e aproveitassem de parcerias para se tornarem grandes “players” nacionais e internacionais. Algumas destas empresas, notavelmente as empresas públicas chinesas, são as que agora batem em nossas portas e lideram processos de fusão e aquisição.

Ou seja, os IED são instrumentos inequívocos de desenvolvimento quando o país hospedeiro tem uma clara estratégia de longo prazo, está investindo no seu capital humano e físico, e oferece as empresas nacionais instrumentos e incentivos para maximizarem as parcerias com investidores internacionais. Mas não o são quando os IED servem somente para resolver problemas de balanço de pagamentos e/ou das dificuldades conjunturais de grandes empresas nacionais.

Se há motivos para comemorar a confiança que empresas estrangeiras globais ainda depositam no Brasil, há claramente o risco de que a miopia de nossa agenda econômica atual leve a uma profunda deterioração das variáveis que, nos últimos vinte anos, vêm colocando o Brasil como um dos principais portos para o investimento internacional. Se este quadro perdurar, deixaremos em breve de sermos vistos como parceiros em empreendimentos globais, e nos tornaremos um mercado de especuladores e “negócios de ganho rápido”, onde empresas e projetos de setores já consolidados são vendidos a preço de banana. Ganhamos alguns cobres, mas perdemos oportunidades de, juntos com grandes parceiros globais, ter um futuro promissor e próspero para investidores nacionais e estrangeiros, e, especialmente, para todos os brasileiros.


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