Style de vie

Style de Vie

O romantismo noir: de Goya a Max Ernst

Época herda as luzes e a libertinagem, isto é, o pensamento livre

Museu d’Orsay e Rio Sena, em Paris. Imagem: Pixabay

“Mergulhar no fundo do abismo, inferno ou céu, que importa? Ir ao fundo do desconhecido para achar o novo”.

Baudelaire

O Museu d’Orsay apresentou recentemente a exposição l’Ange du bizarre – le romantisme noir, de Goya à Max Ernst, reunindo produções artísticas que vêm do fim do século XVIII para ir até os surrealistas, por volta dos anos 1930.

É uma expressão pouco usada, mas presente entre os artistas, o “romantismo negro”. Ele aparece como um estado de espírito comum entre os artistas em diferentes épocas, tendências e países. Alguns dentre eles não são, a priori, assimilados a esse universo, embora tenham produzidos obras visivelmente noir.

É o caso de Paul Gauguin. Os artistas são freqüentemente mais sensíveis em sua juventude porque o romantismo noir é profundamente ligado a uma exploração do inconsciente e dos desejos reprimidos. Mas igualmente as dúvidas quanto à existência de Deus, como, por igual, a obsessão da morte. É preciso agregar o fantástico, erupção do anormal ao meio de um cotidiano que frequentemente passa pelo extraordinário. Como se pode ver, por exemplo, entre os simbolistas, onde uma paisagem urbana de aparência normal é transformada numa inquietante floresta obscura. Como dizem os organizadores da brilhante exposição, em 1919 Freud explicitou tudo isto em seu ensaio sobre a inquietante marca das coisas estranhas, das coisas extraordinárias, das coisas incomuns.

A exposição começa no fim do século XVIII com Goya e Füssli. Verifica-se que os demônios, as feiticeiras e os monstros, vindos da Idade Média, ressurgem no século das luzes, na idade da razão. A resposta é que a Revolução Francesa criou uma mudança de referências sociais, religiosas e morais. Diante desse futuro incerto, essa ordem nova, que praticamente destruiu a autoridade da igreja, mas que, por igual, diante da ideologia revolucionaria transformada em Terror, as assombrações arcaicas ressurgem. É a angustia do homem incrédulo, mas ao mesmo tempo insatisfeito com as ideologias materialistas e racionalistas. O recurso às tradições populares e ao fantástico medieval é uma reação natural.

Mas é certo que o romantismo noir recebe sua força de uma outra origem, pois o pensamento da época herda as luzes e a libertinagem, quer dizer, o pensamento livre. Tomando conhecimento de sua liberdade, o homem deixa abrir um novo espaço mental, onde pode exprimir tudo aquilo que, nele mesmo, não é controlável nem pela razão, nem pelas convenções sociais: de uma parte o corpo e suas pulsações; de outra parte, o inconsciente e suas manifestações.

No fim do século XVIII apareceram sob o pincel de vários artistas, como Goya e Füssli, visões lúgubres, que se propagaram cedo por toda a Europa. Esse cenário tenebroso sucede a um século de luzes que, portanto, parecia não dar lugar ao obscurantismo medieval e suas quimeras. Mas se as criaturas vindas do romantismo noir são os herdeiros das bestas infernais presentes nas pinturas do barroco, por exemplo, elas são, de então para a frente, emanações puras do espírito do artista, emancipado das crenças religiosas, procurando descobrir as profundezas da alma e exaltar os sentidos.

Os artistas mergulham em atmosferas sepulcrais e na literatura fantástica contemporânea (Goethe) ou clássica (Dante e Shakespeare), que oferece um repertório iconográfico rico de sombras e de tormentas. Pois a ideia da beleza clássica, governada pela graça e pela harmonia, não é mais o valor último da arte. É, portanto, sobre esse terreno fértil que a geração romântica da Europa do século XIX irá celebrar o poder do sentimento e a subjetividade, deixando livre curso a sua imaginação.

De 1870 a 1910, com o simbolismo e seus grandes interpretes (Moreau, Böcklin, Spilliaert) renascem as hordas de criaturas estranhas e de mundos fantásticos com os simbolistas. Uma vez mais o movimento aparece como um contraponto à tendência racionalista e materialista que domina o mundo de então. Longe de um impressionismo ou de um naturalismo ancorados no real e no contemporâneo, a corrente ressuscita os mitos antigos, faz renascer uma linguagem simbólica a fim de re-introduzir a espiritualidade na arte de exprimir a essência das coisas baseada apenas na sua aparência.

O imaginário retoma seus direitos. Na exibição da morte, a mulher tem o primeiro papel. A tentativa perversa e fatal torna-se uma obsessão sob a aparência charmosa de Eva ou da Medusa (Böcklin). Mais do que nunca, os artistas exprimem seus fantasmas mórbidos e sexuais, explorando os abismos da alma. A época se apaixona pela hipnose, pelo sonambulismo, novas portas de um universo interior secreto. O fantástico não é apenas um mito: ele aflora e se mostra portando uma realidade sensível e familiar. Diante da angustia da modernidade, os monstros perdem então o monopólio da sombra e o fantástico ocupa seus espaços.

Em 1920 surge o surrealismo com Magritte, Max Ernst, Salvador Dali. Em seu manifesto de 1924, André Breton invoca o poder do sonho. Este mesmo sonho que, segundo Freud em 1899, nos entrega as chaves de nosso inconsciente, ao tempo em que revela os desejos reprimidos.

É então que, liberados de todo o controle da razão, os artistas procuram-lhes traduzir os caprichos do seu psiquismo. A realidade revela sua parte do irreal (Magritte) e o mundo mergulha nessa inquietante étrangeté (marca daquilo que é estranho, uma coisa verdadeiramente estranha), como teorizada por Freud em 1919. A floresta assombrada dos contos de fadas se transforma em linhas entrelaçadas antropomórficas e simbólicas (Max Ernst). A imagem onirique multiplica os níveis de leitura e de conhecimento (Salvador Dali).

Com os surrealistas, o fantástico não é mais apenas um meio de excitar os sentidos, mas sim o resultado de uma escritura automática. E nos pesadelos dos seres viventes o cadáver não produz mais horror, ele é particularmente requintado.


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