Opinião & Análise

Lista tríplice

Revés da Lava Jato pode impulsionar recondução de Dodge?

Mesmo sem aval interno, nome de atual chefe do MPF contaria com apoio no STF, STJ, OAB e de setores do Congresso

Dodge
Sessão plenária do STF. Foto: Nelson Jr./SCO/STF

O revés da Lava Jato em julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) e a abertura para investigar ataques ao tribunal, inclusive por parte de procuradores da República, teve um efeito político colateral: o apoio à recondução de Raquel Dodge ao cargo de procuradora-geral da República. Mesmo que não tenha voto para figurar na lista tríplice de candidatos ao cargo em eleição feita pela Associação Nacional dos Procuradores da República.

Parte dos ministros do STF, especialmente, reforçam as críticas à lista tríplice na tentativa de enfraquecer o movimento corporativo que alijará Raquel Dodge. Sem apoio da base, Dodge dificilmente teria votos hoje para figurar na lista.

Não existe previsão legal para a lista tríplice. Mas desde o governo Lula, a manifestação da categoria tem sido prestigiada (Lula e Dilma Rousseff indicaram os mais votados, Michel Temer indicou Dodge, que foi a segunda da lista).

Os primeiros sinais foram revelados ontem, no julgamento em que o STF manteve sua jurisprudência e reafirmou a competência da Justiça Eleitoral para julgar crimes comuns – como corrupção – conexos aos delitos eleitorais.

Durante a sessão, Dodge foi expressamente defendida por Gilmar Mendes das críticas que parte da carreira faz à sua condução da Procuradoria-Geral da República (PGR). Disse que a pressão corporativa por verbas poderia ser o motivo do descontentamento da carreira. O ministro afirmou que Dodge certamente não iria se pronunciar publicamente sobre isso.

Celso de Mello também salientou a diferença entre a postura de Dodge no julgamento de ontem e o comportamento de procuradores da República nas redes sociais. Dodge ressaltou o respeito à decisão do STF, mesmo não concordando com o mérito.

Os procuradores da República, como Deltan Dellagnol, disseram que a decisão do tribunal fecha a janela para o combate à corrupção. Em um gesto pouco usual, o decano da Corte chegou a ler, durante seu voto, uma entrevista concedida pela chefe do MPF sobre o tema minutos antes do início da sessão do STF.

O movimento em prol de Dodge, de acordo com fontes no STF, contaria ainda com o apoio da cúpula da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), ministros do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e de parlamentares de diversos partidos.

Bolsonaro já indicou que Dodge não seria sua escolha. Além de ter sido denunciado por ela por racismo (denúncia que foi rejeitada pelo STF) e ver seu filho Eduardo Bolsonaro também acusado pela atual chefe do MPF, Bolsonaro elegeu-se com a bandeira de defesa da Lava Jato e apoio à atuação dos procuradores. Além disso, a presença de Sergio Moro no Ministério da Justiça e o posicionamento de sua base de sustentação contra a decisão do STF indicam resistência a essa articulação.


Faça o cadastro gratuito e leia até 10 matérias por mês. Faça uma assinatura e tenha acesso ilimitado agora

Cadastro Gratuito

Cadastre-se e leia 10 matérias/mês de graça e receba conteúdo especializado

Cadastro Gratuito