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Vacinação: diferença entre doses distribuídas e aplicadas é de quase 30 milhões

Falhas no sistema de informações e superstimativa de grupos com comorbidades são alguns motivos para discrepância

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Vacinação drive thru na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Crédito: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Ponto de controvérsia entre gestores locais e o Ministério da Saúde, a diferença entre o número de doses de vacina contra Covid-19 distribuídas e aplicadas tem se ampliado com o avanço da campanha. Segundo dados do Ministério da Saúde atualizados nesta terça-feira (1º/6), foram distribuídas 96.954.449 doses. Esse é o número enviado pela pasta há mais de 7 dias. De acordo com o mesmo painel, contudo, apenas 67.432.730 doses foram aplicadas.

Na semana passada, o Ministério da Saúde liberou a vacinação de pessoas sem comorbidades para locais com demanda reduzida dos grupos prioritários. Conforme nota técnica publicada pela pasta, estados e municípios que imunizam os grupos de maior vulnerabilidade e trabalhadores de educação, poderão pactuar em Comissão Intergestores Biparte a adoção imediata da estratégia de vacinação segundo a faixa etária em ordem decrescente de idade.

Os dados fazem parte de um relatório semanal elaborado pela equipe do JOTA PRO para os assinantes dos planos de Poder e Saúde. Caso seja assinante, acesse aqui a íntegra.

A mudança foi adotada em função de relatos de gestores locais sobre queda na demanda nos postos, de acordo com a coordenadora do Programa Nacional de Imunização (PNI), Francieli Fontana. “A gente não pode deixar vacina estocada, então resolvemos flexibilizar essa ação para que possa acelerar a vacinação dos grupos prioritários”, afirmou.

Segundo Fontana, a demanda reduzida pode estar relacionada a superestimativas do grupo de comorbidades, feita com base em dados da Política Nacional de Saúde. “Tem alguns locais que já concluíram o grupo de comorbidades, mas a gente precisa garantir a vacinação dos grupos vulneráveis”, completou. 

A estimativa do ministério é de que 77.279.644 pessoas façam parte dos grupos prioritários, incluindo 17.796.450 pessoas com comorbidades, segundo nota técnica publicada em março. No documento, a pasta afirma que não foi possível obter estimativas para cada morbidade, excluindo as sobreposições. 

Entram nessa categoria brasileiros com diabetes, pneumopatias crônicas graves, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares ou cerebrovascular, doença renal crônica, imunossuprimidos, pessoas com anemia falciforme, obesidade mórbida, síndrome de down ou cirrose hepática, de acordo com o PNI.

Gestores locais negam estoque de vacinas

Apesar da mudança adotada na campanha de vacinação, gestores locais negam estar fazendo estoque de imunizantes. “A maior diferença é no momento da entrada do dado para o sistema do Sistema de Informações do Programa Nacional de Imunizações (Sipni). Mas não tem vacina parada nos municípios de maneira nenhuma”, afirmou o secretário-executivo do Conasems, Mauro Junqueira, ao JOTA.

Esse também é o entendimento da Confederação Nacional dos Municípios (CNM). “Não é um problema do município receber e não aplicar doses. Isso é impensável até porque os municípios, especialmente os pequenos e médios, não recebem milhares de doses para guardar. Recebem em pequenas quantidades e já logo convocam a população”, afirmou ao JOTA a Supervisora da área da Saúde na CNM, Carla Albert. 

A professora da Escola de Saúde Pública do Rio Grande do Sul também aponta que há falta de estrutura física para fazer esse tipo de estoque devido às condições de acondicionamento dos produtos e devido ao prazo de validade. 

Os motivos apontados para essa diferença de 29,5 milhões entre doses distribuídas e aplicadas são: 

  • Demora na inserção de dados e na atualização do sistema de informações do Ministério da Saúde; 
  • Tempo de distribuição das vacinas;
  • Rendimento dos frascos;
  • Abandono vacinal, principalmente relacionado à segunda dose e ao receio da população em relação aos efeitos adversos. 

Banco de dados do PNI

Há uma demora na atualização dos dados tanto por quem preenche quanto pelo processamento por parte do Ministério da Saúde. De acordo com o Conasems, esse atraso está acumulado e, por isso, a diferença entre o número de doses distribuídas e aplicadas é tão alto no momento. A vacinação “extra-muro” (em drive thru, por exemplo) é um fator de agravamento desse problema porque os dados são anotados em papel para depois serem digitalizados. 

Na grande maioria das cidades, o registro é escrito e depois digitalizado no Sipni, mas para essa informação aparecer no painel do ministério, é preciso que a pasta atualize o sistema. Em 7 de abril, a Confederação Nacional dos Municípios (CNM) enviou um ofício ao Ministério da Saúde em que pede que o problema da diferença entre os dados das vacinas aplicadas e registradas no Sipni seja sanado.

No ofício, a área técnica da CNM identificou que há perda de dados digitados no Sipni, discrepância entre os quantitativos digitados localmente no sistema e o dado publicado na base pública do Ministério da Saúde e atualização da base do sistema do Ministério em tempos espaçados. A manutenção programada nos diferentes bancos de dados também é citada como outro fator que leva à diferença dos números apresentados. 

Em nota ao JOTA, o Ministério da Saúde respondeu que o Localiza SUS é alimentado por estados e municípios e atualizado a cada 4 horas. “A pasta tem solicitado aos entes federativos para que as informações sejam inseridas no sistema com a maior celeridade possível”, diz o texto. De acordo com a Medida Provisória 1026 e a Portaria nº 69 do Ministério, esses dados devem ser inseridos no sistema em até 48 horas.

Algumas cidades, principalmente de médio e grande porte, têm bancos de dados próprios e não sobem os dados diariamente, de acordo com o Conasems, então o acompanhamento não é contínuo. Segundo o painel do Ministério da Saúde com dados até esta terça-feira, das 67.482.730 doses aplicadas, 4.199.592 ainda não entraram na conta da base de dados nacional. 

De acordo com o Ministério da Saúde, das 96.954.449 doses distribuídas pelo PNI, há mais de 7 dias, 6.550.702 estão em processo de distribuição. Há uma demora de cerca de 7 dias para completar a entrega feita pelos estados para os municípios. Em alguns estados esse período pode ser de até 10 dias. 

Rendimento dos frascos 

Também em 7 de abril, a CNM enviou um ofício ao ministério sobre o rendimento dos frascos. De acordo com o documento, as gestões municipais têm reportado recebimento de número de doses inferior ao indicado nos frascos das vacinas contra Covid-19. Por exemplo, se um frasco deve render 10 doses, está rendendo menos. 

Há três explicações possíveis apontadas pela área técnica da entidade. A primeira é que de fato haveria uma falha na informação fornecida pelo laboratório sobre o rendimento, de modo que o PNI pode informar na pauta de distribuição que entregou 6 milhões de doses, mas, na prática, menos gente foi imunizada.

Em 17 de abril, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) elaborou ofício concluindo que não há indícios de que frascos da CoronaVac estejam sendo fabricados com volume menor de doses. Um levantamento anterior do Conselho de Secretários Municipais de Saúde do Estado de São Paulo (Cosems-SP) apontou que 44,4% dos frascos analisados renderam menos que as dez doses indicadas.

Cada frasco da vacina produzida pelo Instituto Butantan contém 10 doses de 0,5 ml cada, totalizando 5 ml, e adicionalmente é envasado conteúdo extra, chegando a 5,7 ml por ampola, segundo o laboratório. A instituição sugeriu que a causa do volume inferior seria um somatório de fatores, como o uso de seringas com volume acima de 1 mL e técnica de aplicação inadequada.

Tanto erros de aplicação quanto o uso da seringa inadequada são as outras duas possíveis causas para o rendimento dos fracos, de acordo com a área técnica do CNM. Esses problemas estariam acontecendo não só com a vacina do Butantan. São recomendados tipos de seringas diferentes para cada imunizante.

Vacinação: abandono da segunda dose

Quanto ao abandono do esquema vacinal, segundo o Conasems, a procura para a segunda dose tem sido menor do que a da primeira dose. “Boa parte do que recebemos em maio é para a segunda dose da Astrazeneca. A população está sendo informada. A procura já não é com a mesma velocidade de quem não tomou nenhuma dose. Cada município tem sua estratégia de comunicação, de chamar, convocar as pessoas, então dá essa diferença”, afirmou Mauro Junqueira.

Não há uma campanha nacional efetiva ou estratégia coordenada de busca ativa para que as pessoas tomem a dose de reforço. Além disso, há pessoas que tomam a dose de reforço em município diferente de onde foi aplicada a primeira dose.

Havia uma demanda por parte de estados e municípios de envio de 24 milhões de doses da AstraZeneca como D2, segundo o Conasems e o Ministério da Saúde. Essa demanda está sendo suprida nesta semana e, a partir da próxima, as doses da vacina britânica deverão ser usadas como D1. 

Até o momento, foram aplicadas 19,39 milhões de doses da AstraZeneca, segundo o Ministério da Saúde, sendo apenas 2 milhões como D2. Considerando a data de vacinação, são necessárias 14,9 milhões de doses até agosto para completar o esquema de imunização. O percentual de aplicação dessa vacina varia entre estados, chegando a 39,4% das doses distribuídas no Rio Grande do Norte e a 10,5% em Roraima.

Efeitos adversos

Ainda não há levantamentos sobre o tema, mas outro fator apontado como possível causa para um déficit da campanha  é o receio do uso da AstraZeneca por parte da população devido a possíveis efeitos adversos. “Tenho recebido muitas queixas de reações adversas e não tenho visto muitas publicações do Ministério da Saúde para esclarecer o que está acontecendo com mais frequência”, afirmou ao JOTA o ex-secretário de Vigilância da pasta, Wanderson Oliveira.

De acordo com pesquisa Datafolha com dados coletados entre 11 e 12 de maio, 90% dos brasileiros pretendem se vacinar. Desse grupo, 82% declararam que tomariam a vacina norte-americana (era 78% em janeiro e 74% em dezembro de 2020), 75% tomariam a vacina inglesa (era 75% em janeiro e 70% em dezembro de 2020), 69% tomariam a vacina russa (era 66% em janeiro e 60% em dezembro de 2020) e 61% tomariam a vacina chinesa (era 58% em janeiro e 47% em dezembro de 2020).