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‘Ensinar a ler evidências é importante para a democracia’, diz Gary King

Professor da Universidade de Harvard, King é uma das maiores referências em metodologia nas Ciências Sociais

Gary King
Gary King, cientista político e professor de Harvard, durante a Summer School de Métodos - Crédito: IPSA-USP Summer School/ Divulgação
Itaú

“Ensinar a ler evidências é importante para a democracia”. Com esta frase, Gary King, cientista político e professor da Universidade de Harvard, resume seu trabalho com metodologia política. Desde os anos 80, o professor vem se especializando em como melhorar metodologicamente o estudo da Ciência Política no mundo.

Gary King veio ao Brasil prestigiar a 10ª edição da Summer School de Métodos, organizada conjuntamente pela International Political Science Association (IPSA) e pela Universidade de São Paulo (USP). Há dez anos, a IPSA-USP Summer School vem oferecendo cursos de metodologia para estudantes de dentro da universidade e de fora.

A metodologia em Ciências Sociais é importante porque permite que os pesquisadores cheguem a resultados mais robustos e corretos. O ensino de métodos faz com que a qualidade da ciência produzida no país aumente.

Além de discutir o que pensa ser o futuro da Ciência Política, King também apresentou seu recente trabalho, publicado na revista Science, que indica haver um impacto forte dos jornais na agenda pública nos Estados Unidos. Para chegar a essa conclusão, o professor se utilizou de um método muito comum nas Ciências Biológicas, mas não tão comum nas Ciências Sociais, o experimento controlado. Ao combinar com sites de notícia qual artigos publicar e quando, o professor conseguiu gerar grupos de tratamento e controle de notícia e identificar qual o impacto desses textos.

O JOTA conversou com Gary King para entender suas opiniões em relação à sofisticação metodológica das ciências sociais, da demanda por evidências quantitativas pelo público, da busca por inferência causal e do impacto do jornalismo no debate público.

Confira a íntegra da entrevista.

JOTA – Primeiramente, gostaríamos de falar sobre o status das Ciências Sociais e da Ciência Política e pesquisa hoje. O senhor tem artigos sobre isso. O que mudou nas nas últimas décadas em termos de pesquisa e metodologia?

Gary King – Em 1995, quando propus que todos que escrevem artigos para publicação em revistas acadêmicas disponibilizassem os dados e as informações necessárias para que outros replicassem os resultados, isso foi muito controverso. Houve 19 professores que escreveram respostas [artigos] para o artigo original, mesmo antes da publicação. Naquela época era padrão que você conseguisse os dados apenas se  agradasse o outro pesquisador e prometesse não criticá-lo. Agora isso mudou. Hoje é desconcertante se você não fornecer os dados para alguém. Então eu acho que nós realmente mudamos a forma de fazer pesquisa.

Isso se tornou senso comum em ciência política.

Sim, eu acho. Eu acho que é muito raro que você não consiga obter os dados de alguém. Ainda acontece, mas essa prática não é mais considerada aceitável.

Em termos de metodologia em geral, de que maneira ela se tornou mais sofisticada?

Bem, desde aquela época, ela se tornou muito mais sofisticada. Nós tivemos ajuda da revolução computacional, que ainda está ocorrendo. Melhoramos o treinamento para os estudantes de pós e graduação em Ciência Política, e a metodologia se tornou estatisticamente sofisticada. Antigamente, os estudantes faziam cursos de estatística em outros departamentos e depois aplicavam em Ciência Política. Agora eles ainda fazem isso, mas há um subcampo bastante ativo dentro da Ciência Política, chamado “metodologia política”, que faz grandes contribuições para área e para outras áreas às vezes. Há um pequeno grupo de metodólogos que estudando apenas isso.

Nós estamos contribuindo para áreas como a econometria, a estatística, a bioestatística e vários outros campos. Então, valeu a pena ter se tornado sofisticado. Apenas veja as melhores revistas acadêmicas, a qualidade dos trabalhos. Eu sei que ainda há problemas, porque as vezes você encontra algum erro, mas está muito melhor do que era.

Parece que metodologia política e estatística estão mais presentes na mídia em geral. Por exemplo, o FiveThirtyEight se tornou bastante famoso nos EUA. E outras publicações também, como o “The Upshot”, do New York Times. Que fatores levaram a essa popularização nos EUA? Algo mudou em relação ao público? Ele entende mais facilmente uma linguagem baseada em estatísticas?

Acho que é um caso de oferta e demanda. O público estava mais interessado em evidência séria que em ouvir um comentarista político dizendo que algo é verdade. Além disso, houve uma oferta de bons jornalistas de dados, treinados como estatísticos, e eles estão produzindo publicações de grande valor. Isso é muito importante porque ajuda a responder questões reais sem apenas a opinião de alguém.

Não é difícil obter a opinião de especialistas, mas é muito difícil produzir uma resposta que provavelmente vai estar correta. Então oferta e demanda interagem e você tem o público querendo mais evidência e nós oferecendo melhores profissionais. Isso é muito importante.

Não acho que isso seja só uma tendência, isso realmente importa para a sociedade. Então se você quer fazer boa política pública, tenha boas evidências, mostre ao público. E eu acho que os governos estão agora reconhecendo mais a importância disso. Muitos governos estão exigindo experimentos controlados para avaliação de políticas públicas. Claro que políticos têm objetivos diferentes, e que isso é separado. Mas eles vão ter que implementar políticas, e é melhor pegar aquelas que funcionam.

Parece haver um contraste entre EUA e Brasil em relação ao jornalismo de dados. O senhor disse que o que explica é oferta e demanda. Mas não há outros fatores? Por exemplo, no Brasil parte do público ainda não entende bem aquilo que é produzido em termos de jornalismo de dados. Quando olhamos análises em publicações americanas, como as do Nate Silver, parece que elas são muito mais sofisticadas. Educação do público explicaria essa diferença?

Por exemplo, estes cursos de verão [como o IPSA-USP Summer School] terão um impacto porque você treina pessoas e elas serão seus leitores e tomadores de decisão, e isso definitivamente terá um impacto.

Aqui no JOTA, fizemos por exemplo um agregador de pesquisas para as últimas eleições.

E o público não estava interessado em quem venceria as eleições?

Sim, mas ao mesmo tempo o público estava bastante polarizado no Brasil. Parte do público rejeitou o que se escrevia na imprensa, porque para eles na imprensa estariam os comentaristas políticos e os comentaristas políticos não seriam dignos de confiança, porque cometeram muitos erros de análise, por exemplo, durante as eleições do Donald Trump nos EUA. Em parte, eles tinham razão. Vários comentaristas cometeram erros sérios de análise.

Essa história não acontece só no Brasil. Ocorreu nos EUA e em outros lugares. É que as pessoas são atores políticos. Elas querem certas coisas. Elas querem convencer outras pessoas sobre política. Elas querem resultados e vão usar de quaisquer meios pra conseguir que outras pessoas fiquem do lado delas. E a verdade, evidências, boas inferências são coisas que eles podem usar. Argumentos também.

Esses não são particularmente os objetivos daqueles que estão na Academia, de produzir conhecimento sobre o mundo. E então nós temos essa interação estranha entre o público e os acadêmicos. Os acadêmicos pensam: “espera, vamos separar os fatos dos argumentos”. Mas a maioria das pessoas não pensa assim. Elas pensam: “bom, existe o meu lado e o seu lado”.

Bom, se você conversar, elas entendem que há melhores respostas e há coisas factuais que são mais próximas da verdade. Não sempre, mas elas passam a prestar mais atenção nisso. Isso é muito importante, por exemplo, quando os partidos querem as políticas públicas de seu interesse implementadas. Todos os partidos, por exemplo, gostariam de saúde para todos, reduzir crime, melhores condições econômicas, menores taxas de mortalidade. Cabe a nós convencer os outros a prestar atenção na evidência. É do interesse de todo mundo que no longo prazo prestemos atenção nisso.

O senhor escreve muito sobre causalidade e métodos de inferência causal. O público, porém, não parece entender as particularidades de inferência causal. Um exemplo recente foi a mudança de regras de posse de arma no Brasil e a discussão se mais armas causam mais mortes. O ministro da Justiça, Sergio Moro, por exemplo, pareceu não acreditar que mais armas causem mais mortes. Como se deve informar o público sobre isso?  Deveríamos ensinar isso no Ensino Médio?

Creio que deveríamos ensinar alunos de Ensino Médio. É uma área muito importante. Se você pensar o que significa, é o efeito de uma coisa em outra. Quem não estaria interessado nisso? Quem não estaria interessado nos efeitos das políticas públicas na realidade? Ou reportar o efeito do que você come em sua saúde? Ou o efeito de ir à escola em sua renda e felicidade no tempo? Com certeza é uma coisa importante.

A humanidade tem lidado com o efeito de alguma coisa em outra por milênios. Entretanto, isso só começou a ser entendido nos anos 80. Não sabíamos muito bem o que era isso antes. Levará um tempo pra divulgarmos esse conhecimento. Mas, na minha opinião, sim, alunos de ensino médio deveriam aprender isso.

Deixe-me dar um exemplo. Quando minha filha era criança, eu a coloquei na frente do espelho e disse: “olhe no espelho, você vai ver uma garotinha. Ela está fazendo você fazer fazer coisas. Toda vez que ela levanta o braço, ela causa o levantamento do seu braço. Toda vez que ela movimenta a perna, ela causa o movimento da sua perna”. E ela disse: “isso não é verdade. Quando eu movimento meu braço, a pessoa no espelho movimenta o braço dela.” E eu perguntei: “Como você sabe disso?” E ela respondeu: “Porque quando eu penso em levantar o braço, eu levanto antes, e eu vejo a garota no espelho fazer isso”. E eu disse: “creio que não, isso só ocorre porque a garota no espelho pensa em levantar o braço antes, e aí você pensa, e como resultado, você levanta o braço”.

Esse é um exemplo um pouco bobo, porque obviamente minha filha está causando o que ela vê no espelho. Mas como sabemos? Como criamos experimentos para convencer as pessoas de coisas? É algo, de fato, difícil. Esse tipo de questão é difícil e, décadas atrás, acadêmicos não sabiam muito bem a melhor maneira de respondê-las.

Esse é um exemplo muito simples. Agora pense num exemplo mais complicado, como implementar uma grande e complicada política pública no país inteiro. Como você sabe o efeito dessa política? Eu fiz um experimento aleatório controlado no México há alguns anos. O experimento era sobre plano de saúde para todo mundo. E eles estavam fornecendo plano de saúde para todos. Então quem você vai comparar? Como você sabe o efeito dos que obtiveram o plano em relação aos que não obtiveram? Então eu desenvolvi um método para medir isso. Seres humanos levaram milhares de anos para descobrir como fazer isso. Então é algo que vale a pena convencer outros. É muito importante.

Eu tenho uma outra questão relacionada ao mundo do Direito. Há alguns anos, o senhor publicou um artigo em uma revista de Direito, chamado “Regras de Inferência”, dentro do contexto da pesquisa jurídica. Como as Faculdades de Direito nos Estados Unidos estão adaptadas a essas regras e à pesquisa que se faz nos Departamentos de Ciência Política?

Eu e Lee Epstein [professora de Ciência Política da Washington University in St Louis] escrevemos esse artigo porque percebemos que havia uma desconexão entre as maneiras que os advogados pensavam sobre o mundo empírico e a maneira que nós, cientistas sociais, pensávamos sobre o mundo empírico.

A diferença é que os advogados sabem coletar evidência muito bem, mas eles não sabem lidar com inferência. Então, evidência é basicamente os fatos que você vai coletar. Inferência é usar os fatos que você tem para obter os fatos que você não tem. E é com isso que nos importamos, certo? Inferência é importante, é importante dentro dos tribunais. Você tem os fatos sobre uma pessoa sendo julgada. E você não sabe se essa pessoa cometeu o crime que ela está sendo acusada. Esses são os fatos que você não tem. Então como chegamos a isso?

Isso é inferência, e as regras de inferência são diferentes das regras de evidência. As regras de evidência os advogados conhecem bem. Você quer proteger a corrente de informação do mundo real para os dados que você tem. Você quer ter certeza que essa corrente é sólida. Mas essa pilha de dados nunca é a resposta para o que os Tribunais ou juízes estão perguntando. Pra isso, são necessárias várias pressuposições.

Em artigo à revista Science, o senhor apontou que o impacto do jornalismo é muito forte. Mas o jornalismo vem passando por descrédito, sobretudo por governantes populistas. Donald Trump, por exemplo, ataca a imprensa constantemente. Parte do público diz que não acredita na imprensa. Mas seu artigo mostra que o impacto dos jornais na agenda pública é ainda bastante grande. Como esse impacto tem mudado nos últimos anos?

A estrutura do jornalismo mudou e a estrutura dos jornais também. Antigamente você tinha um enorme custo pra publicar uma matéria na imprensa. Agora, você consegue subir algo num site em 5 minutos sem custo, postar nas redes sociais e muitas pessoas vão lê-la. Você pode gerar na internet uma falsa organização e você não terá nenhuma reputação. Reputação é a palavra-chave. As coisas que os jornais publicam são cuidadosamente checadas pelos editores, porque reputação é a alma da organização, é o que está em jogo. Mas se alguém, em algum lugar, cria uma organização desconhecida, por exemplo, com o nome “Brasil12”, eles podem publicar o que quiserem. Mas não terão reputação. As pessoas confiam no que possui reputação. Elas têm um bom detector do que é ruim ou não.

Mas baseado na pressuposição de que as pessoas não conseguem distinguir o que é “fake news” do que não é, uma consequência é que “fake news” poderiam afetar a agenda pública também?

Certo, pode ser. Com certeza pode ser. Isso seria o caso se as 40 publicações que eu estudei em meu artigo publicassem “fake news”, isso com certeza influenciaria a agenda pública. Porém, eles começariam a perder renda, e sairiam do negócio. Então, eles não têm um incentivo para fazer isso. Então a questão é diferente, é se um jornal “fake” publicando “fake news” tem influência no debate. E nós não sabemos a resposta para isso.

Em um paper, Brendan Nyhan [professor da Universidade de Michigan] afirma que parece não ter havido muita influência das fake news nas eleições americana, na contramão do que afirmaram vários comentaristas políticos. O senhor concorda?

Bem, pode ter tido um efeito. Nós só não conseguimos mostrá-lo ainda nem temos informação para isso. Nós devemos coletar dados para testar. Por exemplo, quando coletamos dados sobre o que a China estava fazendo [na fabricação de posts de mídias sociais – caso analisado em artigo por King], que é um Estado comparado (comparável) à Russia. Eles leem todo post em redes sociais. Eles decidem o que censurar e eles fabricam à mão 450 milhões de posts. Isso é o que um Estado é capaz de fazer. Então, pensando sobre a Rússia — que não tem tanta capacidade quanto a China, mas é bastante capaz — obviamente a Russia poderia ter feito algo dessa ordem de magnitude, mas nós não sabemos ainda. Quando uma empresa de rede social encontra algumas páginas e as derruba, mesmo se um milhão de pessoas a viu, isso está mudando sua opinião, correto? Mas a maioria das pessoas respondeu que não mudou. Então precisamos de mais dados para realmente entender se mudou ou não.


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