Opinião & Análise

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Com agenda da ‘ordem’, Bolsonaro tenta atrair esquerda para o campo de batalha

Do AI-5 ao excludente de ilicitude em GLOs, palacianos vocalizam desejo de enfrentar ativistas com regras mais duras

Bolsonaro
Presidente Jair Bolsonaro em comemoração de aniversário de criação da Brigada de Infantaria Paraquedista. Crédito: Marcos Corrêa/PR

O governo Jair Bolsonaro estimula, de forma enviesada, a eclosão de manifestações de rua que tenham um “carimbo vermelho”. A estratégia serve de vacina para desmobilizar possíveis protestos horizontais, sem vinculação partidária e de altíssimo poder de engajamento popular, como os de 2013.

Senhas para o confronto são distribuídas por atores relevantes do Planalto desde que explodiu a tensão social no Chile, que persegue um modelo ultraliberal tal qual o pretendido pela equipe de Paulo Guedes.

Medidas preventivas e repressivas em debate no entorno do presidente começaram a ser tratadas em público por Eduardo Bolsonaro e agora chegaram ao léxico do ministro da Economia. Do AI-5 ao excludente de ilicitude em GLOs, os palacianos vocalizam um desejo conhecido do bolsonarismo: enfrentar ativistas com leis mais duras e licença para atirar, pavimentando o percurso para uma nova disputa eleitoral polarizada e passional.

Governistas vislumbram vantagens na hipótese de a esquerda, e sobretudo Lula, morderem a isca. A primeira delas é que as recentes mobilizações lideradas por sindicatos e movimentos sociais têm sido esvaziadas e caracterizadas como ação político-partidária.

E mais: parcela expressiva da população aprova repressão oficial quando há vandalismo. Além disso, qualquer turbulência de rua pode virar álibi para a demora dos sinais de recuperação do emprego e da capacidade de compra dos salários –e até do bloqueio na agenda reformista do Congresso. Por fim, a necessidade de uma reação institucional engajaria a cúpula militar, que vira e mexe exibe sinais de descontentamento no Planalto.

O acentuado risco de aumento da desconfiança global sobre os rumos do país parece não comover o presidente e seus principais assessores. A lógica que prevalece no QG bolsonarista é escolher o inimigo o mais rápido possível, delimitar seu campo de batalha e sufocar o centro político, montando a trincheira para seguir no poder até, pelo menos, 2026.


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