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Mais por menos

Pressão e desafios da advocacia em tempos de globalização

O recado, em tom de alerta, foi dado pelo vice-reitor da faculdade de direito de Harvard, David Wilkins, na Conferência Nacional dos Advogados, no Rio de Janeiro. Os advogados devem se preparar para fazer mais por menos. E precisam estar atentos ao movimento de grandes bancas que estão investindo em tecnologia, justamente para fazer muito, muito mais rápido e por menos.

Este quadro gera a migração da advocacia individual para a formação de grandes firmas, fenômeno que também se verifica nos departamentos jurídicos das empresas. Uma evolução do trabalho artesanal para o tecnológico. Um quadro no Brasil que ele definiu como “inovação perturbadora”. E nesse contexto, o advogado é pressionado triplamente: pelos clientes, pelos competidores e pelas disputas internas em busca dos melhores talentos.

Abaixo, o JOTA resume em 10 pontos o que David Wilkins disse na palestra que intitulou “Globalização, Advogados e Economias Emergentes”.

1 – A globalização da economia e o maior acesso às informações reduziram a assimetria de conhecimento entre compradores e vendedores. Isso também vale para o mercado da advocacia.

2 – Os clientes com acesso a mais informação demandam mais transparência, forçando o detalhamento dos dados e seu reempacotamento, o que ampliaria o faturamento. Com isso, novos competidores aparecem: são empresas multidisciplinares que oferecem serviços integrados de finanças, estratégia e legislação. Este quadro gera pressão sobre a estrutura tradicional e o modo de trabalho dos advogados.

2 – Pesquisas feitas pelo GLEE (Globalization, Lawyers, and Emerging Economies) em parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV) mostram que o advogado está migrando do escritório individual para organizações profissionais, deixando o trabalho artesanal para um negócio ditado pela tecnologia.

3 – Muitos advogados continuam trabalhando sozinhos. Mas desde 1990, houve um crescimento significativo de bancas maiores: 92 novas firmas foram estabelecidas entre 1990 e 2000; 102 firmas entre 2000 e 2012. A maioria delas relativamente pequenas, com menos de 20 advogados. Do total, 54 têm mais de 20 advogados e 10 têm 300 ou mais profissionais. Além disso, 23 bancas estrangeiras se estabeleceram no Brasil – sendo 13 dos Estados Unidos e outras 7 do Reino Unido.

4 – Os departamentos jurídicos das empresas também cresceram desde 1990, especialmente em razão do aumento da complexidade dos assuntos envolvidos e o crescimento dos custos para contratar conselhos externos. Os dados mostram que 50% dos departamentos jurídicos têm 5 advogados ou menos. E 25% têm entre 6 e 10 profissionais. Por outro lado, 20% têm de 11 a 50 integrantes e 3% têm mais de 50 profissionais, incluindo Itaú (427), Bradesco (421) e  Oi (150).

5 – O mercado de advocacia era restrito aos homens de classe alta. Hoje, a realidade está mudando. As mulheres já são a maioria nas escolas de Direito (60%). Nos departamentos jurídicos, 54% dos profissionais são advogadas. Nas bancas, o percentual é de 45%. O machismo, porém, ainda é evidente: a maioria das mulheres está em posições juniores. Somente 35% das advogadas são sêniors e 28% são sócias. Nas firmas maiores e mais globalizadas, as mulheres têm mais espaço. Realidade brasileira que também é identificada por pesquisa feita na Índia.

6 – O Direito sempre foi um mercado de informação. Tradicionalmente, os advogados concentravam essas informações. A democratização da informação geral como consequências: novo formato para firmas, alavancado pela tecnologia, novas formas de praticar a advocacia e novas formas de medir a qualidade dos serviços. Tudo isso produz um quadro de “inovação perturbadora”, transformando radicalmente o mercado em pouco tempo.

7 – Isso já está acontecendo no Brasil, afirmou David Wilkins. E um dos exemplos mencionados por ele é o JBM, o maior escritório de advocacia do País desde 2009, que atua em frentes distintas: consultivo tradicional, ações de massa e inteligência artificial.

8 – A prática diferenciada da advocacia em cada país, língua e cultura não são mais barreiras para este novo tipo de atuação. E apesar das novas tecnologias permitirem contatos à distância, numa atuação mais globalizada, a presença do advogado ainda faz diferença.

9 – Hoje, o advogado está pressionado em três dimensões. Verticalmente pelo aumento da sofisticação das demandas e pela cobrança de mais por menos. Horizontalmente pelos múltiplos competidores. E internamento pela “guerra em busca do talento”.

10 – Os profissionais do Direito ao redor do mundo precisam responder a esses novos desafios do mercado global. “O mundo precisa de mais advogados do que antes. O mundo está mais complicado do que era”, afirmou David Wilkins. Vencer esse desafio requer a colaboração de atores distintos: a academia, com pesquisas e treinamento de estudantes para a nova realidade; as associações profissionais, com debates e propostas; e advogados ativos, dispostos a dividir ideias, informações e recursos para suportar esse trabalho.

 

* Professor Wilkins is the Lester Kissel Professor of Law, Vice Dean for Global Initiatives on the Legal Profession, and Faculty Director of the Program on the Legal Profession and the Center for Lawyers and the Professional Services Industry at Harvard Law School. He is also a Senior Research Fellow of the American Bar Foundation and a Fellow of the Harvard University Edmond J. Safra Foundation Center for Ethics.


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